Menu Fechar

Homo Políticus

Miguel Correia

Num mundo justo, com igualdade de oportunidades, teria hipótese de exprimir os meus sentimentos e opiniões num debate radiofónico ou, porque não, televisivo. Como a realidade é bem diferente, tenho de aturar os peneirentos que têm lugar cativo nesses debates. Talvez um dia me convidem para um qualquer evento público ou consiga vencer o Euro Milhões (sinceramente, entre um e outro, será mais fácil ficar milionário).

Como espectador vou descarregando a minha frustração no teclado do computador, ao mesmo tempo que escuto dois comentadores desportivos explicar que os grandes clubes europeus querem contratar o Bruno Fernandes, mas nenhum avança com propostas. Minutos depois, o programa seguinte dá voz a outros dois comentadores políticos que explicam as medidas severas, tomadas pelo Governo, para resolver a crise energética. Dou por mim a pensar que os grandes clubes europeus deveriam fazer uma proposta pelos membros do Governo (e demais figuras políticas, também) em vez do jogador do Sporting. Sempre ficava mais barato e uma limpeza de balneário (neste caso, Assembleia da República) vinha mesmo a calhar!

Tendo por base o recente arrufo dos combustíveis (mais uma vez se anunciou erradamente o fim do mundo) vamos esmiuçar o fantástico serviço público das forças partidárias lusitanas e deduzir que, com estes protagonistas, continuamos a reforçar o estatuto de parente pobre do projeto Europeu.

Enquanto o PS (Partido Socialista) primou por aniquilar toda e qualquer vontade de parar os camiões – mesmo que o motorista parecesse um figurante do Walking Dead – os outros partidos, pura e simplesmente, desapareceram de cena! O PSD (Partido Social Democrata) demorou vários dias para abdicar do silêncio e só reagiu quando foi criticado publicamente por um militante.

O CDS (Partido Popular) teve uma reação completamente bizarra: apoiou a intenção do governo, agindo como uma filial dos socialistas! O BE (Bloco de Esquerda) também andou por parte incerta. Nunca a Catarina Martins esteve tão insensível com uma manifestação de trabalhadores. O PAN (Pessoas, Animais e Natureza) continuou a celebrar a eleição de um deputado para o Parlamento Europeu. Mais depressa defendem os direitos de um rafeiro num restaurante que um camionista que come enquanto conduz! O único que – aparentemente – esteve eufórico foi o PCP (Partido Comunista). Durante uma semana conseguiram recuar no tempo e viver os tempos áureos do comunismo puro: a racionalização cingiu-se apenas ao combustível, mas foi algo de incrível e deu para matar saudades. Avante, Portugalinegrado!

Agora que a pseudo-greve terminou (e paira a ameaça de uma nova greve) todos os partidos e seus representantes agem como baratas tontas. É imperativo recuperar tempo perdido, tendo em conta próximas eleições. Os assuntos relevantes da nossa atualidade estão, de novo, em debate. Tudo se critica, nada se resolve! Talvez por isso, e na minha modesta opinião, fosse melhor empandeirar estes ilustres “homo políticus” para bem longe e contratar alguém que, de facto, se preocupe – e queira – resolver as maleitas destes pobres cidadãos. Talvez seja este sentimento (generalizado) que dá constantemente a vitória eleitoral à abstenção. E, contudo, nunca deixam que seja ela a formar governo…

Cartoon: António Martins (pesquisa Google)

01set19

 

Partilhe:

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.