Menu Fechar

O Jardim do Passeio Alegre

Maximina Girão Ribeiro

Nesta ronda pelos jardins do Porto, desta vez, escrevemos sobre os aspectos históricos relacionados com o magnífico espaço de lazer da cidade, que é o Jardim do Passeio Alegre.

Este jardim existe desde finais do séc. XIX e foi projectado à imagem do que já existia em muitas outras cidades europeias que seguiam as ideias veiculadas pelos filósofos iluministas, do séc. XVIII, ao preconizarem um maior contacto com a natureza, fugindo à insalubridade das cidades, para usufruírem de ares mais puros.

O jardim público tornava-se, assim, um lugar de eleição para as famílias poderem desfrutar de locais ajardinados e arborizados, com sombras para fugir ao calor, com bancos que pudessem promover o descanso e as conversas, o convívio ou a contemplação do rio e do mar… As diferentes formas de sociabilidade podiam, assim, ser cultivadas nestes jardins públicos, tanto pela aristocracia, como pela burguesia, que aqui encontravam um lugar em comum.

A concepção deste espaço ajardinado e arborizado contou com a intervenção de Émile David, o arquitecto paisagista alemão que se radicou no Porto, em 1864, ano em que foi convidado para o planeamento e a direção dos jardins do Palácio de Cristal, sendo igualmente o autor do desenho de grande parte dos jardins públicos da cidade do Porto e, também, de alguns particulares.

Este jardim, para lá da beleza natural, apresenta elementos arquitectónicos de grande valor patrimonial que o torna uma verdadeira jóia, integrada na malha urbana. Localizado junto à foz do rio Douro, na proximidade do mar, é ladeado por uma Alameda de Palmeiras que vão resistindo a uma série de vicissitudes que as vão atacando e destruindo. Contudo, o que mais valoriza este jardim são os diferentes equipamentos de que foi sendo dotado, ao longo do tempo: um chafariz em granito; dois monumentais obeliscos decorativos; um coreto; um pequeno “chalet romântico”; sanitários públicos característicos de uma época; um minigolfe…

Comecemos pelo chafariz, situado no extremo noroeste deste jardim. Pois, este chafariz é proveniente do convento de S. Francisco, no Porto, construído pela ordem mendicante dos Franciscanos, no séc. XIII, na margem direita do Rio da Vila, junto do Rio Douro.

Com o decorrer do tempo, no século XVIII, o seu claustro, que existiu no local onde hoje se situa o Pátio das Nações do Palácio da Bolsa, foi embelezado por um chafariz, de gosto vincadamente barroco e de características muito peculiares: granítico, constituído por uma coluna central que apresenta motivos vegetalistas e bizarros animais a decorarem uma taça, alta e elegante, de onde emergem, no centro, três peças, cuidadosamente esculpidas.

Em torno da taça existem quatro carrancas, com remates vegetalistas, que marcam as saídas de água. Todo este conjunto assenta num grande tanque quadrilobado, com uma base de três degraus. Este chafariz, classificado como monumento nacional, foi trasladado, em 1869, para o Jardim do Passeio Alegre, numa altura em que o convento já se encontrava desactivado, não só pela lei de extinção das ordens religiosas, como pela destruição, através de um incêndio, durante o cerco do Porto, em 1833, quando aí se instalou um Batalhão de Caçadores, pertencente às forças de D. Pedro IV. No jardim do Passeio Alegre, este equipamento utilitário ganhou uma nova vida pois, com a água a jorrar, cria um ambiente muito mais atractivo.

No topo nascente do jardim, encontram-se dois monumentais obeliscos, de 12,6 metros de altura, colocados como se fossem os guardiões silenciosos deste jardim. Estiveram, durante muitos anos, a assinalar a entrada da Quinta da Prelada, que era na actual Rua [da Prelada] dos Castelos (na zona do Carvalhido). Foram idealizados por Nicolau Nasoni quando, no século XVIII, o arquitecto projectou a quinta e os jardins, assim como a residência da família dos Noronha e Meneses.

Num jardim ao estilo romântico, tinha de existir um coreto… e, ele lá está! Embora tenha sido integrado no jardim, posteriormente, já no século XX (1902), embora sejam conhecidos registos de que o coreto tenha sido planificado em 1888, com abóbada em ferro. Este equipamento teve um papel importante na animação do local, em vários dias da semana, sobretudo na época balnear, quando o espaço era mais frequentado pelos veraneantes.

Entre lagos e esculturas, bancos de madeira e muitas árvores já centenárias, como as tílias, ciprestes, plátanos e as araucárias, sobressai um pequeno “chalet romântico”, construído em 1874, mesmo antes do acabamento do Jardim. É agora um café-bar e ostenta no cocuruto do telhado a escultura de um carneiro, pintado de branco. Porquê um carneiro? Há várias suposições, contudo, se o animal não tem a ver com S. João Baptista e o carneirinho que lhe está associado, pode ter a ver com o nome do primeiro proprietário do chalé, António Carneiro dos Santos… Aceitamos, no entanto, a imaginação fértil, feita lenda, contando que, em tempos remotos, os pastores terão andado por aqueles sítios com os seus animais, à procura de pasto e, um dos carneiros ter-se-á perdido do rebanho, no sítio onde se encontra o chalé…

A corroborar este facto existem, perto do jardim, duas praias cujos nomes nos remetem para esta prática laboral da pastorícia: praia das Pastoras e praia do Carneiro. Este pequeno edifício, também já foi conhecido por“Chalet do Carneiro” sendo, hoje, conhecido por “Chalé Suíço” (Chalé Suisso), graças a um antigo proprietário. O edifício em causa foi classificado como imóvel de interesse municipal, não só pela sua configuração arquitectónica, como também por representar um local emblemático, na cultura da cidade, por onde passaram frequentadores como Camilo Castelo Branco, Arnaldo Gama, Ramalho Ortigão, Alberto Pimentel e outros, muitos outros…

De igual modo, também as casas de banho públicas, construídas em 1910, com os seus azulejos de Arte Nova e as loiças inglesas de porcelana fina, merecem também uma visita! Também um minigolfe, cuja origem remonta ao ano de 1967, constitui um polo de atracção deste jardim.

Fica o convite para visitarem ou revisitarem este jardim e apreciarem os diferentes aspectos patrimoniais que aqui vos relatei. E, por que não, uma viagem de eléctrico até lá, recordando velhos tempos?

Fotos: pesquisa Google

01set19

Partilhe:

2 Comments

  1. Anónimo

    Obrigada pelo teu comentário, Céu! Faço o possível por escrever sobre a “terra do meu coração”, divulgando alguns aspectos mais esquecidos!

  2. Céu Begonha

    Excelente é preciso dar a conhecer o que o Porto tem de melhor . Obrigada ?Maximina vou passar a chamar – te a embaixadora da nossa terra ?

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.