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Partilha de tradições, o espelho de saudade

Lurdes Pereira (*)

Membro efetivo da Federação de Folclore Português desde 1980, o Grupo Folclórico e Etnográfico de S. Pedro de Paus voltou, pela 38.ª vez, a ser anfitrião e palco de mais um Festival Internacional de Folclore. A tarde de 4 de Agosto foi uma agradável ode ao modo de vida do Portugal no séc. XIX. Entre o popular e o mais erudito, entre geografias mais abastadas e as mais vulneráveis, o objetivo é a partilha de memórias do Portugal profundo que contrastam com outras histórias, outras culturas, outras economias em tempos que, mesmo difíceis, são recordados com saudade.

Enraizados na cultura da sua região, o Grupo etnográfico de São Pedro de Paus mantém viva a memória de outrora numa época distante da Revolução Industrial. Numa encosta de parcos recursos, o modo de vida assim determinava o pequeno guarda-roupa ao longo do séc. XIX. Mas na história da “moda”, os Trajes de casamento, domingueiros, romaria, serranos de Montemuro, pastores em dia de chuva, podadores e vindimadores do Douro, Barqueiros de Barcos Rabelos, fidalgos de Brasão, trabalhadores do campo, negociantes das feiras e rogadores das vindimas têm um carácter histórico-museológico de valiosíssima importância na identidade deste povo implantado no manto verde de Montemuro, encostadinho às nuvens do céu.

Uma outra particularidade de relevo que o grupo tende manter é a pluralidade dos ofícios artesanais como Olaria Negra, a cestaria, chapelaria e tecelagem. Como forma de homenagem, uma silhueta de forma humana representou, durante todo o evento, a memória do último oleiro de Fazamões, o saudoso Mestre Joaquim a moldar as panelas de barro na roda baixa. Todo o artesanato caiu em desuso, mas a prioridade do Grupo Folclórico e Etnográfico de S. Pedro de Paus é ser um veículo vivo de persistência na divulgação da sua história e na preservação da sua “lenda”.

Para além do grupo anfitrião, participaram vários grupos de folclore nacionais e estrangeiros. O Grupo Ballet Cultural Argentino, Grupo Folclórico de S. Cosme de Gondomar, Rancho Etnográfico de Santa Maria de Negrelos, Grupo folclórico da Casa do Povo de Recarei, e o Grupo Folclórico de Danças e Cantares de Alvarães ensoalharam-nos a tarde de 4 de Agosto com a tradição no plural.

A contrastar com a vertente de carácter folclórico que nos é familiar, o Grupo Ballet Cultural Argentino ofereceu um palco rico de novidades e tradições. Entre a expressão corporal mais popular e a mais erudita, o Grupo de Ballet relembra o berço do Tango Argentino, e fazendo jus aos tradicionais acordes, os bailarinos transmitiram a alma do tango com profunda sedução. Se as coreografias bailam a alegria ou a tristeza, não se sabe ao certo. Parece um fado, um fado de sentimentos tão intensos a caracterizar o tango como uma das danças mais populares do mundo.

O sucesso do Grupo Folclórico de S. Cosme de Gondomar passou pela coragem e motivação de fazer renascer histórias e lendas dos antepassados. A recolha do Património Etnográfico, danças e cantares foram motivos que despertaram o ensaio e a fundação do grupo, nos finais dos anos 50. As danças mais emblemáticas são as chulas, os malhões, a tirana, o verdegar e os viras. A rusga é também uma moda que as gentes de Gondomar destacam pela memória dos tempos em que iam para as romarias a cantar e a dançar enquanto faziam a caminhada.

No intuito de preservar, dar continuidade aos usos e costumes locais, foi fundado em 1991 o Rancho Etnográfico de Santa Maria de Negrelos, de Santo Tirso. No mesmo âmbito, o Grupo folclórico da Casa do Povo de Recarei existe desde 1984 na tentativa de que os seus usos e costumes permaneçam a contar as suas histórias às gerações vindouras. Já o Grupo folclórico de Danças e Cantares de Alvarães, formado em 1968, tem uma origem de índole jovem, mas deveras interessante. Nasce de um grupo de rapazes e raparigas que se juntavam depois do trabalho do campo e ensaiavam passos de dança.

Pode a plateia ser fiel à etnografia da sua origem, pode até sentir afinidade com outras psicologias do vestir, pode sentir-se atraído pela beleza de um tarje mais rico porque o gosto é uma disciplina que se aprende com a cultura. Todos os grupos têm características comuns: guardam histórias, preservam tradições, imortalizam saberes, dançam na roda como um cálice delicado a brindar à cultura e à história da humanidade.

(*) texto e fotos

01set19

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4 Comments

  1. Lurdes Pereira

    Olá Francisco Teixeira

    É verdade, Barrô não está presente. Os grupos dos festivais internacionais têm um motivo, são federados, facto que é um patamar que Barrô ainda não alcançou, mas quem sabe um dia se consiga redescobrir as tradições. Abraço

  2. Lurdes Pereira

    Ester Cardoso
    Não seria de esperar outra reacção perante tamanha dedicação da cultura das nossas gentes. Obrigada pela confiança e por todo o carinho.

  3. Francisco Teixeira

    Bom dia e Obrigado Dna Lurdes pelo tão claro esclarecimento do Folclore de Paus espero um dia vêr o de Barrô

    com os melhores cumprimentos

    /FT

  4. Ester Cardoso

    ObrigadA Lurdes Pereira, pelo teu empenho na divulgação da cultura de do rancho folclórico de Paus e do concelho de Resende e os usos e costumes dos nossos antepassados…Obrigada de coração…precisamos de mais pessoas como tu

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