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CENTRO DE DANÇA DO PORTO: A HISTÓRIA E AS ESTÓRIAS DE UM QUARTO DE SÉCULO A “DEMOCRATIZAR A DANÇA” E A TRATÁ-LA COM DEDICAÇÃO, PAIXÃO E PERSEVERANÇA…

Um quarto de século. Mais de duas centenas de aluno (a)s e outros cinco mil que por lá passaram. Paixão, dedicação, arte e uma luta constante pela implantação de uma instituição que é cada vez mais conhecida na cidade do Porto – onde se encontra sediada -, mas também por esse mundo fora, com a primorosa e exclusiva “chancela” da Imperial Society of Teachers of Dance (ISTD). Estamos a falar do Cento de Dança do Porto (CDP).

 

José Gonçalves                        Roberto L. Fernando

(texto)                                                    (fotos)

 

Revolucionário quanto à democratização da Dança em Portugal, o CDP nasceu há vinte e cinco anos pelo crer e força da antiga bailarina e professora Teresa Vieira, assim como pela dedicação e pragmatismo de Jaime Tojal.

Casados com a dança, mas também entre eles, e já com sementes (as jovens filhas do casal, Rita e Joana) prontas a dar continuidade ao projeto, o CDP é, acima de tudo, e por tudo o que pudemos constatar, um núcleo vivo de vida. De vida artística, de sonhos a concretizar e de desejos ao alcance de cada um, quanto mais não seja para se fazer “estrela” no palco ou junto dele.

O que se segue transmite-se na primeira pessoa do plural. O que se segue… é arte!

E a arte, aqui, é trabalho, é esforço, é perseverança… é paixão! E tudo se podia traduzir na sigla que, há pouco, lhe demos a conhecer: CDP. Mas, que, como irão ver e ler, há, por aqui, muito mais que uma sigla… que um nome de referência…

Venha daí connosco conhecer o Centro de Dança do Porto, acompanhados pelos inseparáveis Jaime Tojal e Teresa Vieira

O frio de um final de tarde, verdadeiramente, outonal desapareceu num instante. Não só pelo aconchego do edifício que nos recebeu, mas por quem nos “acolheu”. Assim como – e realce-se -, pela quantidade de jovens que vimos… transpirando a trabalhar com uma alegria e de um empenho, verdadeiramente, contagiantes. Só visto!

Não foi difícil encontrar a instituição, encontrando-se ela sediada na mais central zona do Porto… a Ramada Alta, e logo numa rua, a da Bouça, na freguesia de Cedofeita, hoje unida com mais umas outras seis, e que constituem o núcleo histórico da cidade Invicta. E da Invicta para o mundo, por ali têm nascido artistas da Dança, da Coreografia,… e até gente para o aplauso.

O palco dos palcos é ali, mas ali à espera de um palco maior; um que receba as estrelas que por lá cintilam, apoiadas, de forma superior, por mestres que amam o que fazem, e por responsáveis que sabem o que querem em prol do desenvolvimento de uma instituição que quer consolidar metas, de modo a dar cabal resposta ao futuro exigente que está aí à porta.

palco exterior, com a respetiva bancada.

E a apresentação – feita por Jaime Tojal e pela sua esposa Teresa Vieira, e responsável pelo CDP -, não podia ser melhor.

“Eu e a Teresa estamos casados há 32 anos, faremos para a semana 33. A minha mulher foi bailarina, dá aulas, sempre teve uma apetência para coreografar, criar, imaginar. E essa sua vontade – e sempre me falando, falando, falando- levou-me a querer ajudá-la um bocadinho neste projeto. Um «bocadinho», que é como quem diz, a vir aqui de princípio só aos finais de tarde, para, quando dei por ela, já estar aqui, a cem por cento, há 20 anos”.

Teresa Vieira ainda “antes de abrir o Centro de Dança, já dava aulas noutras escolas privadas. Tive a minha carreira como bailarina na Companhia de Bailado do Porto. Fiz toda a minha formação como professora em Londres, através da «Imperial» – que temos o privilégio de ser o único centro de Dança por ela aprovado no país, isto desde 2007.

O Jaime acabou por se apaixonar por esta arte e foi-se envolvendo cada vez mais. Quando chegou à altura de se decidir abrir uma escola, ele esteve ao meu lado. Eu, no fundo, queria abrir um espaço diferente das escolas que existiam na altura. Ou seja, na altura, esta era uma arte elitista. Não era uma dança aberta. Por isso mesmo, nós não escolhemos como nome Academia de Bailado, Escola de Dança, ou coisa assim. Foi mesmo Centro de Dança. No fundo, quisemos, como queremos, abrir as portas a toda a gente que queira, dançar”.

Logo de início, e ultrapassando as expectativas, “houve uma curiosidade muito grande das pessoas em virem espreitar e ver o que é que nós tínhamos de diferente. E acho que mostramos logo essa diferença: para além de não fazermos audição para os alunos… todos eles tinham lugar!”

Teresa Vieira explica: “o que fizemos foi uma distinção de níveis, porque o ensino de qualidade tem de ter esses níveis, ou seja uma separação de níveis, e mesmo para continuar o caminho de formação da Imperial, onde há vários graus de ensino. Portanto, todos os anos fazemos exames. Neste caso, levamos 200 alunos a exame e sempre com ótimos resultados.”

E a “marca” inovadora do CDP no mundo das artes foi como que consolidando. “O que tínhamos, para além do programa da Imperial, complementamos com disciplinas que sentíamos necessidade de ter, como o caso da Barra no Solo; da Dança Contemporânea; de um trabalho separado das aulas mais específicas de Pontas; de Reportório Clássico, onde trabalhamos também a História da Dança; aulas específicas para Pas de Deux, e para rapazes.

“Nós”, continua Teresa Vieira, “tivemos durante muitos anos um trabalho com a Porto Criança, que era um programa da Câmara Municipal do Porto, no qual oferecemos Bolsas de Estudo a rapazes para sentirem a curiosidade e não terem de pagar para vir aprender. Era, no concreto, um incentivo para eles virem experimentar, à vontade e sem qualquer compromisso. E eles vieram, gostaram e ficaram”.

A partir de uma certa altura sentimos a necessidade de investir mais no «Clássico»

A troca de experiências ao mais alto nível e um exigente trabalho em termos de qualidade fazem sempre parte da vida ativa da CDP.

“Vamos delineando o nosso caminho para que a qualidade de ensino vá melhorando cada vez mais. Embora tivéssemos anos fortes em Dança Contemporânea, a verdade é que onde me sinto mais à vontade é na Dança Clássica, na qual fiz todo o meu percurso”.

Assim sendo, e ainda de acordo com a diretora do CDP, “o Clássico começou, então, a ficar cada vez mais forte e, desse modo, a sentirmos a necessidade de investirmos cada vez mais nessa vertente. E não o fizemos com a intenção de separar o bailarino, ou a bailarina, do Clássico da do Contemporâneo: o Bailarino é um só! Portanto, a formação é só uma! Eles começam esse trabalho em Contemporâneo, onde está lá tudo. Mais tarde, haverá, então, uma escolha. Mas, como referi, na formação não se separam as duas vertentes, ambas têm de estar englobadas”.

A Companhia Jovem de Dança do Porto

E passados 25 anos, como estão as coisas?

Teresa Vieira foi peremtória: “já se nota uma diferença bastante grande a nível técnico e artístico, daí que, com o evoluir do Centro, criámos, no ano passado uma companhia: a Companhia Jovem de Dança do Porto”.

E explica: “no fundo, esta não é uma companhia profissional. Esta companhia surge da necessidade, que senti, de os alunos, quando terminam o seu curso, precisarem de mais um apoio para conseguirem enfrentar a sua carreira profissional. Eles precisam de um reforço, de mais experiência.

Hoje em dia vê-se muitas companhias, que foram grandes em outros tempos, que têm vindo a fechar. Há cada vez mais Companhias de Reportório, a nível mundial, que têm vindo a encerrar portas. A nível nacional vamos tendo a Companhia Nacional de Bailado, depois temos pequenas companhias mais direcionadas para o Contemporâneo…”

“Aliás”, refere, por seu turno, Jaime Tojal, “ a Companhia Nacional de Bailado depende um pouco da política. O Governo resolveu entregar aquilo a um mecenas; é o mecenas que paga tudo, mas um dia poderá deixar de o fazer, e se calhar depois…”

Em prol da experiência

Quanto ao CDP e à sua nova companhia, ela tem, segundo Teresa Vieira, “jovens com idades dos 15 e os 25 anos, de ambos os sexos. É precisamente nestas idades que eles precisam de experiência de palco. O que acontece – e por isso mesmo falei nas companhias -, é que quando abrem audições pedem um currículo e anos de experiência. Ora, um jovem que saia com 18 anos, a terminar o curso, não tem experiência! Tem experiência de escola, sim! Agora experiência como profissional de palco, com uma companhia, não! Daí a minha ideia de um investimento na formação; num investimento a pensar nas crianças, nos jovens, e em dar-lhes o mais possível em termos de oportunidades”.

Este não é o meu emprego, nem o meu trabalho, este é o meu projeto de vida

O CDP tem, nas sujas fileiras, jovens desde os quatro aos 25 anos, “e, em alguns casos, até aos 30. Só que, neste momento, com 30 anos é difícil, até porque estamos com um nível Clássico já bastante forte e, depois, aqueles alunos que terminam o curso da Faculdade e começam a trabalhar, têm compromissos que complicam a forma de conciliar as duas tarefas”.

Mesmo assim – e ainda segundo o raciocínio de Teresa Viera em relação aos jovens do seu Centro, mas, em especial à sua dedicação ao Centro que dirige-, “ aqui tudo se vive com muita paixão. Nós não fazemos disto um negócio. Este não é o meu emprego, nem o meu trabalho, este é o meu projeto de vida. Não chega, é certo, mas é importante”.

Pois é, já que, e de acordo com Jaime Tojal, “o ballet no Porto existe há somente 50 anos, e nós temos 25, e poucas escolas havia quando nós abrimos. E fizemo-lo com uma perspetiva própria, e com umas instalações abertas ao público em geral. Não foi fácil”.

E tanto não foi fácil, que “tivemos que vender a nossa casa, carros, quadros, etc., para comprar este terreno. A paixão chegou a este ponto. Uma loucura! Nos primeiros anos foi muito difícil. Eram cinco mil euros de empréstimo por mês, durante quinze anos”, salienta Teresa Vieira.

O 25 de Abril e o CDP: “Deu-se“ uma revolução na Dança!”

E, agora, fique a saber que “este edifício tem uma caraterística muito engraçada, pois foi construído em nove meses, tal como a gestação”, enfatiza Teresa Vieira, para, logo de seguida Jaime Tojal, reforçar um outro facto também interessante: “… e foi inaugurado a 25 de Abril de 1995. Também uma data simbólica!

Para o nosso interlocutor, “esta foi como que uma revolução na dança no Porto. Uma revolução muito grande, porque eram duas ou três escolas no Porto; escolas essas muito fechadas. Os professores eram muito rigorosos, que é como quem diz, de um rigor que chegava ao ponto de não deixar os alunos abrirem outras escolas quando saíssem. Nesse sentido, a minha mulher teve muitos problemas com a antiga escola, desde contrariedades a aborrecimentos para abrir o CDP”.

Esta é uma maternidade da Dança

E Teresa Vieira reafirma a dureza desses tempos. “Foi um pouco a combater essa mentalidade do antigamente que conseguimos materializar este projeto. Nós, na verdade, conseguimos revolucionar tudo isto! Hoje em dia, há uma escola de ballet, aqui e ali, e a maioria das escolas foram feitas pelos alunos e professores que saíram daqui formados. Esta é uma maternidade de dança! Das duzentas e tal escolas que há no Grande Porto, sentimo-nos responsáveis por mais de cinquenta por cento delas, pois essas escolas foram abertas por alunos aqui formados, e são consideradas já de muito bom nível”.

Palavras da orgulhosa (e com motivos para isso) Teresa Vieira que viu passar-lhe pelas “mãos” mais de “cinco mil alunos”.

A Dança devia ser «obrigatória” no Ensino Básico

A evolução que se regista no Centro de Dança do Porto, em termos qualitativos e quantitativos, começa, pelos vistos, a ser acompanhada, ainda que de longe, pela sociedade educativa em Portugal, até porque, e tendo em conta a opinião de Teresa Vieira “há já uma maior abertura à Dança, como é o facto de haver o ensino articulado com a música, que, contudo, existe já há imensos anos”. Porisso, e no entender da diretora do CDP, “a Dança é uma boa formação, como Dança Educativa. No Ensino Básico deveria ser obrigatória”.

Desta feita realce também para a importância do Ensino Articulado de Dança. “Este ano temos um protocolo com o Conservatório. Temos, assim, o ensino articulado, que dá mais capacidade aos alunos de poderem coordenar os seus estudos com algo que eles valorizam, que têm vocação, que podem-na usar para melhorar o resultado a nível escolar e, a nível de tempo, é também completamente diferente, pois os miúdos, muita das vezes, têm aulas até às seis e meia da tarde, e depois vêm para aqui das sete às nove e meia da noite e, no dia a seguir, estão a levantar-se às sete para irem para as aulas às oito ou oito e meia da manhã. São uns heróis! São miúdos que dão o tudo por tudo e não pensam sequer faltar ao ballet, isto porque não conseguem passar um dia sem o fazerem”.

“É essa paixão que eu sinto muito orgulhosa de conseguir ter passado, e, por isso mesmo, estou aqui a formar alunos que, um dia mais tarde, vão ser ou bailarinos, ou professores, ou novos públicos”.

O Centro de Dança do Porto carateriza-se pelo convívio (que vimos ser bem vincado) entre todos os que fazem parte da “família”, e também por um desafio a muitos quantos têm curiosidade por uma arte que cativa cada vez mais jovens.

“Toda a gente deve ter a oportunidade da Dança. Depois, há a seleção natural”, diz Teresa Vieira, para quem “a Dança precisa de muita dedicação. Nos primeiros anos, ou seja, dos quatro aos nove anos, faz-se aquilo a que se chama Dança Educativa, que é importante pelo rigor; pela disciplina, pela postura, por toda uma a atividade física que eles têm em complemento a nível musical, de criatividade, de expressão. No fundo é uma atividade completa e complementar à atividade que o jovem tem na escola”.

Depois há também, no CDP, “workshops e estágios de Verão, para além de toda a atividade que proporcionamos aos alunos: espetáculos, maiores ou mais pequenos, em espaços como teatros, mas também em espaços informais. Ainda, recentemente, tivemos duas apresentações no AquaPorto, em colaboração com a Câmara Municipal do Porto. Tínhamos uma peça para a noite destinada ao público em geral, e oferecíamos as matinés às escolas”.

Bailados Narrados…

Ora, e continuando à conversa com Teresa Vieira, “é a partir destas iniciativas que temos de mostrar o que é a Dança, principalmente junto dos mais novos. É assim que se cativa mais gente para esta arte”.

E, realça, “há muitas performances; há muito mais dentro da Dança Contemporânea, mas os miúdos também precisam de compreender o Clássico, e daí um novo projeto que nós teremos este ano e que já vem de há muitos anos essa minha ideia, que são os Bailados Narrados”.

Então, o que são os “Bailados Narrados”?

“Uma criança com seis anos ao ver um “Quebra-Nozes”, ou uma “Bela Adormecida”, não compreenderá a história, caso nunca tenha estudado ballet. Então, e minha ideia é pegar nestes bailados de reportório clássico, que não são, na verdade, aquelas histórias como as do Capuchinho Vermelho, mas são histórias em que haverá uma narração para explicar. E, com isso, as crianças compreenderão o que estão a ver e irão ficar muito mais motivadas e curiosas para um próximo espetáculo, mesmo que, depois, não seja narrado. Elas, aí, já vão com outra maturidade assistir a um espetáculo desses…”

Investe-se cada vez menos no Ballet Clássico

E quando a cidade do Porto é uma referência internacional para várias vertentes artísticas, só que o mesmo não acontece – e isto não só na “Invicta” cidade, mas um pouco pelo país – com o Ballet Clássico, se tivermos em conta a opinião de Teresa Vieira. “É verdade que acontecem muitas iniciativas a nível cultural aqui na cidade do Porto, mas penso que, cada vez menos, se investe no Ballet Clássico. E é uma pena!”

E a par dessa situação falta, na realidade um palco d eleição para darem a conhecer ao público em geral, e neste caso concreto, o trabalho que se desenvolve no CDP.

“Já tivemos várias experiências com palcos aqui no Porto e fora do Porto. Cada palco tem a sua magia. Não é que goste mais de um ou de outro. Pode dizer-se que este palco tem um chão não tão duro como o outro… enfim, há sempre diferenças. Ultimamente, temos utilizado o do Europarque, em Santa Maria da Feira. Não é uma sala da cidade do Porto, mas é bastante completa, tem boa acústica e boas condições.”

Mas, no Porto: o Coliseu, ou o Teatro Nacional S. João?

“Comemoramos os 25 anos no Coliseu do Porto, até porque é, sem dúvida, a sala emblemática do Porto. E quisemos comemora-los lá, porque este aniversário foi especial. Foram 25 anos; e quisemos fazer só no momento em que toda a escola estava presente, e teria ser um Coliseu para a receber…

Quanto ao S. João” – e isto ainda no entender da diretora do CDP -, “o palco é relativamente mais pequeno, enquanto que o do Rivoli é mais equilibrado para o bailado. Mas, não temos muitas salas no Porto para bailado! O São João é um teatro nacional que tem a sua própria programação, na qual não se vê muita Dança, talvez mais contemporânea e muito pouca. O Rivoli também tem a sua própria programação e está muito direcionada para o Contemporâneo – deixou de ter clássicos. Clássico ainda conseguimos ir vendo no Coliseu do Porto com as companhias russas que cá se apresentam duas ou três vezes por anos, mas pouco mais”.

Há muita renovação na cidade, mas está tudo virado para o Turismo

E há publico?

“Há público há! O Coliseu esgota para Clássicos, mas a cidade não investe no Clássico. É um contrassenso! Mais: as escolas deixaram de ter um espaço para poderem apresentar. Por isso, nós fomos para o Europarque. Aqui, no Porto, é impossível conseguir apresentar, e isso é uma pena. Há muito renovação na cidade, mas está tudo virado para o turismo. E é bom que, a propósito, se refira, que há um crescimento tão grande de escolas de dança e, a verdade, é que estas não tem um espaço, nem que seja um mês por ano, para se apresentarem ao público. Nós somos os responsáveis pelo público da Dança.

Em Lisboa não acontece isso –  lá há muitos teatros, tem muitas salas -, aqui temos o Rivoli, o Campo Alegre, o Coliseu, a Casa da Música – que não dá para bailado, ainda que em tempos lá tenhamos feito uma Gala Jovem – e pouco mais. Há ainda o Batalha, mas o palco não tem condições, o do S. João, como referi, é pequeno ainda que dê para algumas peças, mas muito poucas”.

A realidade, contudo, é que a sala, ou o espaço de eleição, para o CDP, fica distante da cidade do Porto, e pior ainda tem poucos transportes público para o local, que é o caso que acontece com Europarque, e confirmado por Teresa Vieira.

“É verdade. Para o Europarque, em Santa Maria da Feira, alugamos autocarros porque não há transporte públicos para lá. Já começamos a habituar os pais e o nosso público a esses condicionalismos, pelo que já nos seguem para lá e já se habituaram um pouco à situação. Mas, também há coisas positivas, como o facto de lá não terem problema de estacionamento… a sala é grande e muito bonita; todos os lugares têm boa visibilidade… é pena esse espaço não ser mais perto do Porto”.

Os pais dos alunos estão a par de tudo

E muito, aqui, se tem falado na importância dos pais, ou encarregados de educação dos alunos e alunas que frequentam o CDP. E para facilitar o contacto entre a instituição, e quem é diretamente responsável pelos jovens, há a realçar o trabalho efetuado por Jaime Tojal.

“Há uma ligação entre nós e os pais, e essa ligação sou eu que a faço. Através desse contacto, os pais ou encarregados de educação ficam a par de tudo. É importante haver esse estreito contacto. Tem de haver uma pessoa de fora, que não tenha dançado, e que perceba, ou entenda melhor ,o que é que os outros – que também não dançaram -, gostam e querem para os filhos. Eu funciono um bocado como uma «ponte»”.

E se os jovens são os principais interessados em fazer parte do CDP; até porque o CDP a eles está, como que, exclusivamente destinado, o que dizer em relação aos mais velhos que estejam também interessados pela Dança?

“As pessoas idosas”, de acordo com Teresa Vieira, “gostam muito de dança. Aliás, tivemos, durante muitos anos, ballet para adultos, e até ex-alunos de Dança que não se identificavam muito com o ginásio, preferiam voltar e fazer Dança. Confesso que os quatro estúdios que nós temos já estão sobrelotados e portanto cada vez é mais difícil concretizar esses desejos…”

Parcerias

E o CDP, como uma instituição aberta, defende, desenvolvendo as parcerias com outras instituições,o seu próprio crescimento qualitativo. Isso vem acontecendo desde a altura em que o CDP começou a funcionar e, praticamente, até aos dias de hoje…

“O início da Escola foi importante conseguirmos as parcerias que conseguimos, ou seja com colégios privados, casos do Clip, da Escola Francesa, do Colégio Alemão, de outros colégios dos quais temos muitos alunos, mas outros também com os quais não temos uma parceria, como, de há uns anos para cá, o Colégio Novo da Maia. São grandes colégios e que funcionam como viveiros para nós. Temos professores a iniciar a Dança, e miúdos ficam até aos oito nove anos. Depois, a partir dos dez anos, já o trabalho começa a ser mais sério. Mas sentem-se sempre dentro da família, porque os exames são feitos cá e todos os alunos participam”.

Mas há diferenças – como é natural – com outras academias…

“Nós investimos muito nos espetáculos desde o início. Por exemplo, em termos cenográficos, contratávamos sempre um; assim como um figurinista, um designer de luz, entre outros técnicos de apoio ao palco. Neste aspeto, tivemos muita sorte, porque durante a CulturPorto, da qual tivemos um grande apoio, embora os bailarinos fossem amadores, o trabalho todo que o sustentava era profissional…. E isso deu-me um “savoir fair” para os anos seguintes, mesmo sem a CulturPorto. Hoje, já sei o que quero e quem quero para esses setores”.

O incentivo à Dança com “estrelas” do Ballet internacional

“Para além disso tudo”, Teresa Vieira realça que “no início da Escola, não tínhamos, como é óbvio, grandes bailarinos, desse modo e para os motivar – atenção, que há 25 anos não tínhamos YouTube, nem coisas parecidas -, gravava tudo o que de ballet se passava na RTP2 e, quando ia a Londres, de lá trazia revistas, livros. Mas, a participação, nos nossos espetáculos de bailarinos profissionais foi extremamente importante para essa motivação.

Portanto, os nossos alunos tiveram a sorte de dançar ao lado de grandes referências a nível mundial. Eles tiveram aqui a Yolanda Correa, que dança na Ópera de Berlim, e ele, o Yoel Carreño, que é um bailarino da Ópera de Oslo. Mas, já tivemos cá o par principal do Ballet Nacional de Cuba. Tivemos ainda um bailarino de renome, e que agora deixou de dançar mas que nos continua a acompanhar como mestre de ballet, que é o Lienz Chang. Até outros bailarinos estrangeiros, que estavam a dançar na Companhia Nacional de Bailado, também convidamos”.

Atentados aos Direitos de Autor

Mas no mundo da Dança, como um pouco em tudo, há injustiças a ter em conta, e que, como é óbvio, têm de ser denunciadas. Referimo-nos à questão relacionada com os Direitos de Autor, que nesta arte, é um dos problemas a ter em conta…

De acordo com a nossa entrevistada, “na Dança, tenho visto coreografias da minha autoria – fui eu que as criei… originais! – utilizadas por outras escolas artísticas. Escolas que as replicaram e ninguém controlou essa situação. Uma pessoa sente-se injustiçada…Nem referência fazem ao autor da coreografia! Fazem referência, sim, mas a eles próprios!”

E Jaime Tojal realça ainda o facto de que “sempre lutamos por fazer um programa, onde se encontra a Ficha Técnica com todos os elementos. Mas as outras escolas não fazem um programa do género”.

Isto não pára!

E à porta encontra-se o futuro. As ideias vão-se criando; novas metas vão aparecendo para serem cumpridas. O sonho comanda a vida…

O CDP não foge à regra…

“Isto não pára! Estamos apaixonados pelo Bailado. Às vezes é complicado trabalhar em família, mas para nós é um estímulo continuarmos este trabalho, porque ele é muito exigente e árduo para se realizar. Precisávamos de incentivos para continuarmos a remar contra a maré.”

E qual o principal “sonho”, a principal meta a ser atingida?

A de Jaime Tojal é a “de ter um teatro. Ter um teatro próprio, ou sejam um sítio reservado para as nossas atuações”,

Teresa Vieira volta a reforçar a ideia da formação…

“O que me interessa é o investimento numa boa formação dos alunos. E não é só a formação dentro de portas, mas também a formação de novos públicos. Acho que as crianças precisam de conhecer o que é o ballet clássico como deve ser. Há muitas crianças que chegam cá, com os pais, e que vêm procurar a nossa escola, porque ouviram falar de nós. O passa-palavra é o melhor cartão-de-visita e a melhor publicidade. Os pais, por vezes, dizem que a filha não quer ballet. E eu pergunto: por que é que não quer ballet? E respondem: ah, porque ela experimentou e não gostou!

O problema, aqui, está quando se experimenta mal. E eu digo a esses pais: então faça-me a vontade e deixe a sua filha experimentar o ballet que nós temos aqui e depois falamos. Não estou, com isso, a obrigar quem quer que seja a coisa alguma, só estou a sugerir que se experimente, sem qualquer tipo de compromisso. No final se disser, continuo a não gostar… pronto! Só que a maior parte das vezes, esses pais, mudam de opinião.”

E continuarão a mudar de opinião. Como a mudar para melhor estará, pelo que se viu, preparado o Centro de Dança do Porto, o tal que “democratizou” esta vertente artística na cidade do Porto.

Esta visita não fica por aqui. Mais vezes, por certo, falaremos sobre o CDP e com os seus responsáveis, não esquecendo, acima de tudo, os verdadeiros (jovens) artistas…

Fica a promessa…

01nov19

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