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Fernão de Magalhães

Em plena época de início das comemorações da viagem de circum-navegação, cuja frota zarpou a 20 de Setembro de 1519 de Sanlúcar de Barrameda, muito difícil seria não escrever sobre o grande navegador português, Fernão de Magalhães e, sobretudo, para desmistificar um pouco sobre a sua naturalidade, a qual tem gerado tantas controvérsias. Partindo do princípio que existem novas investigações sobre o provável local do seu nascimento, sobretudo as pesquisas documentais conduzidas pelo historiador Amândio Barros, da Faculdade de Letras da Universidade do Porto (FLUP), é de toda a conveniência difundir esses dados, trazê-los ao conhecimento do grande público para que não fiquem apenas entre os estudiosos.

Bem sabemos que a naturalidade de Fernão de Magalhães, o homem que no início do século XVI, teve a audácia de circum-navegar o globo terrestre, é reivindicada por várias localidades, nomeadamente por Sabrosa (Vila Real), não apresentando esta hipótese fundamentos documentais credíveis e, há já largas décadas que se tenta desmontar esta suposição falsa que continua a aparecer, até em manuais escolares.

Há quem avente a ideia de que Magalhães poderia ter nascido no Porto, pois existe um documento genuíno que é o contrato assinado entre o jovem rei de Espanha, Carlos I (futuro Imperador Carlos V) e o navegador, em Março de 1518. Nesse documento, Fernão de Magalhães intitula-se “vizinho do Porto”, ou seja, “vizinho” significa morador.

Também no testamento que Magalhães redigiu em Sevilha, em 1519, pouco antes de iniciar a viagem de circum-navegação, é aí registada uma doação que este fez ao mosteiro de S. Domingos das Donas do Porto, convento do século XIV, a que hoje se chama do Corpus Christi e que fica, não no Porto, mas em Vila Nova de Gaia.

Nessa instituição religiosa, viviam duas freiras, parentes do navegador. Consultando o acervo documental deste convento, o Professor Armando Barros encontrou um documento, de 1513, em que consta a frase “[…] um caminho que vai ter ao lugar de Rui de Magalhães”, talvez uma propriedade pertença da família do navegador. O facto de poder ter nascido no Porto foi uma hipótese avançada e defendida, já anteriormente, por vários autores, nomeadamente por um dos seus mais populares biógrafos, o escritor austríaco Stefan Zweig.

Por outro lado, confirma-se que, no Porto, terão vivido vários parentes de Fernão de Magalhães, ocupando cargos importantes, por nomeação do rei, condição que, na época, lhes dava a possibilidade de poderem habitar dentro do burgo, mesmo sendo nobres.

Segundo estudos do genealogista Manuel Abranches Soveral, o navegador era filho de Rui de Magalhães, neto de Paio Afonso de Magalhães e bisneto de Gil Afonso de Magalhães, todos ligados às terras limianas (Ponte de Lima e Ponte da Barca). A tese de que Magalhães tenha nascido nessa região, pode ser também uma falsificação, do final do século XVIII, tal como a de Sabrosa, assente numa habilitação de herdeiros à substancial herança do navegador.

Assim, sustenta-se a tese de que Fernão de Magalhães terá nascido cerca de 1480, apontando-se para a probabilidade do seu nascimento ter ocorrido, numa das margens do rio Douro: ou no Porto ou em Vila Nova de Gaia.

Por ser de origem nobre, um elemento da pequena nobreza de província, com cerca de dez anos, Fernão de Magalhães foi enviado para a Corte para se tornar pajem  da Rainha D. Leonor, consorte de D. João II, para ser educado e encontrar melhores meios de sobrevivência.

Em 1505, alistou-se na Armada da Índia, composta por vinte e dois navios, preparados para a instalação de D. Francisco de Almeida, como primeiro vice-rei da Índia. Magalhães permaneceu 8 anos, na Índia, aprendendo muito e participando em várias expedições militares, entre as quais nas Molucas, também conhecidas como as Ilhas das Especiarias, por aí abundarem estas mercadorias, sobretudo a noz-moscada e o cravo-da-Índia, cujo peso económico era considerável, à época.

Nau Vitória

Regressado a Portugal, propôs a D. Manuel I uma viagem para alcançar as Molucas, mas viu negado o seu pedido, pelo que, o feito que o imortalizou foi realizado ao serviço do rei de Espanha, com quem Magalhães estabeleceu um contrato chegar às Molucas, navegando sempre para Oeste, isto é, navegando na metade do Mundo que caberia a Espanha, segundo o Tratado de Tordesilhas.

Deste contrato salienta-se o facto de Maga­lhães se comprometer a tomar posse das Molucas para a coroa espanhola, cobrando por esta missão um soldo de 50 mil maravedis e comandando uma armada de cinco naus (Trinidad, Santiago, San Antonio, Concepción e Victoria), composta por uma tripulação de 237 homens.

Tomando como base os cálculos efectuados por cartógrafos portugueses, especialmente por Rui Faleiro e reunindo múltiplos conhecimentos sobre ciência náutica, cartografia, cosmografia… iniciou esta famosa viagem enfrentando muitas dificuldades: as tempestades, os motins entre a tripulação, a fome, a sede e as doenças, principalmente o escorbuto.

Magalhães rumou para o extremo Sul do continente americano, à procura de uma passagem entre o Atlântico e o Pacífico. Durante 38 dias de enormes dificuldades, com o mar muito agitado, Magalhães conseguiu atravessar o Estreito que ficou depois baptizado com o seu nome.

Em 7 de Abril de 1521, a frota atingiu o arquipélago das Filipinas, onde Magalhães encontrou a morte, em 27 de Abril de 1521, num combate com os nativos da ilha de Mactan.

A armada deixou depois as Filipinas, no início de Março de 1522, prosseguindo viagem sob o comando de João Lopes Carvalho embora, dois meses depois, passasse a ser comandada por Juan Sebastián Elcano.

O único navio que restava dos cinco que tinham partido de Espanha (a nau Vitória) seguiu para San Lúcar de Barrameda, onde chegou a 6 de Setembro de 1522, com uma tripulação de apenas 18 homens, dos 237 que, no início, tinham feito parte da viagem!

Esta figura histórica de indiscutível projecção internacional, não fez por fatalidade a circum-navegação completa do globo, mas foi ele que a idealizou, concebeu, preparou e comandou – a primeira viagem à volta da Terra!

Texto: Maximina Girão Rodrigues

Fotos: pesquisa Google

01out19

 

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