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Nomeio Pacheco Pereira

Filho de uma linhagem aristocrática que prestou grandes serviços à realeza, José Pacheco Pereira é um historiador e polemista muito conhecido pelo interesse que tem tido e continua a ter pelo que se passou no tempo do Salazar. Nomeadamente por ter um acervo particular sobre o período que merece ser museologicamente organizado e guardado, para beneficio público.

Quem melhor do que ele para servir como Curador-mor do museu que alguns colegas de Salazar projectam para instalar em Santa Comba Dão?

A autarquia local entende usar o seu património imaterial para o valorizar e perpetuar. Perfeito. Os promotores científicos do projecto entendem ser legítima a intenção e querem colaborar. Perfeito. Nas suas palavras, querem fazer um espaço de promoção do debate crítico do papel do ditador na história de Portugal. Óptimo. Usam o nome do Salazar para dar título àquilo. Errado.

O estranho é como não notam o erro que cometem. Ou melhor, conhecendo eu as ciências sociais actuais, quase sempre subordinadas a quem pague qualquer coisinha e possa dar algum protagonismo às duras vidas de ratos de biblioteca, sei como para quem anda às escuras uma vida inteira, qualquer réstia de luz surge como um novo dia em vidas cinzentas.

Para corrigir o erro está aí o Pacheco Pereira para prestar mais um serviço, desta vez público em vez de ao Rei, na senda da tradição familiar. Embora não tenha falado com ele, estou seguro que não virará a cara à luta. Sei que a primeira coisa que fará, sendo nomeado, é remeter o nome do Salazar para um lugar mais adequado ao lugar dele na história, que não foi o lixo, infelizmente.

Foi o lugar de ditador, de integrista lusitano, de mandante de assassinatos políticos, dentro e fora das cadeias, promotor da última guerra colonial, com apoios suficientes para fazer o que fez. Ao contrário do que aconteceu com Auschwitz, não foi alvo de nenhuma campanha internacional de responsabilização, ao ponto de num programa televisivo ter sido escolhido por um público português como uma figura de eleição. Num dos raros países da Europa onde a onda neo-nazi-fascista não se faz sentir a nível eleitoral.

Eu não sou o Pacheco Pereira. Ele sabe melhor o que fazer. Mas deixo aqui a sugestão de o museu se chamar Museu do Reviralho de Santa Comba Dão. Tenho esperança que em Santa Comba Dão também tenha havido oposição à ditadura. Tenho esperança de a autarquia não ser salazarista. E de os historiadores estarem dispostos a cavar um pouco para serem capazes de encontrar o reviralho em Santa Comba.

Obs: Por vontade do autor e, de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc e Tal jornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.

Texto: António Pedro Dores

Foto: pesquisa Google

01out19

 

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