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O Jardim de Teófilo Braga

Maximina Girão Ribeiro

O espaço que hoje abordamos é o Jardim de Teófilo Braga. Contudo, creio que poucas pessoas o conhecerão por este nome oficial, dado que se situa numa praça emblemática – a praça da República – local marcado por vários acontecimentos históricos e denominada, ao longo dos tempos, por variados topónimos. Este vasto local fazia parte do antigo Campo de Germalde, já referenciado no documento de doação do burgo do Porto (1120), por D. Teresa (mãe de D. Afonso Henriques) ao bispo do Porto, D. Hugo.

Durante muitos séculos, este sítio foi conhecido por terreiro, campo, lugar, largo, embora, quase sempre, associado a um descampado inseguro…Em meados do século XVIII, o lugar foi designado por Campo e Largo de Santo Ovídio, por aí ter existido uma capela ou um convento (segundo alguns autores), que se situava junto à estrada que ligava o Porto a Braga e que era de invocação a São Bento e a Santo Ovídio.

A partir de 1761, no contexto do plano de renovação urbanística da cidade do Porto, João de Almada e Melo determinou que se abrisse uma ampla praça no Campo de Santo Ovídio, o que só se concretizou a partir de 1782, quando este espaço sofreu alterações, relativamente à sua ampliação para as dimensões que ainda hoje conserva (193 metros de comprimento por 129 de largura), com o objectivo de servir de campo de manobras às tropas portuenses.

No reinado de D. Maria I, em 1790, por Aviso Régio de 20 de Fevereiro desse ano, iniciavam-se as obras de construção do imponente edifício, de características neoclássicas, situado no topo norte da praça, o actual Quartel-General, que iria albergar o 2º Regimento de Infantaria do Porto, criado em 1762 e que se encontrava instalado nos velhos celeiros da Cordoaria.

As obras do Quartel-General prolongaram-se até 1806, sendo este o primeiro edifício militar, construído de raiz, na cidade do Porto, durante a época moderna e que serviu como aquartelamento de unidades de infantaria embora, ao longo da sua história, o Quartel de Santo Ovídio tenha sido ocupado por diversos tipos de tropas, pois também albergou regimentos de cavalaria, de engenharia, e até milícias, como o Batalhão de Milícias de Santo Ovídio, aí estacionado, durante o cerco do Porto.

O projecto deste edifício foi assinado por Reinaldo Oudinot, Tenente-Coronel e Engenheiro do Reino, estando as obras a cargo do arquitecto Teodoro de Sousa Maldonado. Logo em 1809, durante a 2.ª invasão francesa, o edifício serviu de aquartelamento temporário e, posteriormente, de prisão às tropas francesas, do General Soult.

Ocorreram, nesta praça, vários acontecimentos político-militares, nomeadamente em 1820, com a concentração de tropas, no dia 24 de Agosto de 1820 que, a partir de um pronunciamento militar, neste Campo de Santo Ovídio, deram origem à Revolução Liberal que pôs fim ao regime absolutista e abriu o caminho para o liberalismo.

Com a insurreição militar de 1 de Maio de 1851, que provocou a queda de Costa Cabral, o largo tomou o nome de “Campo da Regeneração”.

Foi ainda neste local que, na madrugada do dia 31 de Janeiro de 1891, se reuniram as tropas do Batalhão de Caçadores nº 9 e a Infantaria 18, dando origem a uma revolta que foi a primeira tentativa de implantação da República, em Portugal – a malograda Revolta de 31 de Janeiro de 1891.

Mas, em 1910, a praça recebeu o nome actual, para relevar a importância que este logradouro tivera na revolta de 31 de Janeiro de 1891 e para assinalar o nome do novo regime.

Finalmente, chegamos à existência do jardim. Só a partir de 1915/6 é que toda esta vasta área, defronte ao quartel, foi transformada em jardim público, tomando o nome de Jardim de Teófilo Braga, em homenagem ao homem que presidiu ao primeiro Governo Provisório, resultante da revolução de 5 de Outubro de 1910, até à eleição do Dr. Manuel de Arriaga.

Este jardim é um espaço rectangular, com árvores de grande porte, como as palmeiras, tílias e carvalhos, com alguns canteiros floridos, com bancos de madeira a convidarem a uma pausa e a existência de várias estátuas. Salientamos as estátuas por nos parecerem ser um dos elementos mais importantes deste espaço:

– a de “Baco” da autoria de  António Teixeira Lopes (1916) – trata-se de uma alegoria pagã da mitologia greco-romana, que representa o deus romano do vinho, filho de Júpiter e de Semele. A figura apresenta-nos um jovem, com ar sorridente e quase despudorado, mostrando a ligação entre o vinho, a festa e a folia. A sua cabeça tem uma coroa composta por uvas, heras e parras e, na mão direita ostenta uma taça de vinho;

– a do “Padre Américo”, cujo autor foi Henrique Moreira (1959) – representa uma figura da igreja que teve um papel importante como benfeitor, dedicando a sua vida aos mais carenciados, especialmente aos rapazes, através da instituição que fundou, a Casa do Gaiato;

– a “República” do escultor Bruno Marques (2010) – evoca a República através de uma figura feminina. A estátua foi oferecida à cidade pela Fundação Engenheiro António de Almeida para assinalar o centenário da implantação da República. É uma escultura com três metros de altura, representando uma mulher de aspecto jovem e sensual, que exibe, na mão direita um ramo de oliveira (símbolo da paz) e, na outra, a esfera armilar. A mulher de bronze ostenta, na cabeça, um barrete frígio, à imagem e semelhança das figuras representativas da Revolução Francesa e, com ar decidido, parece caminhar na direcção do quartel de Santo Ovídio.

Referimo-nos ainda a uma outra estátua que aqui esteve nesta praça, durante 100 anos, o “Rapto de Ganímedes”, concebida por Fernandes de Sá (1910), mas que foi transferida para o Jardim de João Chagas, na Cordoaria, em 2010.

À volta do jardim distribuem-se 8 ruas que vão desembocar nesta praça (ruas de Álvares Cabral, de Mártires da Liberdade, do Almada, de Gonçalo Cristóvão, de João das Regras, da Lapa, da Boavista, da Regeneração). Em toda a envolvência deste jardim e praça, o trânsito é intenso e, talvez por este facto, o jardim não seja muito frequentado. Contudo, há sempre quem o atravesse e quem possa usufruí-lo, observando também, em torno da praça, alguns belos edifícios antigos que conservam ainda a sua traça primitiva.

Obs: Por vontade da autora, e de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc eTal jornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.

Fotos: pesquisa Google

01out19

 

 

 

 

 

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