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Revolução das pontes

António Pedro Dores

Saíram notícias sobre um ataque de polícias a habitantes do Bairro da Jamaica, porque havia um vídeo. Outros polícias, a coberto do silêncio dos seus directores, vêm defender os colegas dizendo que aquilo é o tipo de intervenção normal, por culpa do carácter dos moradores. A culpa do mau carácter desse tipo de gente decorre de não terem conseguido melhor sítio para viver do que um bairro abandonado pelo município e pelos proprietários. Pela mesma época um tribunal condenou oito polícias da esquadra de Alfragide por atacarem quem os procurava para pedir informações. Será esta normalidade democrática?

Muitas crianças com fome levam as escolas a manter abertas as suas cantinas para alimentá-las. Fala-se em uma em cada três ter essa necessidade básica não satisfeita. Presume-se, pois, que outras necessidades igualmente básicas mas menos evidentes e fáceis de colmatar atingem estas e outras crianças.

Com quase metade da população confrontada com a pobreza, tendo metade direito a apoios sociais que a faz sair das estatísticas da pobreza, sabe-se que uma parte importante dos pobres são crianças e suas mães, frequentemente socialmente isoladas e dependentes de sistemas caritativos interesseiros e eventualmente abusivos; certamente interessados em manter as armadilhas da pobreza para poderem manter a actividade. Sistemas que funcionam também para doenças capazes de impedir a autonomia das pessoas, em particular os idosos, mas também para pessoas diferentes, tratadas como deficientes. Será isto democrático?

Na campanha eleitoral ninguém fala destes problemas, como se não fossem estruturais. Será isto democrático?

A democracia que temos, muito mais saudável do que foi no tempo da Troika em que a maioria dos votantes apoiou a ideia de sacrifício humilhante perante os poderes do dia, no caso a Alemanha da senhora Merkel, reagiu fortemente à humilhação e ao sacrifício. Porém, a subordinação necessária para viver aqueles anos levou as pessoas a ficarem satisfeitas apenas com o anúncio do fim dos sacrifícios. Mantiveram-se nessa posição, sobretudo porque o único partido que diz que o rei vai nu é o mesmo que participou na humilhação extra das pessoas e se propunha, nas eleições europeias, cavalgar os ventos fascizantes que atormentam a Europa.

Boas notícias para a democracia em Portugal, a memória do fascismo português ainda funciona como vacina política. Temos então, em 2019, uma campanha para as legislativas em que todos os partidos estão de acordo em manter o status-quo. Os sindicalistas, porém, já perceberam que o conforto dos partidos não se aplica a si. Novos sindicatos inorgânicos, para usar a terminologia do Presidente da República, têm vindo a mostrar a necessidade de sair da caixa para dizer que o governo, o sistema de justiça, o estado em geral, é cúmplice da fuga aos impostos – nada que não soubéssemos – e, ao mesmo tempo, quebra sindicalistas, fazendo-lhes guerra com intrigas e requisições civis ilegítimas.

Pela primeira vez, desde o 25 de Abril, o Partido Comunista, o partido dos sindicatos, voltou a ter que mostrar a sua face opressiva dos trabalhadores em luta. A tese é antiga e mantida: só seguindo as directivas partidárias-sindicais os trabalhadores estarão a lutar pelos trabalhadores. Caso contrário, estão ao serviço de espiões e interesses inconfessáveis, representados por um pardal que voou junto dos camionistas das matérias perigosas. Tese propagada pelo Ministério Público que, à boa maneira soviética, veio dizer que o senhor Pardal estava a ser investigado e que o sindicato ia ser extinto, por ter aceitado nos seus corpos directivos tal pessoa. Será isto democrático?

Para o governo, o apoio do sindicato orgânico e do PCP foi elogiado a tal ponto que alguém chamou a atenção para não se tratar o partido dos trabalhadores como um urso de pelúcia. Enquanto o mesmo se afunda nas eleições e nas sondagens.

Há quem fale da época histórica que estamos a viver como tempos curiosos. Com razão. Mas para a maioria da população, aquela que se confronta quotidianamente com a miséria das circunstâncias em que vivem e mais a repressão do estado, os tempos continuam a ser de desorientação: devemos lutar para denunciar a corrupção e exigir instituições com pessoal suficiente para as funções previstas e salários dignos? Ou devemos evitar quebrar o consenso político em que as esquerdas se tornaram hegemónicas? A democracia que temos nos dará respostas a estas perguntas.

Em qualquer caso, o Estado e as disputas de poder continuam a passar ao lado das condições de vida das populações, habituadas a sacrifícios e a não serem chamadas para ao espaço público. Ao invés, estão habituadas a serem expulsas à força, se preciso for, como quando um grupo de jovens da margem sul do Tejo decidiu organizar uma manifestação contra a violência policial e, como para confirmar que não deveriam ter pensado em sair do seu covil, a direcção da polícia decidiu carregar e destroçar a manifestação. Sem escândalo público. Onde estava a democracia?

O que tem surgido de novo na arena política são as preocupações ecologistas dos eleitores, que as reconhecem no partido das Pessoas, dos Animais e da Natureza, alegadamente situado para lá das disputas entre as esquerdas e as direitas, em nome da construção de pontes em vez de muros. Preocupações a que se juntou o Bloco de Esquerda, sem abandonar a tese da luta de classes. Colocou a insurreição climática na sua agenda eleitoral em primeiro lugar, à frente do trabalho. Ambos os partidos se preparam para fazer pontes com o Partido Socialista, vencedor antecipado das eleições, que contará também com o apoio crítico do Partido Comunista, que reivindica as tradições: a da iniciativa da geringonça e a da tradição ecológica que o partido Os Verdes representaria.

A revolução das pontes, realizada à esquerda, para se manter democrática, precisa de dar prioridade à criação de condições para que as pessoas prestem os cuidados adequados umas às outras, sem tutelas paternalistas do estado. Tais pontes começarão a ser construídas como lutas contra a corrupção, de baixo para cima, apoiando as iniciativas transformadoras dos novos sindicalistas e de novos manifestantes, contra a repressão e a opressão vigente. Para que todos e cada um aprendam como se faz. Isso será uma outra democracia.

Obs: Por vontade do autor e, de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc e Tal jornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.

 

Cartoon: pesquisa Google (“Expresso”)

01out19

 

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