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Ruralidades do Milho-Rei

Lurdes Pereira

(texto *)

É tempo da colheita do milho, é tempo de desfolhada, é tempo de tradição!

A eira da maior casa de Chavães foi palco para a Eco Simbioses (Associação Ambiental e Cultural do Vale do Ovil) recriar, com o apoio da União de Freguesias de Campelo e Ovil, a Desfolhada.

Servindo de pano de fundo, a casa da Juventude de Chavães, em Baião, é o exemplo superlativo de uma construção arquitetónica cuja história está ligada à ilustre figura militar na altura da Revolução Liberal portuguesa, Francisco de Paula de Gouveia Lobo de Ávila. A iniciativa da associação teve como objetivo primeiro a recriação da desfolhada aliada ao ambiente e à cultura humana.

Quando os Viajantes do Tempo chegaram a Chavães já a eira tinha o palco decorado de uma tradição que se tem vindo a cumprir ano após ano. A recriação pode ser uma amostra daquilo que naquele lugar o passado registou, mas o importante é não deixar cair no esquecimento as histórias das histórias de vida das gentes dos nossos antepassados. Trazer para o presente as tradições do passado significa manter os alicerces que as gerações mais novas, mesmo que inconscientemente, vão interiorizando para o futuro.

Josefa e Silvério foram uma atração, no vestir, no falar e na cultura, bem ao sabor do século XIX. Sobre as grandes lajes graníticas, geometricamente talhadas, a eira recebeu participantes de todas as idades. Os mais jovens divertiam-se e os menos jovens recordaram. Trouxeram à memória os encantos de outrora, o serão iluminado pela lenha a crepitar na fogueira enquanto se preparava um jantar com iguarias tradicionais onde não faltou a broa de milho e as famosas papas recheadas com as berças da tão afamada e típica couve-galega.

Longe vão os tempos em que a Desfolhada era uma tarefa esperada pelos lavradores, não só pela colheita do milho como por todas as brincadeiras que a mesma proporcionava. Encher as cestas de espigas era o objetivo da comunidade, mas no passado, num ambiente de amores com rédea curta, rapazes e raparigas tentavam a sorte em encontrar o milho-rei, o delicado e raro milho vermelho. Conta a tradição que quem encontrasse a espiga vermelha devia abraçar ou beijar todos os elementos da desfolhada. Era o momento mais importante do serão. Não admira que os jovens eram os que mais velozmente procuravam a sorte, como uma oportunidade para beijar a (e)namorada, sempre sob o olhar desconfiado e atento dos pais.

Abençoado pela presença do casal Silvério e Josefa, o serão teatralizou um casamento portador da cultura do séc. XIX. Silvério, um homem pouco dado ao serviço, mas sempre com a lembrança da janta e de uma boa pinga, seguido de uma sesta e Josefa, uma mulher trabalhadora, ativa… só pode dar faísca! E, sem papas na língua, Josefa administrava o serão, trabalhava, pois sabia que Silvério estaria ausente enquanto os potes ferviam ao lume adiantando as tão esperadas papas.

Depois do trabalho concluído, chegou a hora da janta com sabores da terra, com a broa de milho, os fumeiros, os rojões, entre outros petiscos, tudo bem regado com uma boa pinga. A broa de milho foi, em tempos, a base de alimentação do lavrador. Era preciso lavrar, cultivar, colher, desfolhar e reservar para que houvesse milho para pão o ano inteiro.

Apesar da típica postura de pelo na benta, Josefa cozinhou com amor, e pelo entreabrir do testo dos negros potes, deixava esfumar um ambiente com aromas de outrora.

Depois de bem saciados e longe de pensar no calor das alcovas, a noitada prosseguiu, como antigamente, animada pelas concertinas, pelos cantares ao desafio, bailarico e danças de roda.

A história das ruralidades são a história das gentes do árduo trabalho da terra. Tempos humildes, de magro pão, sem margem para excessos, contudo eram gentes que sabiam viver a alegria de uma colheita.

Retomando a magia de antigamente, Josefa e Silvério regressam à lareira para nos oferecer o café na tradicional chicolateira (cafeteira de antigamente, feita na roda do oleiro, numa altura em que o método de cozedura da loiça de barro ainda era feito nas soengas). A lareira, o cheiro a fumo, a lenha, os potes a ferver e as chicolateiras fizeram os Olhares da Serra viajar no tempo até àquele momento mágico em que as famílias se sentavam à volta da lareira a saborear e agradecer as ofertas da Natureza.

(*) com Vítor Santos (Fotos)

01nov19

 

 

 

 

 

 

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1 Comment

  1. Aurora Simões de Matos

    Grande escrita, elucidativas imagens, a riqueza da tradição rural num belíssimo texto de antologia!
    Parabéns a todos os protagonistas…

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