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ASSOCIAÇÃO DE HOMENAGEM ÀS CARQUEJEIRAS DO PORTO CONSEGUIU O SEU OBJETIVO: A “MARIA” (ESTÁTUA) ESTÁ PRESTES A OCUPAR O SEU LUGAR NA HISTÓRIA DA CIDADE!

As mulheres que desempenharam um trabalho escravo, desde meados do século XIX até aos anos 50 do século passado, transportando, diariamente, desde a marginal do Rio Douro, e pela íngreme Calçada da Corticeira, até à Alameda das Fontainhas e depois pela cidade fora, cerca 60 quilos de carqueja às costas, descalças e esfomeadas, para ganharem uns míseros tostões destinados à alimentação dos seus filhos, vão ter, finalmente, a estátua/monumento que as perpetuará para todo o sempre.

José Gonçalves

(texto)

Está, assim, concluída uma verdadeira luta de mais de cinco anos, desenvolvida pela Associação de Homenagem às Carquejeiras do Porto (AHCP). Mas, a verdade, é que ainda antes da formação deste coletivo, já a sua líder, Arminda Santos, juntamente com Maximina Girão Ribeiro, trabalhavam em prol de algo que reconhecesse com dignidade o trabalho destas escravas, estranhamente, esquecidas dos responsáveis pelos destinos da cidade, assim como pela maioria dos portuenses.

O “Etc e Tal jornal”, como não podia deixar de ser – até porque acompanhou de perto e deu, consequentemente, a conhecer, desde início, todo este processo –, abre, uma vez mais, as suas portas à AHCP, na pessoa da sua mentora, e ativa dirigente, Arminda Santos. E isto logo numa altura em que a associação caminha para o desaparecimento, concretizada que está sua meta, que é como quem diz, a razão pela qual foi formada… a colocação de uma estátua para perpetuar o trabalho das – e as – mulheres Carquejeiras…

ARMINDA SANTOS: “VALEU A PENA PASSAR POR ESTAS EXPERIÊNCIAS

foto: mm

E cinco ano depois, eis que o projeto se concretiza…

“Foram cinco anos muito interessantes, além de uma luta quase diária, trouxe-me muitos ensinamentos. Convivi com pessoas extraordinárias que me ajudaram a implementar o projeto. Sofri algumas desilusões, quando contactei com determinadas instituições que nunca pensei receber a resposta que recebi. Mas, tudo pesado, valeu a pena passar por estas experiências! A vida é feita de experiências e de memórias, e foram, ao ficarem na minha mente, estas memórias que me deram força e alento para não desistir com um projeto que, de princípio, parecia de resolução muito mais prática, e não tão cumprida no tempo… mas, enfim, valeu a pena, e em breve as carquejeiras vão ter uma figura representativa através do bronze. Portanto, a figura das carquejeiras vai ficar imortalizada na nossa cidade do Porto….

… o sítio onde a estátua, do escultor José Lamas – tem obras em várias cidades do país e, sobretudo, na Maia – será colocada, será ao cimo da Rampa das Carquejeiras, às Fontainhas. Agora, é só resolver um problema de ajuste urbanístico para se concluir a sapata onde ela vai ficar assente, e creio que em janeiro se fará a inauguração.”

A Câmara Municipal do Porto será convidada para esse ato?

“Sim, não vou excluir de modo nenhum a Câmara Municipal do Porto, embora nesta fase final, pensasse que tudo fosse mais fácil, mas, enfim, nem tudo o que nós pensamos é possível…”

Quem esteve mais ao vosso lado? Além da Junta de Freguesia do Bonfim, a União de Freguesias do Centro Histórico?

“Houve alguma ajuda da União das juntas de freguesia do Centro Histórico, mas não tanta porque a autarquia, na altura, estava com problemas, e portanto o apoio não foi tão grande como gostariam de nos dar. Além desta autarquia, e da Junta de Freguesia do Bonfim, também a de Campanhã, esteve connosco neste projeto.

Relevo, a aceitação e a sensibilidade que os autarcas do Bonfim, e do seu presidente em particular, tiveram para connosco, o qual resultou num apoio incondicional e rigoroso. De início, o presidente, José Manuel Carvalho não nos conhecia de lado algum, mas muito cauteloso, muito correto, sempre nos acompanhou e com uma observância muito coerente a ele devemos, realmente, a colocação da estátua da Carquejeira”.

A última carquejeira: a dona Valentina

Tudo isto, agora, e depois do falecimento da última carquejeira…

“A dona Valentina foi carquejeira desde os oito até aos 18 anos – não foi carquejeira toda a vida, como muitas outras -, mas é nessa altura, e quando iniciamos o projeto, era a carquejeira viva e que eu conhecia que com ela contactei e dela tenho muitas saudades.

Era uma pessoa muito querida, muito preocupada em contar-nos tudo aquilo que sabia, e eu, por vezes, quando a visitava, tentava não ir buscar as memórias penosas que ela nos contava, isto para não a sensibilizar, porque era uma senhora que já tinha noventa e quatro anos. Os familiares que quiserem estar na inauguração da estátua poderão estar! Esta será uma homenagem a todas as carquejeiras do Porto.

Atividade esse que foi desenvolvida, como sabe, de fins do século dezanove e o primeiro quartel do século vinte, porque ainda há registos de em 1950 se falar ainda nelas. Mas, a verdade, é que nessa altura, portanto em 1950, já existia os fornos elétricos etc. Mas, ainda havia as carvoarias que venciam carqueja e carvão, pelas qualidades calóricas que tem a carqueja. É um arbusto que em combustão liberta uma energia muito elevada…”

… e agora como condimento culinário. Portanto a carqueja não perdeu a sua utilidade, e o arroz com ela, é muito bom…

“Sim, foi o nosso último almoço, porque o nosso projeto também está a ser ultimado. Esta associação foi fundada com o intuito de colocar um monumento escultórico ao cimo da Rampa das Carquejeiras e quando essa nossa missão – que se deve a um grande número de pessoas que nos ajudaram, principalmente o núcleo-duro da fundação: a professora Maximina Girão Ribeiro, Luís Pacheco, o professor Rui Clara – ficar concluída, a associação morre. Fica extinta! O objetivo foi concretizado! Fica só uma cerimónia que todos gostamos muito, que é a descida da Rampa das Carquejeiras, que fazemos todos os anos. Essa será a cerimónia, at+é que o tempo nos deixe, que iremos realizar, até porque vamos ficando velhinhos…”

Arminda Santos com Maximina Girão Ribeiro – inseparáveis neste projeto (foto: mm)

E os jovens?

“Os mais jovens aparecem e ficam curiosos, mas o seu aparecimento não é muito contínuo, porque, muitos deles, nem sabe o que é a carqueja. Não foi nossa intenção intervir junto das escolas. O leque de pessoas que contactamos foram pessoas que nos podiam ajudar, mais monetariamente, e com eles divulgar o projeto, ir buscar memórias, sensações e emoções, porque é preciso passá-las. Hoje em dia vivemos muito o presente e desconstruímos o passado….

Isto é: carqueja

…mas, uma cidade sem memórias, e sem gente nova a compreendê-las, é… nada! A nossa própria vida é feita de memórias e de histórias. E a cidade tem a sua vida; tem os seus habitantes; tem os seus segredos e ambições. Os jovens das nossas famílias, esses sim, estão presentes, aparecem, estão entusiasmados. Foi, no fundo, um projeto muito interessante, com o qual aprendi muito!”

Pintura sobre as carquejeiras (foto: ahcp)

O processo vai ficar documentado em livro?

“Escrever um livro sobre as carquejeiras é também um dos meus objetivos. Mas, neste momento, já temos, a nível de intercâmbio, dado a conhecer muita coisa, e já temos um acervo muito interessante de poesias populares e eruditas, pintura, fotografias… algo que não existia e que vai ser reunido para ser depositado na Junta de Freguesia do Bonfim, que é a entidade que nos ajudou, e na qual temos a vontade de deixar o produto do nosso trabalho, o qual será consultado pelas pessoas que quiserem. Quanto ao livro, o futuro o dirá, mas vai levar o seu tempo, sim.”

Entrevista realizada em outubro do ano passado (2018) – foto: mm

Sente-se orgulhosa?

“Posso dizer que sim. Orgulhosa? Sim. Isto é um projeto muito interessante que tenho desde os meus tempos de estudante, e, portanto, é uma coisa que consegui concretizar ao longo da minha vida. Foi uma memória que fiucou durante uns anos e que conseguir concretizar, apesar do trabalho, de todas as contrariedades e ansiedades. Acho que estou orgulhosa, acho que posso dizer quem sim”.

Agora, é só mesmo esperar pela inauguração…

“O vosso prestigiado jornal será informado de quando ver ser realizada a inauguração. Estou muito grata pela vossa observância e curiosidade sobre este projeto. Têm-nos acompanhado, praticamente, desde o início, e aqui fica, mais uma vez o agradecimento. Vocês foram uns parceiros constantes, atentos e atuantes. Portanto, o «Etc e Tal jornal» será uma das entidades que será convidada para a inauguração…

A ligação direta do “Etc e Tal jornal” com o projeto de Homenagem às Carquejeiras – foto: mm

…Tivemos momentos muito interessantes, a apresentação do projeto já com a maqueta foi um desses momentos. A exposição de artes plásticas que fizemos na Fundação Manuel António da Mota (a que se reportam as imagens) que também nos abriu a casa de uma maneira incrível, e que também nos apoiou. Aliás, esta entidade é o principal mecenas do projeto. Disponibilizou-nos uma das galerias mais bonitas da cidade do Porto, e onde eu consegui juntar velhos amigos e contemporâneos da Escola de Belas-Artes”.

Foto: ahcp
Foto: ahcp
Professor Hélder Pacheco um grande promotor do projeto – Foto: ahcp

“De salientar também o documentário sobre as carquejeiras, que a RTP 2 está a preparar, através do Daniel Deusdado e da Arminda Deusdado. Realce também para toda a colaboração prestada pelo Rancho Folclórico do Porto, e pelo incentivo dado, logo de início, pelo professor Hélder Pacheco”.

Vereador Manuel Pizarro também entrou na “dança” -Foto: pns
Historiador Germano Silva ao lado do projeto – foto: pns
Arminda Santos com Manuel Pizarro – Foto: pns
Rancho Folclórico do Porto – Foto: pns
José Manuel Carvalho, presidente da JF Bonfim – Foto: pns

“E depois, o facto de, por exemplo, chegarmos a uma instituição e ter pessoas que nos davam um ou cinco euros para a ajuda da estátua… isso sensibilizou-me muito. Fiquei feliz com o euro que davam, porque era algo mais para enriquecer o nosso pecúlio, porque nós partimos do zero. As palavras fantásticas de muitas pessoas anónimas.

E agora quero culminar com toda a humildade e toda a simplicidade, o dia em que a Maria – que é assim que a estátua se vai chamar – ficar no seu lugar para sempre”.

OS TACELOS DA… “MARIA”

O ÚLTIMO ALMOÇO DE CONFRATERNIZAÇÃO

Como que dando por, oficialmente, terminada, a sua tarefa, foi realizado um almoço, no passado dia 02 de novembro, no restaurante do Centro Desportivo e Cultural dos Trabalhadores da Câmara Municipal do Porto, no qual a AHCP reuniu mais de meia centena amigos e amigas, e ainda alguns responsáveis autárquicos da cidade, para relembrar a sua “luta” pela dignificação da Mulher/Escrava como foi a carquejeira, saudando-se, finalmente, a conclusão da feitura da estátua que homenageará essas mulheres. A “Maria”…

E, pronto, acaba de ser dignificada a Mulher Carquejeira do Porto, as tais nobres Mulheres que, durante décadas foram escravas, sem que até hoje, o deixassem de ser. É que depois de ter acabado o trabalho do transporte da carqueja, elas foram ainda escravas de um moroso processo de respeito a si próprias até estar concluída a estátua que as homenageará, mas, ainda faltando – por questões burocráticas – o pedestal para a “suportar”. A inauguração da “Maria” está, contudo, para breve…

 

Fotos: Mariana Malheiro (mm), Pedro N. Silva (pns) e AHCP (ahcp).

01dez19

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1 Comment

  1. Pedro Arcos

    Excelente trabalho, parabéns ao Jornal ETC e TAL e a José Gonçalves pela justíssima homenagem ás mulheres sofridas da corticeira.

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