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Bonfim – Das Póvoas de Cima e de Baixo até às Goelas de Pau

Maximina Girão Ribeiro

A Póvoa de Cima e a Póvoa de Baixo constituíram, no passado, duas pequenas povoações de características muito rurais, com propriedades agrícolas e criação de gado pertencendo, segundo as “Memórias Paroquiais” (1758) e até ao século XIX, à freguesia de Santo Ildefonso. O topónimo “Póvoa” deriva do latim popula que significa pequeno agregado populacional.

A Póvoa de Cima corresponde ao antigo Largo da Póvoa de Cima, depois denominado apenas por Largo da Póvoa e, mais tarde, por Praça Rainha D. Amélia. Estende-se por parte da antiga rua de S. Jerónimo (actual rua de Santos Pousada) e engloba as ruas Coutinho de Azevedo (que evoca a figura do 4.º Pároco do Bonfim) e, paralela a esta artéria, a rua da Bataria (designação popularizada da palavra “bateria”), cujo nome se relaciona com o liberalismo, concretamente com o cerco do Porto, durante o qual aí funcionou uma bateria de artilharia dos seguidores de D. Pedro IV.

Rua da Bataria (atual)

A Póvoa de Baixo abrange os terrenos onde estão os blocos habitacionais do Bairro de Fernão de Magalhães, a rua do Cardeal D. Américo, a rua D. Agostinho de Jesus e Sousa, o jardim Paulo Valada, popularmente conhecido por Jardim das Pedras e a parte paralela da Avenida de Fernão de Magalhães (antiga rua de Montebelo), bem como a rua dos Abraços (anteriormente conhecida por Viela dos Abraços, pelo facto de ser tão estreita que mal permitia que duas pessoas se cruzassem sem ter de se encostarem uma à outra). Toda esta zona, muito rica em água, já que no subsolo da avenida corre um dos maiores mananciais de água que abastecia o lado oriental da cidade e que dava origem a um vasto lameiro, onde pastavam vacas. Grande parte desses terrenos pertenceram à família Manadas e, se bem me lembro, toda esta zona, antes da grande urbanização, era feita de becos e ruelas estreitas, ilhas e muitos casebres.

Subindo a avenida Fernão de Magalhães (antiga rua de Montebelo) chega-se à zona que ainda é designada por Montebelo, onde se situa a capela com o mesmo nome e onde se abriu o túnel, também conhecido por Túnel das Goelas de Pau, nome pelo qual também ainda muitas pessoas designam o Hospital de Joaquim Urbano, por estar situado onde, no passado, existiu uma antiga quinta com este nome.

“Goelas de Pau” é um nome estranho, cuja origem é de difícil decifração. Contudo, segundo referência apresentada por Germano Silva, a propriedade pertenceu a Francisco Alves Peixoto da Gama, um industrial ligado à produção de seda, natural de Chacim (Bragança), uma região privilegiada em termos de indústria da seda, sobretudo nos séculos XVIII e primeiro quartel do século XIX.

Por meados do século XVIII, Peixoto da Gama adquiriu, naquela zona do Bonfim, a propriedade em causa e, como este homem era de elevada estatura e tinha um pescoço muito alto, o povo chamava-lhe o “Goelas de Pau”, nome pelo qual ficou também conhecido o sítio. Outros autores, nomeadamente João G. O. Torres, cronista da Revista “O TRIPEIRO”, aventa a hipótese (em Setembro de 1910) de o nome advir da existência de canais, construídos em madeira (pau), que “[…] serpenteavam entre os socalcos da elevada quinta e que transportavam a água de irrigação dos terrenos.”

Para lá destas conjecturas, será sempre importante realçar que, este lugar ficou célebre, pelos combates travados em duas ocasiões distintas: segunda invasão francesa e no tempo do Cerco da cidade.

O hospital Joaquim Urbano começou por ser uma construção de vários pavilhões sanitários que não eram mais de que “barracas hospitais” de carácter provisório, montadas num sítio alto, arejado, bem batido pelo sol e distante dos aglomerados populacionais, a fim de isolar os doentes contaminados por doenças infecto-contagiosas.

Foi fundado em 1884 com o nome de Goelas de Pau, para tratar doentes com cólera. Passou a chamar-se, em 1899, Hospital Senhor do Bonfim, quando foi entregue à Misericórdia do Porto, para tratamento de casos de sífilis e tuberculose, mas foi inteiramente ocupado pelos doentes da epidemia de peste bubónica que surgiu na Ribeira, diagnosticada primeiro clinicamente por Ricardo Jorge e, depois, laboratorialmente pelo mesmo médico e, também, pelo clínico Dr. Câmara Pestana.

Só em1914 tomou o nome de Hospital de Joaquim Urbano, homenageando o médico Joaquim Urbano da Costa Ribeiro (1851-1914), o primeiro director desta instituição hospitalar (Director dos Serviços de Moléstias Inficiosas, segundo a designação da época) mas, especialmente por este médico se destacar como um grande vulto da medicina portuguesa, no domínio da Saúde Pública.

Junto à Póvoa de Cima, existia a Quinta do Fojo onde foi erguida a Capela do Senhor Jesus da Boavista. Do Fojo descia-se pela Viela da Palha (actual rua do Amparo) para o Fojo de Baixo (que é hoje a Praça das Flores).

Alcandorada no cimo de um penhasco, ergue-se a capela de Montebelo que começou por ser umas “alminhas”, ou seja, um pequeno oratório ou altar, de culto às almas, que eram colocados nos caminhos, ou nas ruas e onde se evocavam as pessoas falecidas, com orações, flores, ou velas,…

atual…
… nos primórdios

Em meados do século XVIII, concretamente em 1767, as “alminhas” deram lugar a uma capela de invocação do Senhor Jesus do Fojo, mais tarde chamada Senhor Jesus da Boavista, que foi reformada e ampliada, em 1864 e que, ao longo do tempo, tem sofrido algumas transformações. A capela alberga uma imagem da Senhora do Porto que, segundo consta, andava nas mãos da soldadesca francesa, aquando da 2ª invasão (1809) supondo-se que, em algum sítio, a teriam furtado. Um empregado da Câmara Municipal do Porto, de seu nome Lourenço Inverno, ofereceu-lhes pela imagem um pinto, uma moeda de ouro que, na época, circulava. Guardou a escultura e, mais tarde, entregou-a à capela do Bom Jesus da Boavista (Montebelo), onde ainda hoje se encontra e é venerada com festividades, no terceiro domingo de Setembro de cada ano.

Bons motivos para visitarem esta zona da cidade do Porto!

OBS -Por vontade da autora e, de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc eTal jornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.

Fotos: pesquisa Google

01dez19

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