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Natal da minha infância

Carmen Navarro

O Natal foi sempre repleto de momentos mágicos, que em criança e mesmo na juventude sempre encontrei, hoje talvez não!

A partir das 20h00 as ruas, começavam a ficar desertas, só vagueava o frio de inverno, tudo corria para o aconchego de suas casas, pobres ou ricas sempre tinham um espaço onde acontecia magia.

Em algumas casas a festa já estava a ser preparada muitas horas antes. Das minhas memórias de infância quase que só consigo lembrar o que acontecia de portas para dentro.
A Árvore de Natal com bolas brilhantes de vidro de mil cores, algodão em rama a fingir a neve e velinhas de cera, riscadas, de cores variadas, de pequeninas chamas a tremeluzir, onde todo o cuidado era pouco, pois ao mais leve descuido tinha-mos o pinheiro chamuscado.

No entanto, o Presépio, sem dúvida, era o que me enternecia. Todas aquelas figurinhas de barro encantadoras, a cabana iluminada suavemente, os montes em papel e cartão cobertos com terra e musgo, o papel de alumínio azul com estrelas prateadas, o aguadeiro, uma igreja e um moinho muito pequeninos, junto três camelos com os respetivos Reis Magos, enormes e dentro da cabaninha, o burrinho a vaca e a Sagrada Família. Quando pequena nunca compreendi o porquê do Menino Jesus estar despidinho, com aquele frio todo que eu acabava de sentir na rua, mesmo assim, ficava feliz e sorridente, pois todos faziam as minhas delícias e povoavam toda a minha imaginação.

É a repetição de rituais que nos trazem felicidade, nem sempre imediatamente, devido à pressa em que se vive. A azáfama de criar a festa, o gosto de compartilhar com a família e os amigos, era uma felicidade acrescida. O preparar a Ceia de Consoada, onde nunca faltava o bacalhau cozido com muitas couves, dita de Mirandela, pagas a preço de ouro, (e que no Norte dão pelo nome de Pencas) regadas com azeite finíssimo de paladar inesquecível, um fiozinho de vinagre e muito alho picado. A Ceia era abundante, pois tinha que sobrar para o dia seguinte se fazer a tradicional “Roupa Velha”.

A Consoada está dividida em duas partes, a bacalhoada e depois a doçaria, ritual maior; arroz doce, e aletria, decoradas sempre com o perfumado pó de canela, fazendo enfeites, normalmente, desejando “Bom Natal”; o leite-creme que era sempre queimado com um ferro em brasa; rabanadas, (que são uma instituição cultural da zona Norte), feitas de pão, as padarias fabricam um pão especial muito comprido e que nesse tempo dava pelo nome de cacete. É com ele que se fabricam as rabanadas que é um doce de Natal e que não são mais que fatias de pão demolhadas em leite e passadas por ovos, que depois vão a fritar, regadas com vinho do Porto, um pouco de açúcar e canela, são uma delícia. Natal sem rabanadas não pode acontecer. Depois para digerir todo este excesso, todos para a rua a caminha da Missa do Galo, pois é quase meia-noite.

Todos não!… A Avó Júlia e eu ficávamos em casa as duas sozinhas, creio que a Avó era demasiado velha e eu demasiado nova, então ela contava-me Estórias de Natal, cantávamos loas pastorais tais como:

Entrai pastores, entrai,
Por esse portal sagrado
Vinde adorar o menino
Numas palhinhas deitado

Só tenho para ofertar-vos
Uma alma que vos quer bem
Prenda melhor não a tenho
Tomai-a meu doce bem.

Jogávamos aos pinhões, até que todos regressavam e continuavam com a interrompida Ceia, todos vinham enregelados, devido ao muito frio e ao nevoeiro tão característico do nosso Porto. O aconchego da casa convidava a uma bebida bem quente antes de dormir, e esperar ansiosamente a vinda do Menino Jesus. Porque nesse tempo ainda era pelo Menino Jesus que nós esperávamos para nos trazer os tão desejados brinquedos de madeira, lata e baquelite que eram toda a nossa alegria (ainda guardo algumas bonecas) se os meninos de hoje vissem o que nos dava tanta felicidade, ficavam espantados e depois a ansiedade da espera era também um presente maravilhoso.

Já deitada não conseguia dormir a ver se ouvia o menino Jesus que entrava pela chaminé. – Mãe!… eu ouvi ele entrar!… Mas só ou outro dia de manhã é que se podia ir ao sapatinho ver o que lá estava. Ó que felicidade tão grande, como é que o Menino Jesus adivinhou exatamente o que eu gostava de ter. Não há felicidade tão grande como a que vem da ingenuidade, tudo é belo, tudo é perfeito. Mas, um dia veio a desilusão pela boca de uma amiguinha mais desperta para as realidades da vida. – Não sejas parva, não foi o Menino Jesus que te trouxe as prendas, foi a tua mãe que as comprou!… Ó verdade cruel… Creio que ainda hoje não digeri bem que alguém que eu amava me tivesse mentido tão descaradamente, julgando que era o melhor para mim.

No espaço entre o Natal e os Reis organizavam-se grupos de cantadores e tocadores de ferrinhos e alguns instrumentos improvisados, que iam pelos portais dos amigos cantar loas e rimas de natal, conhecidas da maioria para todos cantarem também, fazendo o nosso encanto.

No dia 25, continuava-se o exercício culinário, muito aumentado com carne assada, regada com espumante e abria-se um belo Bolo-Rei, tostadinho e muito enfeitado com frutas cristalizadas a lembrar as pedras preciosas das coroas dos reis; e para nossa alegria trazia sempre um brinde e uma fava que muito desagradava a quem a recebia.

Recordo-me que na Mesa de Natal se colocava mais um prato em lembrança dos ausentes.

Até aos Reis a 6 de Janeiro, apesar das noites frias e húmidas ouvia-se sempre a rapaziada a cantar as janeiras batendo de porta em porta para arrecadar algumas moedas e algumas guloseimas.

Depois era guardar religiosamente todas as figurinhas do Presépio e as bolas de vidro da Árvore até ao próximo Natal.

Nas ruas  caídos no chão os pequenos pinheiros mortos e inúteis, mostravam-nos que a festa acabou.

O melhor Natal é aquele que vive na nossa memória.

NATAL FELIZ

 

Fotos: pesquisa Google

01dez19

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