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O que tem Camilo Castelo Branco a ver com o Zé do Telhado?

Camilo Castelo Branco, escritor português de grande renome, salientou-se como romancista, dramaturgo, cronista, crítico, historiador, poeta e até tradutor. Foi um dos escritores portugueses que mais produção literária apresentou e publicou, sendo das personalidades mais marcantes da literatura portuguesa. Contudo, a sua vida pessoal foi bastante atribulada, sobretudo no que diz respeito à parte amorosa. As “estórias”, à volta destes casos, são muitas… Mas, uma delas creio que suplantou todas as outras! Camilo apaixonou-se por Ana Plácido, senhora já casada com o rico comerciante Manuel Pinheiro Alves, um dos chamados “brasileiros de torna-viagem” que, tal como muitos outros, fizeram fortunas consideráveis, no Brasil. Esta “paixão fatal”, no contexto da moralidade da 2.ª metade do séc. XIX, acabou por provocar um enorme escândalo na sociedade portuense, pois todos os pormenores desta história ”fugiam” aos chamados “bons hábitos e bons costumes”.

Este amor extra-conjugal, que abalava todas as regras impostas, acabaria por condenar os dois amantes. A 26 de Março de 1860, Ana Plácido foi denunciada e acusada pelo crime de adultério, o que teve como consequência ser presa na Cadeia da Relação do Porto. Camilo ainda deambulou pelo norte do país, com ideias de deixar o país, mas acabaria por se entregar à justiça, acusado por ter mantido relações sexuais com uma mulher casada. Este crime resultou na prisão de Camilo, durante um ano e 16 dias.

Foi exactamente durante o tempo em que Camilo esteve detido na Cadeia da Relação do Porto que conheceu José Teixeira da Silva, o conhecido José do Telhado ou Zé do Telhado, célebre chefe de uma temida quadrilha de salteadores, um bandoleiro que pilhava casas e carruagens de pessoas abastadas e que, depois, dividia os roubos com os mais pobres da sua região. Diz-se que o apelido de “Telhado” lhe terá vindo do facto de seus pais serem proprietários da única casa com telhado feito de telhas, uma vez que todas as outras casas da povoação eram cobertas de colmo.

Zé do Telhado tinha tido uma vida rocambolesca, recheada de aventuras extraordinárias que iam desde o alistamento no exército, com a participação em várias revoltas militares, nomeadamente na Revolta da Maria da Fonte (1846), na qual se envolveu activamente, até à cooperação em guerrilhas ao lado de partidários miguelistas, contando ainda com os assaltos violentos e a morte de um companheiro da quadrilha que o denunciou, quando o Zé do Telhado tentava fugir para o Brasil. Já estava a bordo da Barca “Oliveira”, pronta para partir para o Rio de Janeiro, quando foi apanhado pelas autoridades e preso na Cadeia da Relação, onde partilhou a cela com Camilo Castelo Branco.

E, é desta convivência feita amizade, que Camilo Castelo Branco recolheu testemunhos da vida de José do Telhado, publicando-os nas “Memórias do Cárcere” onde, sobre este personagem, narra as façanhas de uma vida de crime, mas enaltecendo o facto de o salteador roubar para dividir pelos mais desfavorecidos. O escritor eleva-o à categoria de um herói popular, à boa maneira do famoso herói da Idade Média, o inglês Robin dos Bosques, agora transformado em Robin dos Bosques português.

Conta-se que Camilo, enquanto esteve preso por adultério, temia pela sua vida, pois imaginava que Pinheiro Alves, o marido enganado por Ana Plácido, poderia subornar um preso qualquer para o matar. Esta sua preocupação, que lhe tirava o sono e o sossego, foi transmitida a José do Telhado, que lhe terá respondido “[…] que estivesse descansado, pois se alguém lhe tocasse com um dedo, três dias e três noites não chegariam para enterrar os mortos […]”.

Como reconhecimento por esta protecção, Camilo conseguiu que o seu advogado de defesa fosse também o mesmo para defender o Zé do Telhado. Por esse motivo, José do Telhado teve como defensor o Dr. Marcelino de Matos que o livrou da forca, embora não tivesse conseguido librá-lo do degredo na África Ocidental (Angola), durante 15 anos.

Já no degredo, Zé do Telhado, aproveitando o conhecimento com o capitão-de-fragata Emílio Magalhães Roxo de Almeida, entregou-lhe uma carta dirigida a Camilo (1871), em que ressalta a amizade entre ambos, tratando Camilo por “meu bom amigo” e salientando  a “[…] amizade sincera que nos nutrimos de modo recíproco […]”. Nessa missiva, Zé do Telhado descreve a sua vida em Malange, onde contraíra novo casamento e constituíra uma nova família, num degredo perpétuo “[…] que me tem sido agradável, tanto quanto é possível.” Zé do Telhado despede-se de Camilo Castelo Branco com a seguinte frase, que carrega um misto de admiração e amizade:

“Do seu devotado e eterno admirador e kamba ria muxima (em Kimbundu, língua africana falada no noroeste de Angola, a expressão “kamba ria muxima” significa – “amigo do coração”).

Para sempre ao dispor

José Teixeira da Silva”

 

OBS:Por vontade da autora e, de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc eTal jornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.

 

Texto: Maximina Girão Ribeiro

Fotos: pesquisa Google

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