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O senhor do borrego

Miguel Correia

A época Natalícia faz parte do nosso quotidiano desde meados de Outubro. Os anúncios aos brinquedos tomam de assalto os canais televisivos e a petizada apenas tira os olhos do ecrã para registar tudo na lista de presentes. E o sacana do velho barbudo que se desenrasque! Contudo, a publicidade não visa apenas os mais novos. Há uma quantidade exorbitante de artigos, em promoção, para abrilhantar a época festiva. O resultado, desta investida publicitária, é simples: todos ao shopping! E que ninguém esqueça a grande virtude do povo Tuga: deixar tudo para a última hora! Nunca vamos aprender…

O folheto do hipermercado destacava a promoção da carne de borrego. Destinada às barrigas que sobrevivem (com fome) ao tradicional bacalhau da noite de consoada. Assim, no dia seguinte, podem encher o bandulho sem misericórdia. Alguns descobrem no final de almoço que precisam alterar o tamanho da roupa em, pelo menos, dois números acima! De facto, a preguiça é tanta que nem procuram o comando do televisor e aguentam a programação, com filmes mais lamechas, destinada aos mais novos!

De volta ao recinto do hipermercado (até podia dizer o nome mas, como não recebo pela publicidade, fica mesmo assim!) consigo reparar que perus há muitos. Borrego, é que não! Nota-se uma sensação de frustração na cara dos restantes clientes que ostentam o folheto da promoção borrega. Uma repositora volta a encher a arca frigorífica com mais perus. A pergunta é inevitável e a resposta é mais que certa: não há! Por entre várias cabeças e vultos reparo num funcionário com colete de malha. Por exclusão de partes – e considerando as regras do fardamento – se tem colete, é mais importante do que aquele que apenas veste camisa! Fiz a pergunta e pediu-me para esperar dez minutos. No talho estavam a preparar as últimas peças de carne. Cumpriu com a promessa!

Admiro a astúcia (ou instinto de sobrevivência) porque a embalagem de borrego (que me foi entregue) atravessou o corredor de acesso por entre caixas de bife! Já se perdia a conta ao número de desesperados que ignoravam o peru e vasculhavam vestígios de borrego! Guardei religiosamente a embalagem no fundo do carrinho de compras. Tivessem feito o mesmo em Tancos e, seguramente, não teriam roubado as armas!

Senti-me o Senhor dos Anéis (versão borrego) em toda a sua plenitude! Apenas descansei quando depositei a embalagem na cozinha lá de casa! A época Natalícia vivida, em todo o seu esplendor, num corredor do hipermercado. E não pensem que ficou por aqui! Num autêntico milagre de Natal pude ver três velhas (que mancavam) correr ao encontro do repositor das pencas! Pareciam possuídas! O funcionário, temendo risco de vida, abandonou o carro do transporte e fugiu para o interior do armazém! Ser atacado por velhinhas não é acidente de trabalho…

Foto: pesquisa Google

01dez19

 

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