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Oralidade e escrita

Joaquim Castro

A qualidade oratória dos portugueses, assim como a da escrita, continuam em franca degradação. Ou seja, há cada vez mais, pessoas que utilizam mal a língua portuguesa. Mesmo nas expressões mais simples. Trocar o “à” pelo “á”, ou o “estar” pelo “tar”, começa a ser tão corriqueiro, que já nem toda a gente se importa. Recentemente, a RTP3 exibiu, durante muitos minutos, em rodapé: Intervenção “cirurgica” ao presidente da República já terminou. Bem sei que é um erro pequeno, a falta do acento no u, mas mantê-lo por tão largo tempo, já não pode ser desculpado. Alguém tem obrigação de olhar e de corrigir esses erros de rodapé, que são sempre muitos.

UM DOS QUE…

Na SIC Notícias, foi dito que o realizador do filme “Joker”, Joaquin Phoenix, agradeceu a cada um dos que “comprou” bilhetes, o sucesso do seu filme. Este fenómeno de passar para o singular, quando se fala no plural é muito comum dentro da comunicação social. Neste caso, a jornalista deveria ter dito: o realizador do filme “Joker”, Joaquim Phoneix, agradeceu a cada um dos que “compraram” bilhete, o sucesso do seu filme. Outro exemplo errado: ele é um dos que “foi” à guerra. O certo seria: ele é um dos que foram à guerra. Como é o meu caso!

COMPARAÇÃO INDEVIDA

Na RTP, foi noticiado, em 19.11.2019, que “as infecções hospitalares em Portugal atingem o dobro da média europeia”. Ora, o que devia ter sido dito, é que “as infecções hospitalares em Portugal atingem o dobro das (infecções) da média europeia”. Esta comparação, entre infecções e a média europeia constitui uma errada construção frásica, que deve ser evitada. Principalmente, no canal público português.

DUAS FORMAS

As palavras trasladar e transladar são sinónimas. Porém, a forma preferida pelos puristas da língua portuguesa fixa-se em “trasladar”, que se pode utilizar na área do transporte, como o de um defunto, de um lado para outro. Segundo alguns autores, a forma transladar é resultado de uma contaminação de outras palavras, e que só é incluída na nossa língua pelo uso. Curiosamente, o jornal Correio da Manhã usa os dois termos, transladar e traladar numa mesma curta notícia. Assim, não falha! No meu tempo de criança, alguns colegas de escola colocavam um acento grave e outro agudo sobre o “a”, um assim “á” e outro deste modo “à”. Claro que, a professora marcava erro.

“AQUILO QUE…”, PARECE QUE VEIO PARA FICAR

Nos últimos tempos, tenho notado que a expressão “aquilo que…” é muito utilizada nos discursos de muita gente. Entre ela, políticos e agentes do futebol. Se for a ministra da saúde, Marta Temido, poderemos ouvi-la dizer: “a resolução deste problema do fecho das urgências, é “aquilo que” mais nos preocupa, neste momento. Ela utiliza muitas vezes este chavão. Se for o seleccionador Fernando Santos, poderemos ouvi-lo dizer uma frase do género: “este resultado está dentro “daquilo que” era expectável. Esta expressão não está errada, mas, usada com tanta insistência, acaba por ser notada, pelos mais atentos ao palavreado usado, sobretudo, nas televisões.

SALGALHADA

Há uns tempos, Marques Mendes, no seu habitual espaço de comentário na SIC aos domingos, utilizou a expressão “salganhada”, que não encontrei consagrada nos dicionários que consultei. No caso, ele deveria ter pronunciado “salgalhada”, que pode ser sinónimo de confusão ou trapalhada, uma palavra que Marques Mendes muito utiliza. Poderemos estar perante a chamada lei do menor esforço, trocando o “lh” por “nh”, o que representa um maior conforto tónico dos falantes. Deste modo, a palavra “salganhada” começa a vingar, por troca com “salgalhada”.

DIÓSPIRO

Quase toda a gente lhe chama “diospiro”, mas o nome correcto desta fruta é “dióspiro”. Penso que, no Norte de Portugal, até lhe chamam, ou já chamaram, “diauspiro”. Nos postos de venda, tanto se vê escrito “dióspiro”, como diospiro, não sendo do conhecimento geral que “dióspiro” é a forma correcta de escrita. No Brasil, chama-se caqui, do japonês kaki, sendo um fruto do caquizeiro. O “dióspiro”, em português europeu, nasce do diospireiro. O nome “dióspiro”  (Diospyros) tem origem no grego, que significa alimento de Zeus, Senhor dos Céus e Deus Supremo da mitologia Grega.

ENCARNADA À FORÇA!

Num recente jogo de futebol feminino, um dérbi entre o Futebol Benfica e o Sport Lisboa e Benfica, para a Liga BPI, o mais alto escalão do futebol feminino, a equipa da casa jogou de vermelho e a equipa visitante, o Sport Lisboa e Benfica equipou de cinzento. Ora, durante todo o jogo, que vi na televisão, a equipa de cinzento foi sempre tratada por equipa encarnada! Para os mais distraídos, era algo de muito confuso: ver uma equipa de cinzento ser tratada por encarnada. Já equipa que estava de encarnado, era tratada por Futebol Benfica. Isto, só prova que os narradores estão formatados para uma certa linguagem e não sabem sair dela, quando se justifica.

OS CHUMBOS DOS ALUNOS

Existe a aprovação, mas já não existe a reprovação nas escolas, como antigamente. O não aprovado tem vindo a ser massivamente substituído por chumbo. Esse termo “chumbo” sempre existiu, como sinónimo de reprovação. Mas nunca como agora. Até parece que o termo reprovado foi abolido do nosso dicionário. No presente, o termo tem sido usado, sempre, por causa da intenção do Governo de não “chumbar” os alunos, até ao 9.º ano. No meu entender, quem chumba são aqueles que usam o termo chumbar, indiscriminadamente, esquecendo o termo de lei, que é “reprovação”.

 

Nota: Por vezes, o autor também erra!

 

Fotos: pesquisa internet

01dez19

 

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