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RUA DR. CUNHA AINDA É UM “MOSTRUÁRIO” DA VARIEDADE DE PADRONAGENS AZULEJARES NA CIDADE DE OVAR

Entre as várias ruas da cidade de Ovar em que o azulejo se assume como expressão urbana, que a partir do final do séc. XIX e principio do séc. XX passou a ser utilizado no embelezamento do património edificado, designado “casa de brasileiro”, por influencia dos emigrantes do Brasil, país em que, durante o séc. XIX esta arte cerâmica ganhou uma nova dimensão no revestimento exterior dos edifícios, e como “azulejo de torna-viagem”, pela mão destes emigrantes mais endinheirados se desenvolveram as suas capacidades de decoração das fachadas, como acontece em Ovar, criando verdadeiras “ruas de cerâmica” (Rafael Salinas Calado, 2000), a exemplo da Rua Dr. Cunha, que ainda se destaca como um “mostruário” da variedade de padronagem azulejar, como motivo diferenciador, mesmo tratando-se de um azulejo com características, mais de revestimento na arquitetura tradicional ovarense.

Mesmo sendo assumido que Ovar não tem azulejos muito antigos, nem exemplares muito importantes, mesmo assim não deixa de ser reconhecido como um “verdadeiro museu vivo”. E se já muitos exemplares desta arte cerâmica de variadas formas geométricas e cores que refletem brilho nas ruas do miolo central da cidade, desapareceram com o tempo e com opções urbanísticas de pouca sensibilidade na preservação deste património arquitetónico. Artérias da cidade como a Rua Dr. Cunha, em que predomina o azulejo vidrado pintado através da técnica de estampilhagem (a mais utilizada) e em alguns casos, motivos com alguns pormenores pintados à mão. São exemplares que ainda resistem ao tempo e tantas vezes às dificuldades dos seus proprietários para os necessários apoios a onerosas despesas em obras de restauro e preservação, mesmo com a linha de apoios financeiros do Município de Ovar para intervenções em casas com fachadas azulejares.

Sendo a Rua Dr. Cunha uma exemplar mostra de diversidade da padronagem azulejar que Ovar possui, é também o retrato do muito que está por fazer para travar a decadência deste património, que resulta tanto do abandono a que estão votadas algumas das casas com fachadas azulejares, como a evolução social dos seus proprietários, em que na sua generalidade, no caso destes arruamentos mais populares, já não correspondem aos endinheirados emigrantes brasileiros dos finais do séc. XIX e princípios do séc. XX.

Esta rua, rica em variedade de padrões florais de azulejo, que une o tradicional bairro do Lamarão ao centro da cidade, através da Rua Dr. José Falcão, há muito dá sinais da necessidade de mais atenção para salvar alguns dos exemplares de padronagem azulejar que, no seu conjunto, enriquecem o património que representa a azulejaria na cidade de Ovar.

Quem percorre preferencialmente a pé este arruamento, e se predispõe a contemplar as diferentes padronagens que dão mais brilho e colorido às fachadas de casas humildes, geralmente de rés-do-chão que caraterizam o bairro envolvente, de origens operárias e piscatórias, em muitos casos ainda de famílias outrora ligadas à pesca do mar ou da ria, pode registar um número bem significativo de casas decoradas com azulejo em ambos os lados desta Rua Dr. Cunha, comparativamente com o numero de fogos ali existentes numa pequena artéria.

Ainda que sejam visíveis algumas alterações no estado de abandono a que se vinha assistindo num significativo número de casas, com consequentes efeitos negativos na degradação, particularmente das fachadas azulejares. Os pontos mais críticos de evidente necessidade de intervenção, no restauro e preservação do azulejo, é há muito conhecido e devidamente identificado pelo Atelier de Conservação e Restauro de Azulejo (ACRA) da Câmara Municipal de Ovar, ainda que, com as dificuldades que persistem na possibilidade de intervenção por se tratar na generalidade dos casos, de património privado, nem sempre com resultados satisfatórios no diálogo entre as partes para salvar algumas das peças cerâmicas originais que se vão perdendo nas fachadas mais fragilizadas e abandonadas.

O tempo continua a passar e muitos dos focos de degradação azulejar, permanecem sem alterações que dignifiquem este património arquitetónico, com o risco de se perderem irremediavelmente alguns exemplares deste autêntico mostruário, tal é a variedade de padronagens azulejares que ainda se encontra na Rua Dr. Cunha, na cidade de Ovar.

Texto e fotos: José Lopes

01dez19

 

 

 

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