Menu Fechar

PÃO DE LÓ DE OVAR COM “RECHEIO” DE CULTURA NA MESA NATALÍCIA

Nem sempre o Pão de Ló de Ovar chegou à mesa das diferentes classes sociais, nas tradicionais épocas natalícias e da páscoa. Houve mesmo tempos em que para as famílias mais pobres tais épocas festivas eram aguardadas para saborearem, não o doce à base de gemas de ovos, mas as claras dos ovos que cozinhavam como refeição, que faziam as delícias dos mais humildes da terra, sem recursos para comprar a famosa iguaria, a broa de Pão de Ló de Ovar com uma antiga história na gastronomia vareira.

José Lopes (*)

(texto e foto)

Continuando a não ser muito acessível a todas as mesas, a evolução social democratizou mais este doce conventual, tornando-o quase indispensável na mesa natalícia, independentemente da grande variedade de doçaria da época, como as especialidades típicas e tradicionais que sempre foram mais acessíveis a todas as famílias, popularmente mais representativas da simbologia do Natal em cada comunidade.

Sendo o ex-libris da cidade na doçaria tradicional e regional, o Pão de Ló de Ovar, cada vez mais procurado durante todo o ano, é sobretudo no Natal e na Páscoa que, entre produtores segundo métodos tradicionais e tipo de produção mais industrial, certificados e recomendados ou não pela Associação de Produtores de Pão de Ló de Ovar (APPO), que a procura atinge no total dos produtores, quantidades comerciais astronómicas de quilos deste produto, só possível de obter por prévia encomenda, tal é a procura dos vários pontos do país ou para acompanhar diferentes destinos, nacionais ou no estrangeiro para as reuniões familiares que caraterizam estas épocas festivas.

Ainda que distribuídos por diferentes ruas da cidade de Ovar, como sempre se registou através de diferentes famílias de produtores (exemplos do Pão de Ló Cruz, Guida, São João, Casa das Festas ou Flor de Liz), há curiosamente uma artéria desta cidade que dá nome ao Pão de Ló com características muito especificas (alto, fofo e húmido), em que se concentram vários outros produtores com respetivos estabelecimentos (Pão de Ló Cardoso, Casinha do Pão de Ló e a mais antiga, São Luiz).

Trata-se da Rua Dr. José Falcão em que se podem encontrar algumas das memórias verdadeiramente representativas deste património, como a casa do Pão de Ló São Luiz, que de geração em geração, há mais de dois séculos vem dando continuidade à produção artesanal do Pão de Ló mais antigo e acreditado.

Com a imagem de São Luiz patrono do Pão de Ló São Luiz, como marca inconfundível entre os produtores locais, esta casa, como referencia que é, proporciona ainda a quem ali procura o ex-libris da cidade, curiosas memórias e registos sobre a história de dois séculos (1781-2011) do Pão de Ló São Luiz, através do livro “Pão de Ló de Ovar São Luiz” da autoria de Luiz Duarte de Oliveira Dias (falecido), pai da atual proprietária (Maria De São Luís) que mantem a tradição e o património gastronómico e particularmente o cultural, que o livro regista.

Nesta obra deixada por Luiz Duarte de Oliveira Dias, como um testemunho da vida dedicada à preservação e valorização de tal património, o Pão de Ló São Luiz é assumido como, “um doce regional que, pelas suas características, se tornou mundialmente afamado, e não tem similar. A sua configuração tem o formato de broa envolvida por papel de linho branco. Feito de ovos (especialmente gemas), açúcar e farinha, a sua estrutura é gradualmente composta, no seu todo, por massa muito fofa e leve, tendo na parte superior uma finíssima côdea, húmida e de cor levemente acastanhada, circundada por uma orla de massa cremosa de tom amarelo-ovo, toda ela com um magnífico e exótico aroma, muito absorvida instantaneamente pelas glândulas gestativas”.

O autor, como membro da família que de geração em geração, dignificou o nome e a qualidade do Pão de Ló de Ovar até ao século XXI, deixou ainda nesta sua obra (revista e em 2ª edição), pedaços da história local relacionados com este doce, bem como a história familiar ao longo de mais de dois séculos, dos Arrotos aos Oliveira Gomes, ligada às broas de Pão de Ló. Curiosas são também as referências às dificuldades na sua produção durante o período da II Guerra Mundial, em que havia falta de açúcar e de farinha.

“Na rota do Japão” é igualmente um dos capítulos, em que surgem referencias à relação com o doce “Castella”, fabricado em Nagasaki, possivelmente levado por portugueses, e que motivou mesmo a vinda de uma equipa de TV daquela cidade japonesa a Ovar, para como é relatado no livro muito ilustrado, como “recheio doce” de memórias, filmar o fabrico tradicional do Pão de Ló São Luiz. Uma relação que se traduz numa já antiga procura do Pão de Ló de Ovar por turistas japoneses, como embaixador de Ovar no Japão.

Do ponto de vista histórico, esta obra, inclui o contributo de Alberto Lamy, historiador e autor da Monografia de Ovar, que refere, “a noticia mais antiga desta guloseima é dada pelo Padre Manuel Rodrigues Lírio, na sua obra “Os Passos”, onde escreve, (…). Em 1781, são obsequiados com Pães de Ló de Ovar, os padres que levavam o andor na procissão dos Passos…”, adiantando ainda que, “não há conhecimento da origem do Pão de Ló, naturalmente Conventual, cujo fabrico, anteriormente a 1850, era bastante rudimentar, dedicando-se a esta atividade algumas famílias da vila, como os Arrôta, com famílias no lugar da arruela, e nas Rua dos Figueiras, a do Virgílio, na Rua das Pontas, as Guedes na Rua da Fonte, e outras mais”.

Neste caso concreto da casa do Pão de Ló São Luiz, Alberto Lamy (também já falecido), lembra que, “do ramo da família Arrôta (que já o fabricava), foram os antepassados de Luiz de Oliveira Gomes, bem como este (falecido em 1913 com 70 anos), então destacado proprietário de fragatas, teve continuidade o referido fabrico na pessoa de sua cunhada Rosa de Oliveira Duarte (falecida em 1924)”, sendo dada continuidade até aos dias de hoje, pelas sucessivas gerações desta família ao fabrico artesanal e familiar que se vem mantendo, “tendo a família Luiz procurado não perder a tradição quanto ao cumprimento integral da secular receita, tornando-o assim “o mais antigo e acreditado” Pão de Ló de Ovar”, que continua a fazer as delicias na mesa de qualquer época, mas tal como o Bolo Rei, destaca-se em tempo natalício.

(*)Pesquisa e fotos: paolosaoluizdeovar.blogspot.com

01dez19

 

 

 

 

 

Partilhe:

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.