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Qual é o mal do racismo?

António Pedro Dores

Um dia criaram as condições para baixar as despesas em salários, permitindo o aumento tráfico humano e da escravatura. Como não fui atingido por essa circunstância, não fiz nada. No dia seguinte criminalizaram a faltas de cumprimento de regras administrativas e a presença de estrangeiros e seus descendentes nos espaços públicos. Como não sou estrangeiro, não me mexi. No terceiro dia pagaram aos países vizinhos do Mediterrâneo para violarem os direitos humanos dos migrantes. Como não sou migrante, não me importei. Ao quarto dia expulsaram todos os imigrantes ilegais. Como não sou imigrante ilegal, nem dei conta disso. No quinto dia expulsaram os imigrantes. Como não sou imigrante, deixei que acontecesse. No sexto dia expulsaram os filhos dos imigrantes. Como não sabia que era filho de imigrante, fui expulso e já não havia ninguém para ficar indiferente ao meu destino de pária.

Actualização de um dito famoso de Brecht

“Qual é o mal do racismo”? Foi esta a pergunta que atrapalhou uma jovem académica que veio a Lisboa mostrar o seu trabalho de investigação sobre a extrema-direita. Ser racista ou não ser racista, parecia pressupor o membro da pequena assembleia, era uma caraterística pessoal ou política. Deveria ser neutralizada moral e ideologicamente, para que a ciência e a razão fluam o seu curso. Para que as opiniões e os sentimentos não perturbem a análise e o raciocínio com preconceitos.

A jovem, por seu lado, branca e loura, não se deu conta de que alguém tinha referido, no meio das diatribes contra os migrantes, que deveriam ser proibidas as relações sexuais entre casais mistos: isto é, que a separação entre nós e eles é uma coisa de homens, para o que as mulheres – por terem a capacidade de terem filhos – se tornam um risco. Talvez a jovem nunca tivesse tido namorados ou namoradas migrantes. Será que nunca virá a ter?

Outro elemento da assembleia vitimizou-se: o seu nome terá sido exposto no país de origem como alguém perigoso, apesar de jamais se ter envolvido em qualquer espécie de violência. Estava simplesmente a ser alvo de uma actividade de neutralização política.

Embaraçada, a jovem lá encontrou uma resposta: “o uso do racismo já deu mau resultado no passado”. Mas isso também aconteceu com o socialismo. Justifica isso a perseguição política aos socialistas, ou justifica isso o ostracismo politicamente correcto da expressão socialismo? E como entender o activismo anti-racista? Porque não pode e deve haver manifestações anti-socialistas, como as há anti-racistas?

Com a eleição de um deputado explicitamente racista para a Assembleia da República, justifica-se levar a sério perguntas que correm as mentes de cada vez mais pessoas pela Europa. Porque deveremos reprimir, esconder, suprimir as nossas antipatias pessoais, em vez de as afirmar e desenvolver?

Um dos participantes no seminário explicou com dados de inquéritos como aquilo que divide actualmente os eleitorados norte-americano e britânico, praticamente ao meio: a psicologia. Aqueles que estão preocupados com a presença de imigrantes e preferem que as coisas se mantenham como estão, que a sua vida continue as rotinas actuais, votam por Trump e pelo Brexit. Os que entendem a chegada de imigrantes como uma oportunidade de convivialidade e de inspiração para mudar a vida, votam contra Trump e contra o Brexit. Outro participante notava como na Alemanha a representação de partidos de extrema-direita tinha sido suportada por votos de trabalhadores, que não costumavam votar conservador. E que a maioria dos votos dos trabalhadores vai para a abstenção.

Todos concordaram que a crise dos refugiados sírios, em 2015, e a violação do direito internacional organizada pela União Europeia e condenada pela Amnistia Internacional e a ONU, foi o ponto político de viragem das orientações de voto para partidos de extrema-direita. Mostraram-se mais determinados que outros em usar o racismo como arma eleitoral, mesmo contra aquilo que é politicamente correcto. Contra aquilo que dizem a FIFA e outras organizações desportivas. Organizações com problemas de corrupção, mas promotoras do politicamente correcto. Orientação também seguida pelos principais jornais e jornalistas, todos ciosos de manter os respectivos espectáculos bem-sucedidos, pacíficos, consensuais.

O politicamente correcto não afecta só os partidos dominantes, agora em risco. Afecta também os partidos em ascensão que, para o fazerem, em vez de clarificarem as suas perspectivas ideológicas ou psicológicas sobre como conduzir a vida e a política, procuram discursos mais consensuais, como os que incompatibilizaram a senhora Le Pen com o seu pai. Os neo-nazis e proto-fascistas vestem pele de cordeiros e vítimas, manifestando lealdade à democracia e à paz. Nas redes sociais é outra coisa: a especificidade e rigor dos sentimentos, infelizmente mais do que das ideias, contam-se em likes e em notoriedade oferecida pelos motores de busca. O ódio jorra, enfurecido.

Os partidários de extrema-direita podem queixar-se, com razão, de serem ostracizados pelos media e perseguidos pelo establishment político. Os académicos que tratam das suas ideologias sem se demarcarem delas podem queixar-se de não serem estimados, na academia. Uns e outros querem ignorar a violência envolvida nos discursos racistas. E o meio académico é um dos ambientes onde a simples menção da existência da violência é surpreendente: como costumam dizer os psicólogos, é uma coisa que acontece aos outros.

Sendo a violência quase sempre imaginada como um crime, algo que apenas acontece no mundo do crime, num mundo à parte, feito de pessoas más, que as polícias e os tribunais cuidam de ostracizar, através de prisões, a discussão passou também pela referência aos crimes dos estrangeiros. Com que direito cometem crimes onde foram acolhidos? É uma das perguntas preferida dos racistas.

Qual é o problema com o racismo? Perguntou alguém da assembleia, para excitação de uma parte dela, todo o tempo a procurar fingir que estava a romper com a barreira do politicamente correcto por razões científicas, quando estava a aproveitar a ocasião de uma conferência científica para confirmar convicções ideológicas. Fez-me lembrar a excitação que percorre assembleias de profissionais do social quando se apresenta um caso de sucesso de integração social. Como a auto-frustração e a desconfiança são o dia-a-dia, aquele pequeno momento de antecipação de um futuro pleno de sucesso produz dopamina.

A jovem ficou nitidamente embaraçada e lá respondeu sobre o pouco que sabia do seu próprio preconceito contra o racismo. Imagino que não abdicou dele. Mas não estava preparada para combater o exibicionismo da ideologia neo-nazi.

A vantagem da democracia é a substituição da violência pelo debate argumentativo, para o que são precisas a retórica (esconder as verdadeiras motivações, como o racismo ou anti-racismo) e conhecimentos. Conhecimentos de facto, nomeadamente sobre aquilo que foi dito no seminário sobre o que dizem e propõem os neo-nazis e sobre os fundamentos morais das suas motivações. Algo aparentemente fora do escopo da formação académica especializada actual.

Os neo-nazis representados disseram ao que vinham: combater o risco de invasão muçulmana da Europa (já não é uma questão entre países, como foi nas Grandes Guerras, e já não é uma teoria da conspiração: é um facto demográfico). Para tal, para evitar a situação de confronto violento que se está a criar com a fertilidade comparada entre imigrantes e autóctones, há que – imediatamente – impedir as relações mistas entre as nossas e os deles e começar a expulsar (pacificamente) os imigrantes ilegais. Logo a seguir, a tarefa será expulsar todos os outros imigrantes e respectivos descendentes; pacificamente, claro. Porque “nós” somos pacíficos.

Como diria Chico Buarque de Holanda, no seu Fado Tropical, “Mesmo quando as minhas mãos estão ocupadas em torturar, esganar, trucidar, o meu coração fecha os olhos e sinceramente chora.”

Vários participantes mencionaram os tempos de travessia do deserto dos partidos racistas: defendiam combate à burocracia e menos impostos, sintonizados, mas ultrapassados pelas políticas de Reagan e Thatcher. O crescendo do incómodo da presença de refugiados, tratados como imigrantes, e o alheamento das consequências das políticas belicistas globais, como a privatização da guerra, terá gerado as condições de aggiornamento, de actualização da acção política de extrema-direita, tornando-a explicitamente racista nas redes sociais e implicitamente racista para a comunicação social e no espaço público. Qual é o mal disso?

 

Obs: Por vontade do autor e, de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc e Tal jornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.

Foto: pesquisa Google

01dez19

 

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