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Vale a pena ir à Pena!

Lurdes Pereira

(texto e fotos)

No denso coração da Gralheira ainda se sente o silêncio da solidão de São Macário que deu nome à serra na geografia de S. Pedro do Sul. A dinâmica do visível conjunto de montanhas deixa contemplar um mundo tão místico quanto mágico. O ar parece rarefeito e os olhares da serra alertam todos os sentidos. Não admira que São Macário escolhesse esta serra como lugar de excelência para o seu retiro, reflexão e arrependimento.

No ponto de fuga mais profundo do vale emergem os brilhos e reflexos de um típico casario talhado pela ruralidade, a aldeia da Pena. Visto do cume da montanha, parecem casinhas de brincar, mas ali há histórias de vida, há isolamento, há diáspora, há lendas e património que nos assalta o olhar.

Além da lenda de São Macário, a aldeia guarda, no conjunto do seu património, a estória do “caminho do morto que matou o vivo”.

História ou lenda, os populares contam que vem do tempo em que não havia cemitério e os mortos eram transportados, em ombros, pelos caminhos inóspitos da serra até ao local da última morada. Numa dessas viagens, o homem que transportava o defunto caiu, tendo o caixão com o morto caído sobre quem vinha atrás causando-lhe a morte.

Na vertiginosa descida, os aromas envolvem os sentidos do verde dominante aliado ao sorriso das pequenas flores de pétalas frágeis, aos pastos, aos retalhos agrícolas e vegetação agreste. Em volta, a viagem parece um palco num tempo e espaço fora da realidade, onde a terra termina e onde inicia um novo mundo. Silêncio, ninguém, vazio denso, montanhas e vales coroadas de um maravilhoso azul, não existe mais nada que nos abrace, nada que nos acompanhe além do caminho que nos leva ao amontoado de xisto a decorar o sopé.

Estacionados na aldeia, pouco povoada e acarinhada no regaço apertado no encontro dos mantos agrestes, podemos viajar ao ritmo do passado rico em cultura e património que a ruralidade assim testemunha. Aqui podemos encontrar a qualidade de vida perdida nos tempos remotos, nos climas austeros, encontramos o isolamento, a ternura do conceito de família, da solidão e um chão onde o tempo parou.

Como é evidente, os residentes reconstruiram as casas tendo o cuidado de preservar as suas características locais oferecendo conforto e subtraindo o isolamento com o mundo.

Tendo em conta turística a rota da água e da pedra das montanhas mágicas, a aldeia, assolada pelo abandono de muitos, é um lugar de curiosidade e admiração. O casario preserva uma arquitetura simples em xisto e os telhados espelham o lustro negro das telhas ardósicas laminadas à mão como escamas de peixe graúdo. Talhadas manualmente, nenhuma toma a mesma forma, cada qual jaz no seu leito o espaço da sua utilidade.

Toda a aldeia, abrigada na sua concha mágica, convida à contemplação pelo seu enquadramento único na paisagem. O preservado casario de xisto e ardósia observa-se logo desde o cimo do monte, oferecendo um cenário único deixando-nos fôlego, apenas à inspiração.

01dez19

 

 

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