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A escrita de Saramago

Carmen Navarro

O autor de “Memorial do Convento” é a quarta personalidade de língua portuguesa a ganhar um Prémio Nobel em 1998.

A Azinhaga do Ribatejo, em Santarém, em 16 de Novembro de 1922, viu nascer um menino, filho e neto de camponeses que fez das letras a sua enxada, José de Sousa Saramago.

Ainda não tinha dois anos quando seu pai e mãe foram para Lisboa e aí viveu até á idade adulta, no entanto, não deixou de passar com seus avós prolongadas estadas na sua Azinhaga.

O seu estilo, inovador pelo qual foi conhecido mundialmente, podemos chamar-lhe estilo Saramaguiano, onde os parágrafos são longos, sem vírgulas e sem pontos. Os temas que abordam são sempre incómodos, falou dos trabalhadores e por eles foi sempre entendido. Escreveu ficção onde a realidade da sociedade esteve sempre presente e a alma humana foi sempre dissecada nos seus livros.

A poesia de Saramago é uma poesia de liberdade, de fraternidade e de luta, não explícita, mas que vive por dentro das palavras.

«Este mundo não presta, venha outro.
Já por tempo de mais aqui andamos
A fingir de razões suficientes.
Sejamos cães do cão: sabemos tudo
De morder os mais fracos se mandamos,
E de lamber as mãos, se dependentes.»

José Saramago

In: Poemas Possíveis (1966)

Os poemas que eram possíveis escreverem sem despertar a censura que sempre andava à espreita do que escreviam os poetas.

Fala do Velho do Restelo ao Astronauta

Aqui, na Terra, a fome continua,
A miséria, o luto, e outra vez a fome.

Acendemos cigarros em fogos de Napalme
E dizemos amor sem saber o que seja.
Mas fizemos de ti a prova da riqueza,
E também da pobreza, e da fome outra vez.
E pusemos em ti sei lá bem que desejo
De mais alto que nós, e melhor e mais puro.

No jornal, de olhos tensos, soletramos
As vertigens do espaço e maravilhas:
Oceanos salgados que circundam
Ilhas mortas de sede, onde não chove.

Mas o mundo, astronauta, é boa mesa
Onde come, brincando, só a fome,
Só a fome, astronauta, só a fome,
E são brinquedos as bombas de Napalme.

José Saramago

José Saramago escreveu mais de quarenta títulos, entre romances, ficção, ensaios, contos, peças de teatro, filmes como o “Ensaio Sobre a Cegueira” que foi adaptado pelo brasileiro Fernando Meireles, poesia e um livro infantil fascinante. Fez também Jornalismo.

Entre 1947 e 1953 escreveu contos, peças de teatro e poemas publicados em Jornais e revistas, como : Vértice, Seara Nova ou Diário de Lisboa, desta altura destaca-se o seu primeiro livro de poesias “ Os Poemas Possíveis”. A crónica, e o ensaio, enquanto Jornalista, foram o género que nesta altura lhe deu notoriedade. Chegou a subdiretor do Jornal Diário de Noticias.

A trajetória literária de José Saramago é extremamente interessante, pois aborda diferentes géneros, como acabamos de ver. Está traduzida em mais de trinta línguas.

As personagens criadas por José Saramago têm sempre o condão de nos fazerem apaixonar pelo texto, mesmo nos que focam situações mais violentas como o “Ensaio sobre a Cegueira” em que o próprio autor o reconhece:

“Este é um livro francamente terrível com o qual eu quero que o leitor sofra tanto como eu sofri ao escrevê-lo. Nele se descreve uma longa tortura. É um livro brutal e violento e é simultaneamente uma das experiências mais dolorosas da minha vida. São 300 páginas de constante aflição. Através da escrita, tentei dizer que não somos bons e que é preciso que tenhamos coragem para reconhecer isso.”

“Ensaio Sobre a Cegueira” romance publicado em 1995, foi traduzido para diversas línguas. É a história de uma epidemia de cegueira branca que se espalha por toda uma cidade desequilibrando as estruturas sociais. Este romance assim como “Memorial do Convento” e o “Evangelho Segundo Jesus Cristo”, certamente foram os que motivaram o Prémio Nobel de Literatura ter-lhe sido atribuído em 1998. O escritor dedicou o prémio a todos os falantes da Língua Portuguesa. Foi um orgulho para Portugal. A Igreja não gostou muito.

Como reconhecimento do seu alto valor literário recebeu diversos prémios.

Prémios e condecorações:
Prémio Cidade de Lisboa; Comendador da Ordem Militar de Santiago de Espada
Cavaleiro da Ordem das Artes e das Letras e das Letras Francesas; Prémio Camões
Prémio Nobel da Literatura; Doutor Honoris Causa Pela Universidade de Nottinghan- Inglaterra e Doutor Honoris Causa pela Universidade de Coimbra

Poema à boca fechada

Não direi:
Que o silêncio me sufoca e amordaça.
Calado estou, calado ficarei,
Pois que a língua que falo é de outra raça.

Palavras consumidas se acumulam,
Se represam, cisterna de águas mortas,
Ácidas mágoas em limos transformadas,
Vaza de fundo em que há raízes tortas.

Não direi:
Que nem sequer o esforço de as dizer merecem,
Palavras que não digam quanto sei
Neste retiro em que me não conhecem.

Nem só lodos se arrastam, nem só lamas,
Nem só animais bóiam, mortos, medos,
Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam
No negro poço de onde sobem dedos.

Só direi,
Crispadamente recolhido e mudo,
Que quem se cala quando me calei
Não poderá morrer sem dizer tudo.

José Saramago

Em Lisboa no antigo Campo das Cebolas, hoje Largo de José Saramago, na famosa Casa dos Bicos funciona a Fundação José Saramago dirigida por Pilar Del Rio.

Viveu os últimos anos de vida ao lado da sua mulher Pilar del Rio na Ilha de Lanzarote no arquipélago das Canárias. Na sua casa em Lazarote José Saramago faleceu a 18 de junho de 2010.

Leia Saramago, é fascinante!

 

Fotos: pesquisa Google

01jan20

                                                  

 

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