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Ainda Flor Pedroso, a RTP e o jornalismo

Salazar dizia que “em política, o que parece é”. Não vou discutir este postulado que arruma a ética, a verdade e a decência para um canto. Apenas quero dizer que, em jornalismo, o que parece não é. Ou melhor só é no caso de estar devidamente verificado e confirmado. O método de verificação fá-lo o jornalista através de vários processos; a confirmação deve também ser feita por responsáveis, editores e diretores. Isto é válido para qualquer tipo de jornalismo, mas não o é para os curiosos que nas redes sociais dão palpites.

Assinei um documento que afirmava a seriedade e probidade de Maria Flor Pedroso, não por ser amigo dela ou partilhar com ela os meus ideários, mas porque reconheço nela (e no resto da direção da RTP que formou) uma seriedade e probidade que vão sendo raras na profissão.

Ao fim de mais de 40 anos de jornalismo, as redes sociais tiraram-me a máscara (já o fizeram várias vezes). Dizem que eu o fiz por um ato de corporativismo. Acaso tivesse feito o contrário, apoiando os jornalistas da redação da RTP que a queria ver pelas costas, não era corporativismo… seria outra coisa qualquer? Enfim, eu que costumo andar em contracorrente, a dizer que os jornalistas atuam em manada (mesmo alguns de aqueles que assinaram o mesmo documento do que eu) vi-me corporativo.

As mesmas redes sociais já me tinham desmascarado várias vezes; quando aceitei presidir à Comissão de Fiscalização do Sporting – clube que me deu e dá miríficas benesses por ter proposto a suspensão e expulsão de alguém que só obsessivos furiosos apoiam, e que no universo sportinguista tem uma centena de adeptos; por ser da maçonaria – coisa que sou e, embora de nada específico seja acusado, só o facto de ser é suspeito, tanto mais que não sou digno, como é suposto naquele imaginário, de casos farfalhudos e corruptos; ou por fazer fretes a… vou tentar enumerar, porque coleciono insultos: Eanes, Balsemão, Otelo, Soares, Mota Pinto, Savimbi (este deu-me diamantes que nunca chegaram), Chissano, Dhlakama, Guterres, Durão Barroso, Sócrates, inimigos de Sócrates, Passos Coelho, troika, Costa, inimigos de Costa, Sampaio, Cavaco, Marcelo, Bilderberg, etc. Isto por alto…

Estou mais do que vacinado contra pequenas e grandes intrigas; pequenas e grandes guerrinhas de jornalistas. Perante isto, e não desconhecendo que mesmo as pessoas mais sãs e prudentes cometem erros (Daniel Oliveira, com o qual raramente estou de acordo politicamente, embora eticamente andemos perto, já ontem aqui referiu alguns que Flor pode ter cometido), deixem-me dizer: se um dia pudesse fazer um órgão de Comunicação Social a sério, contava com a Flor, com a Cândida, com a Helena Garrido, com o Tó-Zé Teixeira, entre outros, mas não com muita gente que os ataca, a começar por Sandra Felgueiras.

Como na política há uma derrapagem para o populismo, há no jornalismo um enorme deslize para a falta de objetividade, a acusação fácil, a inveja sórdida, a culpa sem provas.

É fácil, é barato, dá milhões. Os que se vitimizam porque são perseguidos pela direita (mesmo que não façam nada), ou porque os bancos o exigiram, mesmo que sejam irresponsáveis, ou porque a esquerda não gosta deles (mesmo que não cumpram um mínimo de deontologia). No geral, a opinião das redações, que é algo semelhante à das redes, gosta deles e abomina quem os ponha a trabalhar ou a cumprir prazos, regras, normas e princípios éticos.

Cansei-me de ouvir gente medíocre queixar-se de censura, quando é confrontada com erros de palmatória nas suas peças jornalísticas! Cansei-me de ver notícias impossíveis (uma vez uma jornalista escreveu que uma testemunha via carros da Casa Pia à porta de Herman José, de um local onde física, geográfica, toponimicamente era impossível ver alguma coisa – e a notícia saiu à mesma). Estou farto de ver jornalistas a dizerem o que outros dizem e a escrever ‘consta’, ou a dar opiniões através de ‘fontes próximas’. Cansei-me desta gente que na RTP e noutros jornais confunde censura (que tem origem em interesses fora da redação) com mecanismos de controlo de qualidade de um órgão de comunicação social!

Mas, por outro lado, estou farto de alguns jornalistas, mesmo os mais sérios, terem habitualmente um enviesamento terrível para a esquerda. Cansei-me das CNN e dos “The Guardian”, que se armam em arautos da qualidade e rigor e fazem o mesmo que os populistas em nome de os combater. Estou farto dos farisaísmos e das superioridades morais, dos dedos acusatórios.

Sei que Flor não é prima de Costa, mas não vale a pena dizê-lo, porque é como se fosse. Mas já alguém falou da mãe de Sandra Felgueiras? É-me indiferente. Sei, no entanto, que há também quem – caso o ‘primo’, em vez de ser Costa fosse Passos – rasgaria as vestes. Não dou para estes peditórios. Tento não ter preconceitos e analisar o que sei e vejo. Os nossos estados de alma não vêm ao caso.

Sim, o jornalismo está nas ruas da amargura. E quando tantos falam da sua importância para a democracia, seria bom que fôssemos sérios. Todos nós! Da RTP à SIC e do Expresso ao Correio da Manhã, passando pela TVI, Público e demais órgãos. Não há controlo de qualidade, não há defesa da honorabilidade, não há regras. O processo ‘Casa Pia’ foi um despautério; vários outros se seguiram pelo mesmo modelo. Desde o tempo de Cavaco Silva primeiro-ministro que as análises políticas se fazem pelo que parece, pelo efeito que têm, e não pela substância, pelo conteúdo que encerram.

Na RTP quiseram pôr a andar uma direção que, provavelmente, não se estava nas tintas para o conteúdo e para as regras (e conheço bem Cândida Pinto, uma das principais visadas, que foi diretora adjunta deste jornal quando eu fui diretor). A regra “se tu não me chateares, eu não te chateio”, tão comum nas redações, é uma cobardia ou um seguro de vida das chefias que esta chefia não comprou.

A jornalista Sandra Felgueiras, como tantos outros e outras, parece viver bem assim. Quer o seu espaço – o espaço dela! Não se contentará em fazer parte de uma equipa; quer a sua equipa. Como ela há e houve muitos. Por vezes são populares… mas é sempre Sol de pouca dura. Atrás vêm outros que lhes roubam o protagonismo. Sempre mais rasteiro e básico; sempre menos jornalismo.

Henrique Monteiro

In “Chamem-me o que quiserem / Expresso, de 18Dez19

 

01jan20

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