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“BRASÍLIA” PREPARA REJUVENESCIMENTO AOS 43 ANOS, PASSANDO DE “SHOPPING CENTER” A UM ESPAÇO MAIS “ECLÉTICO” E DESTINADO A ATRAIR JUVENTUDE!

A nove de outubro de 1976, a cidade do Porto era confrontada com uma nova realidade. E tal era a novidade que fizeram-se, nesse dia, autênticas romarias, para saber o que era, na verdade, um “shopping center”, e, mais concretamente – porque o passa-palavra assim o destacava-, “essa coisa” das escadas rolantes.

A Praça Mouzinho de Albuquerque, tripeiramente conhecida como Rotunda da Boavista, era, então, invadida por milhares de pessoas, oriundas dos mais diversos pontos da cidade, dos arredores e até da vizinha Galiza (não a praça, mas a região).

Estava inaugurado o Shopping Center Brasília, uma verdadeira “pedrada no charco” no comércio do Porto! Era a novidade “shopping”, nunca antes vivida, mas conhecida através da televisão e do cinema, numa estranha e acentuada distância entre a ficção e a realidade que caraterizava o aparecimento do centro comercial.

 

José Gonçalves              Mariana Malheiro

(texto)                                      (fotos)

Abriam-se, assim, as portas do primeiro “shopping” do Porto – com entrada pela Praça de Mouzinho de Albuquerque, mas também com acessos pelas ruas da Boavista e de Júlio Dinis. Shopping esse que diz-se ser também o mais velho do País e até da Península Ibérica, ainda que, este último “estatuto” não esteja lá muito bem comprovado.

A pouco mais de um ano da Revolução do 25 de Abril e da abertura de Portugal à democracia, deu-se a primeira correria ao consumo num centro comercial, se bem que, de início, ela não fosse tanto com o objetivo consumista, na pura aceção da palavra, mas, essencialmente, para satisfação da curiosidade, até porque a maioria das pessoas nem sabia ao certo como adquirir produtos num “centro comercial”, nem quais os produtos que as lojas expunham.

Parece impossível, mas é verdade!

E tanto assim é, que a mesma reação aconteceu com os recém-chegados supermercados, que vieram quebrar a rotina da compra de produtos nas tradicionais mercearias de rua ou de bairro, e no central e muito procurado Mercado do Bolhão.

Volvidos 43 anos, o “Brasília” está aí a preparar a sua modernização, depois de passar por momentos difíceis – como outros centros comerciais inaugurados um pouco mais tarde, mas considerados da mesma geração, como o “Stop”, na zona oriental da cidade –, e de muito trabalho para ainda hoje ser um ícone vivo da cidade do Porto.

Está iniciada a primeira fase da nova vida do “Brasília”, um espaço que deixará de ser “shopping center”, para se transformar num local aberto a diferentes e diversas propostas, apostado em cativar as novas gerações e dar resposta aos desafios que o futuro traz a cada momento.

LUÍS PINHO: “O BRASÍLIA JAMAIS SERÁ COMO ERA DANTES

Luís Pinho (foto: JG)

Luís Pinho, administrador e responsável máximo pela empresa que gere, há uma década, o espaço com 270 frações comerciais em quatro dos oito pisos do edifício, o qual integra também diversos serviços, é a figura central deste processo revolucionário de modernização, que envolve proprietários de lojas e comerciantes.

E foi, há dez anos, que o atual administrador se deparou, no Brasília, com “um condomínio quase falido; escadas rolantes que não funcionavam e com um edifício a meter água por todos os lados”.

E foi aí, como referiu o nosso interlocutor, que “metemos mãos à obra e começamos a recuperar todo o espaço, que em termos operacionais e financeiros estava num caos. Após muito trabalho, eis que, no ano passado (2018), verificamos que já tínhamos algum pé-de-meia, conseguindo, desde logo, baixar os valores dos condomínios e das quotas”.

O (oportuno) “pé-de-meia”

De momento, estão ocupadas 70 por cento das frações comerciais, número que nada tem a ver “com a percentagem que nem chegava a cinquenta por cento quando para aqui viemos”. Facto que, e ainda de acordo com Luís Pinho, se deve, em muito, e neste último ano e meio “à conjuntura económica e à movida que o Porto tem tido. Essas são realidades que nos têm ajudado!”

E foi com esse crescimento e com o aparecimento do referido “pé-de-meia” que surgiu a ideia das obras para a modernização do Brasília.

Porém, “havia, como há, regras a respeitar. Isto como é constituído por frações autónomas, portanto não é como qualquer centro comercial moderno – ou seja, são duas propriedades horizontais, cada loja tem um proprietário”.

“Ora, com cerca de 200 proprietários, sabíamos de antemão que não podíamos alterar o layout do shopping, que é como quem diz, nem mudar lojas daqui para ali; nem uni-las. Onde é que a administração poderia, então, intervir? Nas áreas comuns.

Assim sendo, surgiu a ideia de fazer uma espécie de renovação ou remodelação dessas áreas, que é o que está previsto, e é o que tem sido divulgado”.

“O concurso está lançado. Está a funcionar. O prazo termina em finais janeiro…”

Depois da renovação ser aceite, Luís Pinho e restantes responsáveis perguntaram-se, sobre que tipo de renovação iria ser feita? A resposta não demorou a aparecer e a ser consensual:

“Determinados como alguns pontos de renovação, c os tetos falsos, os halls dos elevadores, etc. e sobre quem ia fazer o projeto, foi colocada outra questão”.

Então, “tínhamos duas hipóteses”, explica Luís Pinho, “ou contratávamos um gabinete de arquitetura; ou tentávamos fazer isto de uma forma mais sui generis. Resolvemos, assim, lançar um concurso para os alunos da Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto e para os alunos da Escola Superior de Artes e Design. O concurso está lançado. Está a funcionar. O prazo termina em finais janeiro. Até lá, os grupos de alunos vão nos propor a fazer um anteprojeto das remodelações, sendo que todos esses trabalhos vão ser avaliados por um júri. A partir daí, será feito um projeto de execução e será feito um concurso de empreitada. As obras devem iniciar-se algures no ano de 2020”.

De salientar que o referido projeto de requalificação dos espaços comuns da galeria comercial está orçado em cerca de 500 mil euros.

“Temos de encontrar uma nova vida para o Brasília sem estar sempre a falar do passado”

Com estes passos firmes rumo ao futuro, Luís Pinheiro não parece ser muito apologista do reviver constantes do Brasília.“ Este shopping tem, na verdade, uma história, mas voltar atrás e estar sempre a relembrar a história? Acho que temos de pensar que o Porto e a sociedade evoluíram muito, por isso temos que encontrar uma nova vida para o Brasília sem estar a falar do passado, embora o tenhamos que considerar e valorizar…”

E daí o novo logotipo, ou seja a imagem que rompe quase por completo com o antigo símbolo do Brasília.

“O novo logotipo é já uma ideia de regeneração. De uma nova etapa. Se os comerciantes foram recetivos à ideia? Palavra que não. Perguntamos, isso sim, aos proprietários, pois é com eles que temos as nossas relações formais. Mas os comerciantes adeririam certamente, até porque eles sabem que qualquer coisa que dinamize e que traga para cá pessoas é sempre positivo”.

“O El Corte Inglés na Boavista não será concorrência, será um complemento à nossa atividade. É bom que venha para cá!”

Espaço onde vai surgir o El Corte Inglés na Boavista (foto: JG)

E a modernização do Brasília acontece quando, ao lado, em terenos ainda baldios do antigo terminal ferroviário da Boavista (frente ao Brasília, ainda que o outro lado da Rotunda), o El Corte Inglés anuncia, como anunciou há anos, depois deixou de anunciar, e agora volta ao mesmo, mas já com um projeto a ter em conta, construir no local, não só um centro comercial, mas também de serviços, negócios e moradias.

Luís Pinho, ao contrário do que muitos poderiam, à priori, pensar, mostra-se muito satisfeito com a vinda do El Corte Inglés para o local.

““Para nós é ótimo que venha o El Corte Inglés! O Bom Sucesso também vai ter obras, dizem até que vai para lá o Continente, o “Península” está para reativar-se, falando-se que a FNAC irá para lá, não sei, neste caso, se é verdade ou se é mentira.

O importante é que esta zona da cidade vai renovar-se muito, porque é uma zona de serviços e está haver uma grande procura de escritórios no Porto. Aliás, o bloco enorme de escritórios na Rua de Cinco de Outubro, da família Violas, prova-o.

Para nós, tudo o que venha para cá é bom, já que traz mais gente e será mais fácil vir alguém à Boavista, porque pode ir ao Corte Inglés, depois ir almoçar ao Bom Sucesso e fazer aqui compras no Brasília.

Por isso, não consideramos o Corte Inglés como concorrência, mas sim como um complemento à nossa atividade. Para nós isso é muito bom”.

O Charlot

Cinema Charlot (Foto: SapoMag)

Regressando ao Brasília propriamente dito, de salientar também o facto e também logo n sua inauguração, da existência de uma sala de cinema, o “Charlot”, que se encontra em inatividade há alguns anos.

Pergunta-se que futuro será dado ao espaço? Luís Pinho… responde.

“O cinema não é responsabilidade do condomínio, é uma fração autónoma, tem um dono, pelo que o futuro passa pelo que esse domo quererá fazer com o cinema? O cinema tinha um proprietário privado, depois foi parar às mãos de um banco, e neste momento está num fundo imobiliário. Por isso, a única maneira de pôr o cinema a funcionar – quer seja para cinema ou para outra atividade – será um privado interessar-se pelo imóvel e fazer lá qualquer coisa.

É verdade que na área não há cinemas, mas também não sei se é viável haver aqui um cinema. A única coisa que o condomínio pode fazer é tentar dinamizar o edifício e criar condições para que haja apetência para instalar ali um negócio qualquer”.

A aposta na juventude e os preços especiais de arrendamento para início de atividade

“Dinamizar o edifício” é um objetivo que passará por atrair mais juventude ao espaço…

“Essa foi a ideia quando nós optamos fazer os projetos através de estudantes. Por quê?”, explica Luís Pinho, “porque a atual geração de estudantes não conhecem este edifício, e o que eu quis fazer foi trazer cá esse tipo de pessoas. Porque se se é de uma primeira geração – pessoas da sua ou da minha idade – a reação é a de um «ah, sei, o Brasília já lá não vou há não sei quantos anos»… quer dizer, eles conhecem o Brasília, mas não vêm cá. A geração nova nunca cá veio, não sabe sequer a dimensão do edifício e ficará sempre curiosa em conhecê-lo, vindo, naturalmente, cá.”

O administrador do Brasília quer, no fundo “que a juventude regresse ao edifício, até porque temos algumas valências que podem ser utilizadas pela juventude, desde já a facilidade de arrendamento para início de negócio. Temos preços convidativos de arrendamento.”

Arrendamento de lojas que têm um paradigma…

O paradigma deste centro comercial, logo que foi construído, as lojas não deveriam grandes ou tão grandes como, são agora, em outros locais. Por isso temos lojas de vinte, trinta metros quadrados, quando uma loja moderna terá, no mínimo 100 metros quadrados. A verdade é que temos de manter esta estrutura, pois, para a alterarmos, só com um acordo de todos”.

As relações (institucionais) com a Câmara Municipal do Porto

E para que todo este dinamismo seja cada vez maior, é de capital importância o bom relacionamento entre os responsáveis pelos destinos do “Brasília” e a autarquia, leia-se Câmara Municipal do Porto… e esse relacionamento é, de acordo com Luís Pinho, bastante positivo

“É muito bom! A Câmara apoiou-nos sempre. A nossa ideia também não foi a de ir chatear a Câmara sempre que tivemos um problema, antes pelo contrário, contactamos a Câmara quando já tínhamos a solução e para eles nos ajudarem a implementar essa mesma solução. Acho que deve ser assim. O problema dos privados portugueses é que vão primeiro às instituições apresentar os problemas e esquecem-se das soluções, para pedir apoios para as mesmas.

No nosso caso, tivemos toda a abertura de vereadores e do presidente da Câmara. A edilidade está ao nosso lado, facto que é compreensível, uma vez que ela também tem interesse, já que este é um edifício icónico do Porto, e merece ser apoiado. Até porque, no meu entender, esta zona da Boavista vai ser um segundo polo da cidade. O primeiro polo vai ser a Baixa, e este polo da Boavista, que sempre foi um polo de serviços e comércio, será o segundo. Acho que tem de se desenvolver isso.

Novidades já este mês

E o futuro está aí à porta.

Luís Pinho reconhece esse desafio a avisa, desde já que “o Brasília jamais será como era dantes, por isso mesmo, do logotipo tiramos as palavras shopping center. O Brasília será mais uma mistura de serviços com comércio e não cem por cento comércio. Novidades? Vamos ter em janeiro.”

Janeiro que já é este mês. Estamos à espera, e curiosos em saber que surpresa (agradável, por certo) nos reserva este novo “Brasília”.

01jan20

 

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