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Manuel Fernandes Tomás

Esta figura cimeira do liberalismo português vintista, Manuel Fernandes Tomás nasceu na Figueira da Foz, em 1771, no seio de uma família de origem burguesa.

Seus pais entenderam mandá-lo para Coimbra, ainda muito jovem, a fim de seguir a carreira eclesiástica mas, não tendo vocação para o sacerdócio, acabaria por se matricular na Universidade, onde completou o grau de bacharel em Cânones, com apenas vinte anos. Ocupou diversos cargos, como em 1792, quando foi nomeado síndico e procurador fiscal do município da Figueira da Foz e vereador da respectiva Câmara, entre 1795 e 1798.

Fernandes Tomás seguiu a carreira da magistratura, a partir de 1801, ocupando o primeiro cargo como Juiz de Fora de Arganil. Em 1805 era já Superintendente das Alfândegas e dos Tabacos das comarcas de Aveiro. Coimbra e Leiria.

Durante a Guerra Peninsular (invasões francesas) prestou serviços relevantes ao exército luso-britânico, tendo sido indigitado como pessoa com conhecimentos, na área administrativa, capaz de resolver problemas e estabelecer contactos com o comandante inglês, sobre assuntos referentes aos interesses e necessidades do exército, nomeadamente no serviço de abastecimentos.

Chegou mesmo a ser adjunto ao Comissariado do Exército e, depois, nomeado intendente dos víveres, no quartel-general de Beresford, em 1810. Como recompensa por estes serviços meritórios e pelas recomendações dos generais, foi-lhe atribuída a categoria de desembargador honorário do Porto, em 1811, cargo que ocupou somente em 1817.

Entre 1812 até ao findar da guerra (1814), Fernandes Tomás esteve em Coimbra, onde foi congeminando um plano capaz de alterar a situação político-social, que se vivia em Portugal, com o rei ausente no Brasil e o povo abandonado à sua sorte, num país devastado, após as três invasões francesas e continuando sob a tutela britânica.

Em 1817, Fernandes Tomás transferiu-se para o Porto e, em Janeiro de 1818 estabeleceu um pacto secreto com José Ferreira Borges, a fim de implementar o liberalismo em Portugal. A eles se juntaram José da Silva Carvalho e João Ferreira Viana, com as mesmas ideias, para fundarem uma associação secreta a que deram o nome de Sinédrio. Reuniam-se todos os meses, a cada dia 22, numa casa na Foz do Douro, com o objectivo de darem conta do que se ia passando e de ponderarem a sua actuação sobre as diferentes ocorrências.

O número dos associados no Sinédrio nunca passou de treze e, foram estes homens que, em reuniões secretas e orientados por Fernandes Tomás, que burilaram os contornos do grande projecto que levaria à Revolução do Porto, em 24 de Agosto de 1820, a qual havia de culminar na vitória do liberalismo, em Portugal.

Manuel Fernandes Tomás foi, na realidade, o ideólogo deste movimento e teve um papel destacado na Junta Provisional do Governo Supremo do Reino. Esta Junta foi criada no Porto e administrou o Reino, após a revolução liberal, até à adesão de Lisboa. Com a fusão das duas Juntas, Manuel Fernandes Tomás saiu reforçado fazendo, depois, a ligação entre o governo e as Cortes. Foi eleito deputado às Cortes Constituintes, pela Beira e desempenhou o importante papel de elaboração das bases da Constituição que D. João VI viria a jurar, em 1821, quando regressou a Portugal.

Este homem foi grande pensador, grande político e grande patriota, participou nos trabalhos parlamentares até ao seu encerramento, com a aprovação da Constituição Política da Monarquia Portuguesa, a 4 de Novembro de 1822. Pouco tempo viveu, após a aprovação da Constituição de 1822, pois faleceu em 19 de Novembro do mesmo ano.

Os seus restos mortais foram sepultados, primeiro na antiga igreja de Santa Catarina, trasladados depois para a dos Paulistas e desta transferidos para jazigo de família, no cemitério dos Prazeres, em Lisboa.

No “Jornal do Comércio”, de Fevereiro de 1883, ficaram registados alguns documentos acerca do óbito e trasladações do eminente cidadão.

A Oração Fúnebre de Manuel Fernandes Tomás foi elaborada pelo escritor Almeida Garrett que o elegeu como “o patriarca da regeneração portuguesa.”

Deixamos aqui alguns excertos desse documento, que exprimem bem a envergadura do grande homem que foi Manuel Fernandes Tomás.

«[…] E quem choramos nós: quem lamentam os Portugueses? Um cidadão extremado; um homem único; um benemérito da pátria; um libertador de um povo escravo: Manuel Fernandes Thomaz. Que nome, Senhores, que nome nos fastos da liberdade! Que pregão às idades futuras! Que brado às gerações que hão-de vir! Este nome será só por si a história de muitos séculos; este nome encerra em compêndio milhões de males arredados de um grande povo […]»

«[…] Manuel Fernandes Tomás morreu: derramemos lágrimas de gratidão e de saudade: este é o verdadeiro elogio fúnebre dos grandes homens; estas lágrimas são as honras do seu funeral, são as pompas do seu enterramento: elas terão lugar na história, elas serão o epitáfio eloquente que mostrará aos vindouros o jazigo das suas cinzas gloriosas: molhai com essas lágrimas a pena da verdade, e escrevei-lhe sobre a lápide sepulcral – “Aqui jaz o libertador dos Portugueses: salvou a Pátria, e morreu pobre”.»

Almeida Garrett, in “Oração fúnebre de Manuel Fernandes Tomás”, lida a 27 de Novembro de 1822, em sessão extraordinária da Sociedade Literária Patriótica.

OBS: Por vontade da autora e, de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc eTal jornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.

 

Texto: Maximina Girão Ribeiro

Fotos: pesquisa Google

01jan20

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