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O líder dos animais

Fernanda Ferreira

A floresta estava num verdadeiro reboliço! Estavam a preparar a eleição do rei dos animais, com exceção dos animais marinhos, porque têm uma realidade diferente.

Todos sabiam que o rei dos animais era o leão, porque isso foi dado como adquirido sem que nunca tivesse havido eleição.

Todos eram candidatos e a eleição iria ser pelas qualidades e habilitações de cada um. Começaram a nomear os pontos fortes e fracos de cada animal.

Dizia um:

– O leão tem fama de animal feroz pela sua pose imponente, mas, no fundo, quem domina os grupos são as leoas, que caçam, tomam conta das crias. O leão é um preguiçoso. O elefante é animal forte e trabalhador, mas tê-lo como  líder é impensável, porque anda sempre de trombas com todos.

Retorquiu um outro:

Tens razão, mas a hiena também não serve. É uma hipócrita que se anda sempre a rir, quer goste ou não das situações e foge ao menor indício de perigo. Como poderia ser nossa líder?

Disse a águia:

-Eu não quero ser líder. Quero ser livre e voar sem ter de me preocupar com todos. Talvez a girafa seja boa.

-Nem pensar! A girafa fala e olha todos sempre lá do alto e um líder não pode ter altivez. Definitivamente, não serve.

-Então as gazelas são imaturas para o cargo porque passam a vida a correr e saltar. Os búfalos, os touros e os gnus também não servem porque são perigosos Usam os cascos para se defender e atacam à cabeçada com os seus chifres afiados. As avestruzes andam demasiado ornadas de plumas e, quando tem coisas que as perturbam, enfiam a cabeça num buraco, os marsupiais usam as bolsas para esconderem coisas que não lhes pertencem. Os cavalos e os burros também resolvem tudo aos coices. Pelos vistos, nenhum é adequado!

-Também  temos os lobos, mas além de andarem sempre em grupo, fazem demasiado barulho ao uivar e ninguém conseguiria ser ouvido nas suas sugestões e reclamações. Isso não é próprio dum chefe.

-As raposas também não, porque são muito matreiras, os cães porque são animais domésticos e demasiado dóceis, os gatos demasiado independentes e os ratos roem e estragam tudo. As ovelhas, coelhos, galináceos canários, papagaios e periquitos também não. Seria insensato escolher algum deles, porque ficaríamos sem líder em dois tempos. São presas fáceis.

-Hiu, hiu, hiu! -responderam rindo várias aves de rapina – Fáceis  para nós a para os abutres.

Disse a cobra:

-Eu gostava de ser líder!

-Tu? Disseram todos em coro! Nunca! Sua falsa e venenosa que se enrosca e nos aperta sem nos deixar sequer respirar!

-E nós? Também somos répteis mas não somos como as cobras!

-Vocês são frágeis e de inteligência têm pouco. Só são bons a comer insetos. E os insetos nem pensar, que não nos deixam estar sossegados. Só nos incomodam!

-Podia seu um de nós, disse o macaco enquanto fazia piruetas, macaquices e atirava uma casca de banana ao castor.

-Seu malcriado! Chega aqui à beira que eu digo-te para o que servem os meus dentes!

-Olha que tu também não és de confiança. Róis tudo o que é árvore e por vezes os teus diques inundam os terrenos vizinhos.

-Cala-te aí ó seu urso! disse o castor para o urso pardo.

-Ainda por cima não tens educação nenhuma. Não quero um líder que não respeite os outros!

Mas eu também não quero ser escolhido.

Diz a coruja:

– Ora pensando bem, os tigres, leopardos e panteras são felinos com as competências dos leões, mas com menos imponência e são demasiado sorrateiros. Os crocodilos são uns falsos. Quando temos necessidade de ir beber água ao rio ou lago, nadam silenciosamente e atacam-nos. Não podemos confiar neles. Os hipopótamos são muito pesados e lentos, os rinocerontes  são perigosos e os javalis além de comerem muito, destroem mais do que comem, o que é uma atitude egoísta e insensata. Não estou a ver quem devemos escolher!

Responderam todos em uníssono:

-Tu! Tu é que serias uma boa líder!

-Eu? Vocês  não devem estar bem! Eu?

Sou relativamente pequena e, embora seja uma ave de rapina e tenham inventado várias lendas sobre mim que não abonam a meu favor, não sou uma ave assustadora.

-Mais uma razão para te escolhermos. És uma ave muito sábia, tão sábia que te escolheram para representas a Filosofia.

Quem melhor do que tu para o cargo?

Tens uma visão ampla do que se passa, és inteligente, sábia, sensata, és uma boa ouvinte, sensata e respeitas a opinião de todos nós. Que poderíamos desejar mais?

Há quem não concorde comigo? Perguntou a leoa?

… Silêncio total, até que uma voz sibilante se levantou. Era a cobra.

-Eu não concordo. Quero também candidatar-me porque sou um animal poderoso e temido.

-Um líder não deve ser temido, mas respeitado e saber respeitar os súbitos. Lidera-se pela razão, justiça e respeito mútuo, não pela força e medo. No entanto, como estamos em ambiente democrático, vamos pôr a tua candidatura a votação.

A leoa, após um rugido para fazer calar a agitação da assembleia, disse:

A votação é de pata no ar. Quem não tiver patas, ergue-se o mais alto que possa e acena que sim com a cabeça.

Escusado será dizer que ganhou a coruja e que a única discordante foi a cobra que, por mau perder, saiu do local e se escondeu num buraco que havia nas proximidades,  não por ficar com vergonha, mas por não querer falar com ninguém, e ter de assumir a derrota.

A decisão que tiveram mostrou-se a mais acertada. A coruja é líder por natureza: orienta, sugere, ordena sem pressionar nem humilhar, analisa as críticas e tira delas aprendizagem, pede desculpa quando erra, é verdadeira e justa. Ela é uma verdadeira líder.

 

Foto: pesquisa Google

01jan20

 

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