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“QUINTA DE SALGUEIROS” (DES)ESPERA POR URGENTE INTERVENÇÃO DE REQUALIFICAÇÃO… APÓS DÉCADAS DE ABANDONO!

Há um SOS no Facebook que pede a sua reabilitação. Há, pelo menos, uma familiar dos antigos proprietários que tentou junto da Câmara Municipal do Porto a “salvaguarda, classificação e reabilitação” do espaço, mas tudo, até agora, sem efeitos práticos…

Estamos a falar da Quinta de Salgueiros, na Rua do Vigorosa, junto aos desprezados terrenos do antigo Estádio das Antas, paredes-meias com a Via de Cintura Interna (VCI) e a poucos passos da Escola do 1.º CEB/Jardim de Infância das Antas e agora também de um novo edifício, ainda em fase de construção.

Quinta que se encontra ao abandono há décadas, e com ela um edificado digno de registo mas já muito degradado, datado do século XVIII, sendo de salientar a sua “casa senhorial”, e contígua capela, que foi, nos últimos tempos, pertença da família Mesquita Ramalho Alves de Sousa, e, que, hoje, é propriedade da autarquia, leia-se Câmara Municipal do Porto.

José Gonçalves            Mariana Malheiro

(texto)                                    (fotos)

Além do alerta nas redes sociais – designadamente, no Facebook, na página “SOS Quinta de Salgueiros – Antas” –, têm sido várias as tentativas de chamar à atenção para a proteção e requalificação do espaço, como por exemplo a de Ana Alves de Sousa, familiar dos antigos proprietários da Quinta – uma delas em julho de 2018 -, que com uma petição (perto de duas mil assinaturas) realçou a “excecionalidade” e “exemplo” desta quinta, como das que existiam nos “arrabaldes da cidade do Porto”.

Nessa altura, a peticionária teve a promessa, por parte do vice-presidente da Câmara Municipal do Porto (CMP), Filipe Araújo, que “uma vasta equipa multidisciplinar estava já a elaborar um projeto para esse fim”.

O autarca referiu ainda, nessa reunião com Ana Alves de Sousa (12 de julho de 2018), que estava “ciente do valor patrimonial” lá existente, e que a mesma iria ser “limpa em breve”, prometendo a recuperação dos caminhos lá existentes, nada falando, todavia, quanto ao futuro a dar à casa e à capela.

TRABALHO “MULTI-INDISCIPLINAR”

Seja como for, os resultados do trabalho da referida equipa multidisciplinar é, hoje – e à vista desarmada – de uma verdadeira “multi-indisciplina” atendendo ao abandono em que a Quinta se encontra, e que as imagens aqui publicadas documentam.

E é tal o abandono, que o espaço é já frequentado por toxicodependentes, paredes-meias com a Escola do 1.º CEB/Jardim de Infância das Antas, isto além de ser um local que, pelos vistos, é também destinado a práticas sexuais.

Na verdade, os portuenses que se encontram preocupados com o futuro a dar à Quinta de Salgueiros, defendem única e simplesmente, “a restauração e requalificação da casa, capela, fontes, tanques e (daqueles que foram) lindíssimos jardins”, e que o “espaço seja “fruído por todos, e em especial pelos habitantes da zona das Antas”.

PELOS TRILHOS DE UMA QUINTA DESPREZADA E MAL FREQUENTADA

E fomos, então, até à Quinta.

Pela porta principal foi difícil entrar, dado se encontrar uma árvore de grande porte caída, mas por uma outra porta, quase que lateral foi fácil entrar no espaço.

Guiaram-nos caminhos bem marcados (portanto, frequentados), entre densa vegetação, muito musgo e vestígios de presença humana, designadamente material utilizado por toxicodependentes, e outros destinado a práticas sexuais.

Após termos ultrapassado alguns obstáculos naturais e não só, chegamos, então, a terreno firme, mais bem cuidado que o troço florestal que tivemos que percorrer (poucos metros, diga-se de passagem), e depararmos com a “casa senhorial” da Quinta de Salgueiros, e capela contígua, que deve servir, hoje em dia, de abrigo para alguém.

A capela

O espaço é interessante e reaproveitado, que é como quem diz “requalificado”, daria num aprazível local para passeio, ainda que a paisagem envolvente nada tenha de atrativo: de um lado a VCI, do outro prédios e o desprezado terreno do histórico Estádio das Antas, que também não se sabe lá muito bem por que razão se encontra assim desde que foi demolido, em março de 2004, para ser substituído, mais à frente pelo Estádio do Dragão.

Mas, de regresso à Quinta de Salgueiros, o espaço tratado poderia ser utilizado a múltiplas atividades culturais e recreativas para crianças, jovens e mesmo para os idosos, sendo um sítio refrescante e cativante nos períodos mais quentes do ano. Curioso é o facto de a VCI estar ali ao lado, mas a poluição sonora não chegar a este local.

Parte da Casa

“Isto continuar assim, é que não! Dizem-no os promotores da petição e da página no Faceook, mas também a Junta de Freguesia de Campanhã.

Ficam, para registo, imagens de laxismo, desinteresse e descomprometimento por parte de quem é responsável pelo local. Refira-se, que a Quinta não é grande em termos de espaço, se a relacionarmos com outras quintas da cidade, entretanto recuperadas, e que uma intervenção no local, à priori, não traria encargos avultados à autarquia. Mas, isto é pura constatação de repórter…

ERNESTO SANTOS: “SE A CÂMARA DO PORTO NÃO ESTIVER INTERESSADA EM REQUALIFICAR A QUINTA QUE DÊ A HIPÓTESE A OUTROS PARA A FAZER

Foto: Miguel Nogueira (Porto.)

E se falamos em “zona das Antas”, falamos, obviamente, em “freguesia de Campanhã”, autarquia, aliás, onde se encontra a Quinta de Salgueiros. O presidente da Junta, Ernesto Santos, questionado sobre o abandono e consequente degradação a que a mesma tem estado sujeita, referiu ao “Etc e Tal jornal” que “devido à sua história e importância, que se pode ler na monografia da Quinta, a Câmara Municipal se estiver interessada faça qualquer coisa em prol da sua recuperação; ou, se não estiver, que dê a possibilidade a alguém que encontre alguma solução. Este é um processo que se encontra no pelouro do Ambiente da Câmara Municipal e que depois de alguma movimentação, na altura da arquiteta Teresa Andersen, nunca mais voltou a ser discutido, e era bem que o fosse, pois de dia para dia a Quinta de Salgueiros degrada-se e é local mal frequentado, logo junto a uma escola e, agora, também a um enorme prédio que lá está a ser construído para habitação”.

HISTÓRIA SECULAR

Para ter uma ideia da importância desta quinta e da casa em si, recorremos a partes marcantes da descrição histórica feita no blogue “Portais-Brasões-Aldrabas-Tranquetas”, no qual se releva diversos factos desconhecidos do grande público.

A quinta de Salgueiros já existia, segundo documentos “no século XIX e encontrava-se na posse de antepassados da família Ramalho e era pertença de Augusto Geraldes de Mesquita, filho de Augusto Carvalho Marques de Mesquita, doutorado em Direito e ilustre figura da cidade.

Nos anos 40 do século passado, a quinta era limitada pelas ruas do Vigorosa e pela fábrica das Antas, pela Rua Naulila e Montes da Costa, pelas propriedades da família Ferreira dos Santos e ocupava parte da área episcopal da, então, nova Igreja das Antas”.

Até meados da referida década “foi morada de família, tendo depois sido alugada na década de 50, e durante alguns anos, a uma senhora inglesa, por isso, ser também conhecida por Quinta dos Ingleses, sendo também residência de Jacinto de Matos, um dos maiores jardineiros-paisagistas portugueses da primeira metade do século XX”.

Antes, porém, ou seja, até aos anos 30, “a Quinta manteve-se intacta, tenso sido cedida, em 1932, à Câmara Municipal do Porto uma vasta fatia de terreno para abertura da Avenida de Fernão de Magalhães, e, pouco tempo depois, doado outra parcela de terreno para se erigir a Igreja das Antas e espaço para o futuro Centro Social, de gaveto com a Rua do Vigorosa.

Em 1948, a família vendeu cerca de 48 mil metros quadrados ao Futebol Clube do Porto para a construção das suas infraestruturas desportivas, reduzindo parcialmente a vasta área territorial da quinta.

A casa voltou a ser habitada no ano de 1956 até finais dos anos 70, e ainda com caseiros. Neste período realizaram-se inúmeros eventos, tais como casamentos, festas arraiais de beneficência e visitas de figuras relevantes da época”.

“A partir deste período (meados do anos 70), a casa permanece fechada e a espaços é utilizada pela família para atividades de diversão da juventude e amigos e, ao mesmo tempo, servindo de área para ocupação de pequena recolha e reparação de mobiliário e antiquário.

No final de 1991 deflagrou um incêndio que destruiu parcialmente a casa e a capela, que já se encontrava destelhada, consumindo todo o madeiramento e recheio que aí se encontrava, finalizando toda a atividade existente que já era pontual.

Com este incêndio torna-se visível toda a uma construção em granito, com elementos arquitetónicos dos finais de setecentos, onde junta uma fonte barroca de excecional conceção e extremamente harmoniosa.

Ficam também patentes os marcantes muros que limitam a casa, os seus bancos de pedra, fontes, tanques e todo um percurso de escadarias e de pequenos azulejos decorativos espalhados, aplicados nos muros em redor da casa, hoje tudo coberto pelo lixo e vegetação”.

“No ano de 1999 deram-se início a negociações de compra da quinta, entre a família, o FC Porto e a Somague, tendo sido adquirido no ano de 2000, com o objetivo de concretização do Plano de Pormenor das Antas. De modo a acelerar este estudo, e tendo como objetivo o Euro 2004, a autarquia portuense entrou em negociações com permutas de terrenos, vindo a adquirir por valores polémicos que resultaram em investigações que culminaram em segredo de Justiça.

A partir dessa data nada mais foi feito naquele local…”

… até aos dias de hoje!

 

Fotos Quinta de Salgueiros antiga: pesquisa Google

01jan20

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1 Comment

  1. Fernando Milheiro

    Parabéns. Dar a conhecer Campanhã a quem em Campanhã está mas não vê tudo…
    As imagens e o texto não são palavreado, são factos de agora e que mostram como há coisas valiosas que vão caindo até à destruição total. Não acredito que seja isso que se pretende numa cidade que deixa morrer as marcas do passado e que dariam graça a uma zona que corre o perigo de vir a mostrar só novas edificações.
    Esta quinta seria um parque de excelência numa zona que se moderniza…alternativa para as multidões que se acotovelam nas grandes superfícies que estão perto ou que bem precisariam de ar puro antes ou depois de jogos no Dragão. A Quinta de Salgueiros não pode morrer.

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