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Rituais do solstício de Inverno

Lurdes Pereira

(texto e fotos)

Já em 1939, o Pe. Firmino António Martins expressava: “Que bom era que se não perdesse toda esta riqueza arcaica e que a sociedade de hoje substituísse as estrangeirices tanto em voga pelo regresso à formosa tradição portuguesa, tão cheia de transcendência étnica e espiritual.”

Porque a vida é um teatro e o mundo o seu grande palco, a máscara vive associada à existência do homem. Apesar de globalmente a máscara ser sinónimo de carnaval, os rituais com máscaras, em especial em Trás-os-Montes e Miranda do Douro, estão ligadas ao solstício de Inverno entre o dia 13 de Dezembro, festa em honra de Santa Luzia e o dia dos Reis, a 6 de Janeiro. Na ancestralidade, estas manifestações estavam ligadas ao culto do Rei do Sol, ao culto da fecundidade e à lei do eterno retorno.

Foi em solo da terra fria, no Museu da terra de Miranda que tive o prazer, acidentalmente, de assistir à inauguração da exposição itinerante da Máscara Ibérica do colecionador, Investigador e Presidente da Assembleia geral da Academia Ibérica da Máscara, Roberto Afonso.

A paixão de colecionar máscaras vem dos seus “tempos de meninice.” O berço desta arte de multiplicar obras tão popularmente genuínas remonta às memórias da casa dos seus avós maternos, em Vinhais. João, seu avô, tal como um ritual, oferecia a luz do dia à velhinha máscara de lata que guardava no sótão.

Quando se apercebeu que as máscaras no concelho não eram exclusivas do carnaval, assim evoluiu o seu interesse pela máscara do concelho até que se viu a enriquecer esta coleção quando começa a adquirir máscaras de outras regiões.

Mas esta exposição não exibe a máscara por si só, “cada composição integra elementos associados aos respetivos rituais” explicadas por longas legendagens de história da autoria de Alex Rodrigues, Alfredo Cameirão, Antero Neto, António Tiza, Isidro Rodrigues e Roberto Afonso. Se a exposição conta com um autor que lhes está a oferecer a luz do dia, a mesma remete ao trabalho de 38 artesãos e suas obras de arte. As obras são expostas em forma de quadro, cada máscara tem um habitat encaixilhado onde, por vezes, a própria obra excede a geografia imposta, tal é a poesia do significante tal o motivo do significado.

A tridimensionalidade exposta e guarnecida por elementos que compõem o ambiente realça a beleza das festas de cada região onde a máscara é o elemento fundamental e que representam 36 festas com mascarados em Portugal, nos distritos de Aveiro, Bragança, Coimbra, Porto e Viseu.

Tendo por base a madeira, o cabedal, o latão, a lã, a obra final tem como objetivo esconder a identidade de quem usa, ou melhor, oferece uma identidade destemida e divertida que vai alterar com a rotina do quotidiano. Rompem as ruas numa teatralidade tão excessiva que faz expurgar todas as energias maléficas que se foram acumulando ao longo do ano. Um novo ciclo se inicia repleto de risos e boas energias. Em terras transmontanas, os mascarados simbolizam a vida que se renova a cada ano, a transição da puberdade para a idade adulta e a entrada num ano fecundo e próspero.

As manifestações de carácter popular têm vindo a afirmar a identidade cultural graças à importância crescente da memória, da cultura e identidade do homem com origem longínqua, mas cada vez mais viva entre os homens. O roteiro das festas de mascarados tradicionais em Portugal é plural e a profecia cumpre-se na medida em que “desde os primórdios, onde houver homem, há máscara”.

01jan20

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