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SÍMBOLOS DE PARTIDOS POLÍTICOS JÁ EXTINTOS QUE PERDURAM EM ESPAÇOS PÚBLICOS NA CIDADE DE OVAR

Com diferentes percursos políticos na esquerda portuguesa, mais de quatro décadas depois ainda é possível encontrar pinturas murais em espaços públicos da cidade de Ovar, de partidos políticos como a União Democrática Popular (UDP) ou o Movimento Democrático Português/Comissão Democrática Eleitoral (MDP/CDE), entretanto extintos, mas cujos símbolos marcam uma época de intervenção politica numa terra de grande concentração de operariado na indústria metalúrgica e ramo automóvel ou no setor elétrico e químico na última metade do século XX. Memórias laborais e sindicais que a evolução da economia, dos mercados e das tecnologias também descaraterizaram e alteraram a realidade social e cultural local.

Entre os sinais identitários que perduram nas paredes e trazem à memória estes dois partidos que desempenharam ativamente papel politico junto de diferentes setores sociais da população e na área da esquerda. Surgiu recentemente como uma obra do património urbano recuperada, a pintura reavivada do símbolo da UDP que beneficiou de uma intervenção artística sob anonimato, respeitando as cores e o desenho original da roda dentada, da enxada em preto e da estrela amarela de cinco pontas sob um fundo vermelho, que ali se preserva no espaço público, quando esta organização politica transformada em Associação Politica (UDP-AP) acabou de assinalar (Dezembro) o seu 45.º aniversário, assim como o 40.º aniversário da eleição de Mário Tomé como deputado pela UDP, que foi presença regular durante mais de uma década num convívio popular organizado em Ovar.

Sobre estas memórias de atividade partidária gravadas nas paredes, que o tempo ainda não apagou, recorrendo a um texto sobre este mesmo tema, que foi publicado pelo autor desta peça em julho de 2018 no “Ovarvirtual.com”, através de pesquisa da obra do historiador Alberto Sousa Lamy, “datas da História de Ovar 922 – 2005”, em que são feitas algumas referencias da luta politica e partidária desenvolvida em Ovar, nomeadamente sobre as diferentes relações e origens politicas e edeológicas destes dois ex-partidos, UDP e MDP/CDE, tendo em conta que a Comissão Democrática Eleitoral (CDE) já se tinha apresentado em alternativa à então Ação Nacional Popular (ANP) do regime derrubado no 25 de Abril, enquanto a UDP como uma corrente comunista que reuniu vários grupos foi fundada em dezembro de 1974, mas só após as primeiras eleições em que elegeu um deputado para a Assembleia Constituinte (25/04/1075), viria a ter influencia em Ovar e na região em que a militância era até então predominantemente na Organização Comunista Marxista-Leninista Portuguesa (OCMLP) e na sua Frente Eleitoral Comunista-Marxista Leninista (FEC-ML).

Passava então apenas um mês do 25 de Abril de 1974 quando surgiu, “a 1.ª manifestação de pinturas de frases e símbolos de propaganda política” levada a cabo pela OCMLP nas paredes dos Paços do Concelho e Tribunal, bem como nos prédios do Largo da Família Soares Pinto e da Rua Gomes Freire. A Câmara era dirigida por uma Comissão Administrativa, integrando na sua composição elementos afetos ao PS e ao MDP/CDE. Pinturas da OCMLP marcaram, de certa forma, um primeiro confronto em democracia, com o novo poder a decidir só em 29/06/1974, “apagar os vestígios do Estado Novo” como as fotografias e placa comemorativa da visita do ex. Presidente da República, Américo Tomás que foram retiradas dos Paços do Concelho.

A 2 de Novembro o MDP/CDE transforma-se em partido, curiosamente no mesmo dia em que o jornal João Semana publica dois artigos referindo-se às incómodas pinturas de parede, «Foice e martelo, símbolo sinistro», e «Para nos vermos livres do comunismo». “Panfleto reacionário” foi como considerou o Relatório de 11 de Março, que valeu ao João Semana a punição pela Comissão ad-hoc para a imprensa, de suspensão por 60 dias.

No entanto em Ovar a Comissão Administrativa procurava travar alguma irreverência nas pinturas em locais públicos, aprovando a 28 de Dezembro um edital, “proibindo a colocação de cartazes de propaganda politica nos edifícios públicos, monumentos e templos”. Época revolucionária em que era fundada a UDP.

Apesar de impostas algumas regras, as paredes tornaram-se meios de propaganda por excelência, sendo durante décadas uma forma acessível e privilegiada de afirmação e propaganda de todas as forças politicas, com mais ou menos arte nas pinturas murais realizadas, destacando-se particularmente na capital com murais que se tornaram autênticos símbolos emblemáticos do património desta arte urbana.

As campanhas eleitorais começaram em 1975, com as eleições para a Assembleia Constituinte e as pinturas, que já faziam parte da liberdade de expressão conquistada, eram ainda mais inevitáveis em períodos de divulgação de mensagens políticas e propaganda dos símbolos partidários. Era preciso dar a conhecer os símbolos às populações, para receber a cruz da decisão popular nos boletins de voto das primeiras eleições.

O MDP/CDE era uma das forças que começou com um peso eleitoral no concelho de 10,1%, elegendo na Assembleia Constituinte 5 deputados, enquanto o Partido Comunista Português (PCP) se afirmava com 4,9%, mas a nível n acional elegeria 30 deputados. A UDP que só surgiria organicamente mais tarde em Ovar, elegeu um deputado à Constituinte por Lisboa, ainda tendo como símbolo uma bandeira vermelha ligada a um martelo e uma foice e respetiva estrela de cinco pontas.

Para trás, no caso concreto de Ovar, tinha ficado a militância em organizações do tipo OCMLP e FEC-ML após recomposição de forças nas correntes M-L, reagrupando-se então na UDP que mais tarde surge como frente eleitoral e de massas do Partido Comunista Português (Reconstruído), o PCP(R), que entretanto reduziu a sigla para  PC(R), assumindo-se como o Partido da classe operária.

A UDP viria após a queda do Muro de Berlim e a derrota do Socialismo no Leste Europeu, a assumir o papel principal como Partido, mantendo-se, mesmo já sem representação parlamentar, a ser reconhecidamente uma força de combatividade, até ao novo quadro que representou o surgimento do Bloco de Esquerda (BE) nos finais da década de noventa, de que foi força impulsionadora com o PSR e a Politica XXI. Desta corrente política comunista, que nasceu sob o signo do direito ao pão, paz, terra, liberdade e independência nacional na Revolução de Abril, ficaram também memórias e marcas ideológicas até aos dias de hoje nas paredes.

Os “pés de galinha” como era designado popularmente o símbolo do MDP/CDE, pintado a preto sob fundo vermelho, também surge nas paredes, sendo ainda hoje possível encontrar vestígios deste símbolo em Ovar, em que havia igualmente organização do também extinto partido Movimento Esquerda Socialista (MES), que, com a UDP nas primeiras eleições presidenciais (27/06/1976) apoiaram a candidatura de Otelo Saraiva de Carvalho com participação nos Grupos Dinamizadores de Unidade Popular (GDUP’s).

Todas estas mutações políticas aqui resumidas, e passados todos estes anos de intensa luta e disputa partidária, neste caso concreto na área da esquerda, acabaram por representar uma espécie de património de arte urbana, cultural e politica. Foram inúmeros sinais de um tempo de alegria, de entusiasmo, de participação cívica, politica e revolucionária, de emancipação, de consciencialização, de confronto de ideias e de utopias.

O que ainda se pode observar, expostas publicamente que estão em pinturas de parede, como as que resistiram aos tempos, no caso das do MDP/CDE na rua Alexandre Herculano e da UDP na Ponte Nova ou no antigo edifício entre as ruas Cândido dos Reis e Mártires da República. São verdadeiras memórias de intervenção politica nesta terra de tradições operárias.

Texto e fotos: José Lopes

01jan20

 

 

 

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