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(D.) Fajardo (Figura Típica do Porto)

Carmen Navarro

Quem nos trás à memória este personagem é o prolífero escritor portuense do século XIX. Alberto Pimentel. Lamentamos que seja um escritor esquecido, pois muito veio enriquecer o nosso conhecimento por um Porto de outros tempos. Alberto Augusto de Almeida Pimentel, nasceu na freguesia de Cedofeita, em 14 de Abril de 1849. Escreveu poesia, romance, peças teatrais, obras políticas, tradições populares, foi o primeiro biógrafo de Camilo Castelo Branco de quem foi amigo, é uma referência para os estudos Camilianos.

Alberto Pimentel

A sua tendência memorialista traz-nos muitos valores e acontecimentos da cidade do Porto que era a sua paixão. No seu livro “O Porto há Trinta Anos” a exaltação das lembranças é grande, memórias de outro género daquela que vos vou contar de carácter mais sério, que continuam a ser uma referência para estudos sobre a antiga Cidade do Porto. Alberto Pimentel faleceu, em Queluz, a 19 de Julho de 1925.

Aquilo que hoje aqui nos trás é o Sr. (D.) Fajardo, figura típica do Porto que certamente como ele existiram muitos outros com a mesma subtileza, e continuam a existir, no entanto, nenhum deles teve o privilégio de figurar no Dicionário de Significados.

Em 1908 Alberto Pimentel traçou o perfil deste malandreco, pois monstro não era, tinha horror à violência e ao sangue. Fajardo, realmente era o apelido deste troca-tintas engenhoso, esperto e finório e certamente muitas outras coisas…

Apesar de ter existido uma família nobre de Galegos com este apelido que viveu em Portugal, tudo leva a crer que nada têm a ver com João da Costa Fajardo, nascido no Porto em 1825 que ficou celebre pelas suas aventuras. Daí no Porto se usar o termo «fajardo» para catalogar quem tem este tipo de comportamento e sabe viver à custa dos incautos.

Adeus,
cidade do Porto,
Adeus
rua das Flores:
De um lado
tens só ourives,
Do outro
tens mercadores!”

Alberto Pimentel

Fajardo foi muito novo para o Brasil e como era superiormente inteligente decidiu aí viver de uma forma prática e menos cansativa, e que lhe dava muito mais dinheiro, usar na rua de truques, expedientes e traficâncias, e assim levou muitos na conta do vigário e conseguindo maquias consideráveis. Alberto Pimentel diz que só duma vez conseguiu de um sovina a grande quantia de seiscentos mil reis que era muito dinheiro naquele tempo.

Homem alto, bem-parecido que vestia bem, sempre de cartola, ou chapéu de coco, luvas, gravata e bengala de castão de prata lavrada, vestia de preto, falava diversas línguas e sabia seduzir com toda a facilidade as vítimas de quem se abeirava, depois de no Brasil já ser muito conhecido regressou em 1847, a Portugal à sua cidade do Porto. Como outra coisa não sabia fazer, há que continuar uma vida de crápula e expedientes como tinha grande talento para enganar passou à ação. Era gracioso. Gostava de se passear na Praça Nova, fumando o seu charuto (certamente roubado) enquanto observava qual seria a próxima vítima. Daqui se conclui que não é qualquer um larápio que é um «fajardo». Ora Bem!..

Os que ainda não tinham sido apanhados no conto do vigário riam e gargalhavam da sua perícia em enganar. Então, contavam historietas e anedotas: O Fajardo era a vedeta de todas as conversas dos cafés da Praça.

Pinho da Silva colaborador da Revista “O Tripeiro” de Abril de 1985
Escreve sobre o mesmo assunto uma estorieta que vou transcrever inteiramente, porque a acho muito divertida:

Lá Vai:
Um dia, Fajardo mandou fazer umas botas a certo mestre sapateiro, e o ferrador humano, confiando naqueles grandes ares do cliente, nem sequer teve o atrevimento de lhe pedir um mísero sinal quando lhas entregou.

A sola, era extra-boa; o cabedal, extra caro; o acabamento, extra-fino;
o preço corria paralelamente com a altura da Torre dos Clérigos; por tal motivo o bate solas não estranhou que um senhor tão fidalgo lhe pedisse o pagamento a prestações. Chegado o dia da primeira prestação, o freguês, porém…nicles! O sapateiro esperou um dia, uma semana, um mês, e como não estava na disposição de esperar um ano, preferiu esperar Fajardo no seu trajeto habitual e… Zás! – Descalça-lhe as botas mesmo ali, sem mais tir-te nem guar-te, e foi-se à vida: com elas a dar a dar, penduradas pelos nagalhos na mão grossa e escodeada de grude. O elegante Fajardo, ficou-se a ver navios do alto de S. Catarina, ali, na rua, perante o espanto e o gáudio do respeitável público.

Mas o que lhe parece aos senhores? Que Fajardo se afligiu, se atrapalhou, se procurou esconder? Desenganem-se. Nada disso! – Fajardo, descalço e de chapéu alto, «dernier-cri» floreteando elegantemente a bela bengala de castão de «prata», seguiu tranquilamente seu caminho perante os olhares pasmados e divertidos dos transeuntes; e quando pareceu que nenhum dos espectadores do seu «desbotamento» se encontrava presente, tirou, delicadamente, o chapéu, estendeu-o a quem passava, dizendo:

– «Por favor: fiz voto de pedir, descalço, esmola para uma missa de ação de graças…»

Nem queira saber; era um chover de moedas no côncavo da cartola que foi mesmo um louvar a Deus! – Tal qual um poço sem fundo, um tonel das Danaides, uma cornucópia, uma autêntica… cartola de ilusionista!

Só visto!…

-Coitadinho do senhor! Ora já viram?! Em grande aflição se viu para fazer um voto desta casta!… Um voto… sem botas!…»

Só lhes digo aqui, aos senhores, que o Fajardo encheu os bolsos para umas largas semanas de pândega e, ainda para ir buscar as tais novas, que o bate-sola lhe fizera descalçar.
Todo teso, com uns grandes ares de capitalista, olhando os oficiais pasmados e o mestre sapateiro assarapantado, entrou na oficina plena de retalhos de sola, de bacias de água castanha e fedorenta, de formas de pau, sovelas, grossas, martelos, fio ensebado, e invetivou o dono de chafarica:

– «Olhe lá, seu sapateiro das dúzias; Julgava você que estava a lidar com algum Zé Ninguém ou quê?! Ora aqui tem o dinheiro das botas por inteiro, alma do diabo! O que você precisava era que eu o metesse na enxovia, ouviu, pedaço de asno?! Enxovalhar assim, diante de toda a gente, um homem de bem!… Onde é que já se viu isto?!»

E avançava para o desgraçado, de bengala em riste, numa atitude de d’Artagnan de terceira, talvez, ainda melhor, dum Monsieur Jourdain enfurecido.

O pobre do sapateiro, que não contava com tal, amarelo como amarela cera, mais parecia cadáver animado à pilha galvânica, que bicharoco vivo; escondia-se pelos cantos, procurava marinhar pelas paredes, acocorava-se com as mãos na cabeça e acabou por cair aos pés do Fajardo, desorientado, enlouquecido, completamente à razão de juros e aos gritos de :

– «Perdão!… Perdão!…»

E aqui têm os senhores, bem à mostra o dedo do gigante, para que lhes possam calcular a altura. Bem dizia Alberto Pimentel que se Fajardo tivesse nascido fora de Portugal hoje seria universalmente célebre.

Desse mal se queixa muito boa gente, muito mais honesta e, por consequência, com muito mais razão
Lá dizia o bom do Anto: – «Que desgraça»… etc. e tal! »

E Assim, ficamos a conhecer de onde vem o significado atual de fajardo usado no Porto para definir estes malandrecos, manejadores inteligentes da fraude!

 

Estorieta: Pinho da Silva

Fotos: pesquisa Google

01fev20

 

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