Menu Fechar

O Bonfim e a toponímia como memória do Liberalismo

Maximina Girão Ribeiro

O Bonfim é, entre todas as outras freguesias da cidade do Porto, a que mais guarda a memória do Liberalismo, na sua toponímia. Não admira que assim seja pois, o território que hoje é a freguesia do Bonfim, foi centro nevrálgico de importantes acontecimentos, sobretudo durante o Cerco do Porto.

São 18 os espaços públicos cujos nomes estão directamente ligados a personalidades ou acontecimentos, relacionados com este movimento político que deu início à entrada de Portugal na modernidade, através de uma Constituição, a de 1822 e o fim do Antigo Regime, caracterizado por uma Monarquia de cariz absolutista (absolutismo monárquico), passando a existir uma Monarquia Constitucional, isto é, apoiada por uma lei escrita que fixava os direitos e os deveres do Homem e do Cidadão.

Desembarque Liberal no Mindelo

Com o Liberalismo, os portugueses passam da condição de “súbditos” de um rei todo-poderoso, para serem considerados cidadãos de plenos direitos. Todos estes factores contribuíram para as profundas alterações que se foram sentindo no rumo da história e no quotidiano da sociedade, quer da cidade do Porto, que ganhou o epíteto de “Cidade Invicta”, quer do país.

A memória do liberalismo continua bem viva nesta freguesia mas, o importante será activar essa memória, através da divulgação mais alargada dos feitos/acontecimentos aqui ocorridos, das personalidades que foram protagonistas de numerosos episódios, neste território que foi palco e de lutas decisivas para a sobrevivência da cidade. Não podemos esquecer que aqui decorreram importantes acontecimentos que alteraram o rumo político do país.

Passaremos agora a referir os principais espaços públicos que evocam o liberalismo:

 Rua de Gomes Freire de Andrade

Mesmo antes da chamada Revolução do Porto, a 24 de Agosto de 1820, teve lugar em Lisboa, em 1817, uma revolta liderada pelo general Gomes Freire de Andrade (1757-1817), membro da Maçonaria, militar que foi protagonista da conspiração de 1817, cujo objectivo era exigir o regresso a Portugal de D. João VI que continuava no Brasil, desde o avanço das tropas francesas que invadiriam Portugal, pela primeira vez, em 1807. Na ausência do rei português o país estava entregue a uma regência sob o comando do militar britânico, o general Beresford. Como os preparativos desta conspiração foram denunciados, Gomes Freire de Andrade foi preso e condenado à morte por enforcamento, junto ao Forte de São Julião da Barra, em Oeiras, juntamente com outras onze pessoas, implicadas na conspiração. Gomes Freire de Andrade ficou conhecido na História como símbolo dos mártires da Liberdade. Esta acção militar, embora fracassada, foi a primeira tentativa de mudança da governação, em Portugal mas, embora tivesse sido punida cruelmente, de forma a demover futuras tentativas de rebelião, contudo, não conseguiu desmobilizar aqueles que queriam alterar o estado em que se vivia em Portugal pois, no Porto, logo no ano seguinte, surgia o Sinédrio, associação secreta que preparou a Revolução de 1820.

Rua de Fernandes Tomás

Recorda o ilustre político e patriota, considerado o “Patriarca da Revolução”, fundador da associação secreta para-maçónica, o Sinédrio, da qual emergiu o movimento liberal que conduziria à Revolução de 24 de Agosto de 1820.

 Rua de Barros Lima

Evoca Francisco José de Barros Lima, personalidade do Sinédrio e um dos heróis do vintismo. Participou na Revolução de 24 de Agosto de 1820 e integrou a “Junta Provisional do Governo Supremo do Reino”, como representante do comércio. Barros Lima possuía uma quinta na freguesia do Bonfim, propriedade que foi local estratégico nas lutas liberais. Foi ao longo dessa quinta que se abriu parte da rua, abrangendo a actual artéria com a designação de Barros Lima e a de António Carneiro, até à rua do Heroísmo, onde este rico comerciante (mais tarde fidalgo da Casa Real Portuguesa e detentor do título de Barão de Barros Lima), possuía a sua casa nobre e capela, ou seja, o edifício que faz esquina entre a rua do Heroísmo e a rua de António Carneiro. Aí funcionou o Liceu Rainha Santa Isabel e, actualmente, alberga o comando da Polícia de Segurança Pública.

Campo 24 de Agosto e Travessa do Campo 24 de Agosto

Estas duas designações toponímicas evocam a data em que eclodiu a Revolução Liberal, no Porto que, concretamente, partiu da actual Praça da República (antigo Campo de Santo Ovídio), onde se reuniram os militares, ainda de madrugada, formados em parada para ouvirem missa e assistirem a uma salva de artilharia que marcava o início do levantamento militar. Depois, pelas oito da manhã, os comandantes reuniram-se na antiga Câmara Municipal da cidade e constituíram a “Junta Provisional do Governo Supremo do Reino”.

Rua do Barão de S. Cosme

O barão de S. Cosme era João Nepomuceno de Macedo (1793-1837), o coronel Macedo, depois brigadeiro das forças liberais. Participou nos principais conflitos que atingiram o País na primeira metade do século XIX, em várias campanhas militares anteriores à revolução de 24 Agosto de 1820. Aderiu à causa liberal em 1826 e, em 1828, como tantos outros militares teve de se exilar em França, enquanto outros emigraram para Inglaterra ou refugiaram-se nos Açores, devido ao terror das perseguições miguelistas. João Nepomuceno passaria, depois, à Ilha Terceira de onde partiu integrando os 7500 “Bravos” que desembarcaram no Mindelo para libertar a cidade do Porto. A rua com o seu nome foi aberta nos terrenos da antiga Quinta do Reimão, como homenagem pela sua actuação, no dia 29 Setembro de 1832 quando, descendo do largo do Bonfim, no comando do chamado “Batalhão do Pataco” que, segundo consta, era composto apenas por 25 homens que, com a sua acção, conseguiram impedir o avanço das forças absolutistas que tentavam romper as linhas liberais, pela rua do Prado (actual rua do Heroísmo). Nepomuceno foi promovido a brigadeiro, em 1833 e feito barão de S. Cosme, por decreto de D. Maria II. Morreu em combate, quando participava, em 1837, na Revolta dos Marechais, uma sublevação militar fracassada, contra o Setembrismo (a corrente mais à esquerda do movimento liberal, derivada directamente do vintismo). Nepomuceno estava à frente da cavalaria cartista, (composta por partidários da Carta Constitucional de 1826, defensores de um liberalismo moderado) e, sob as ordens de Saldanha, enfrentou as forças setembristas  do Barão do Bonfim. Este foi o seu último combate.

 Rua do Duque de Saldanha

É a artéria que homenageia João Carlos Gregório Domingos Vicente Francisco de Saldanha Oliveira e Daun (1790-1876), destacado militar, oficial do Exército Português, onde atingiu o posto de marechal. Foi diplomata e um dos políticos que mais se salientou, no século XIX, em Portugal, por ter sido o homem de Estado que ocupou cargos de maior relevância no período da Monarquia Constitucional portuguesa: chefiou várias revoluções e diversos governos; foi nomeado por D. Pedro como chefe do Estado-Maior e foi o líder incontestado das forças liberais e o militar mais influente de toda a campanha. Participou no Cerco do Porto e desenvolveu grande amizade e lealdade a D. Pedro IV que, sobre ele escreveu “[…] que fora devido ao seu talento militar que logrou vencer no apertado cerco desta cidade as hostes absolutistas.”

Rua do Duque de Palmela

Rua que evoca D. Pedro de Sousa Holstein (1781-1850), político, diplomata e militar português, um dos heróis das Guerras Liberais e um dos líderes do Liberalismo, da facção mais conservadora, entre as décadas de 1820 e de 1840. Foi chefe do governo de D. Maria II, nomeado em 1834, 1842 e, de novo, em 1846, estando o seu nome associado às principais movimentações políticas da época.

Rua do Duque da Terceira

O Duque da Terceira era António José de Sousa Manuel e Meneses Severim de Noronha (1792-1860), 1º duque da Terceira. Foi um importante general e uma das figuras mais importantes tanto no plano político como no plano militar. Herói das Guerras Liberais, teve múltiplos cargos e honrarias, na corte. Exerceu as funções de marechal-de-campo, comandante-em-chefe do Exército Português, conselheiro de Estado, Par do Reino, tendo por quatro vezes (1836, 1851, 1842-1846 e 1859-1860) exercido o cargo de Presidente do Conselho de Ministros.

Rua de Joaquim António de Aguiar

Evoca Joaquim António de Aguiar (1792-1874) que foi político e maçon, e um importante líder dos cartistas e, mais tarde, do Partido Regenerador. Foi um legislador anticlerical, conhecido como “mata-frades”, epíteto que recebeu depois de declarar extintos “[…] todos os conventos, mosteiros, colégios, hospícios, e quaisquer outras casas das ordens religiosas regulares”, sendo os seus bens secularizados e incorporados na Fazenda Nacional.. Foi, por três vezes, Presidente do Conselho de Ministros de Portugal (1841-1842, 1860 e 1865-1868). Ao longo da sua carreira política assumiu, ainda, várias pastas ministeriais e pertenceu ao exército dos “Bravos” do Mindelo. Durante o Cerco do Porto foi nomeado juiz do Tribunal de Guerra e de Justiça e membro da comissão encarregada de elaborar o Código Penal e o Código Comercial.

Rua de Costa Cabral

(parte da rua pertence ao Bonfim)

Homenageia António Bernardo da Costa Cabral (1803-1889), 1º conde e 1º marquês de Tomar. Foi um político português que, entre outros cargos e funções, foi deputado, par do Reino, conselheiro de Estado efectivo, ministro da Justiça e Negócios Eclesiásticos, ministro do Reino e presidente do Conselho de Ministros. Defensor da Revolução de Setembro de 1836, a sua conduta política evoluiu num sentido mais moderado.  Desembarcou no Mindelo e permaneceu no Porto durante o Cerco.

Rua do Visconde de Bóbeda

Artéria que recorda a figura de Joaquim de Sousa Quevedo Pizarro (1777-1838), oficial da marinha, que transitou depois para o Estado-Maior do Exército. Foi general e depois marechal. Por duas vezes desempenhou o cargo de Ministro da Guerra. Sendo partidário da causa liberal, pôs-se ao serviço desta, contra D. Miguel, participando em várias revoltas. Integrou os “Bravos do Mindelo e participou no Cerco do Porto. Foi «[…] o único general português que através de mil perigos conduziu pela mão os emigrados ao porto de salvação: amigo leal na fortuna e na adversidade, homem singular que no seu longo exercício repartiu com os seus companheiros de armas o único bocado de pão que tinha para comer», assim se pode ler em O Tripeiro, I Série, Ano III, pág. 551. Esta rua é paralela às ruas do Duque de Terceira e Duque de Saldanha, ambos camaradas do Visconde de Bóbeda, no Cerco do Porto.

Rua do Heroísmo

Esta rua deve o seu nome aos episódios que aí se viveram no dia 29 Setembro de 1832, durante o Cerco do Porto. Anteriormente a artéria chamara-se de S. Lázaro (do Prado do Repouso em diante). Também foi conhecida por rua do Alecrim e 29 de Setembro. Nesta data de 1832, aqui se travaram os combates mais violentos da guerra civil entre liberais e absolutistas, quando as tropas miguelistas ultrapassaram as barreiras de defesa de Campanhã e avançaram contra os absolutistas. Foi o futuro Duque de Saldanha que tomou rapidamente o comando dos soldados liberais e, numa súbita investida, avançou sobre os infiltrados, atacando numa violenta acção militar, em que se viveram momentos heróícos de coragem e valentia, pondo-se em fuga os absolutistas que restavam.

(Antiga) Rua Duquesa de Bragança – (Actual) rua de D. João IV

O nome da rua Duquesa de Bragança suscita-nos enormes dúvidas sobre quem era esta Duquesa de Bragança pois, segundo “O Tripeiro” (VI Série, Ano XI, pág. 327) evocava D. Amélia da Baviera. Ora esta D. Amélia era a mãe da duquesa Amélia Augusta Eugénia Napoleão de Beauharnais, segunda esposa de D. Pedro IV, falecida a 24 Setembro de 1873. A rua teve depois, em 3 Out 1912, o nome de “Heróis de Chaves” e, em 1942, a Comissão de Toponímia atribuiu-lhe o nome de D. João IV.

Rua da Constituição

Trata-se de um arruamento da cidade do Porto que se estende pelas freguesias do Bonfim, Paranhos, Santo Ildefonso e Cedofeita e que evoca a Constituição de 1822. Quando o Cabralismo caiu, a Carta Constitucional foi revogada, sendo de novo restaurada a Constituição.

Rua da Firmeza

Esta rua deve o seu nome de Firmeza, atribuído pela Câmara, em 1838 “[…] em apreço pelo denodo e resignação com que os Portuenses valorosamente resistiram ao apertado sítio de 1832 a 1833 […]”. Trata-se de uma referência ao Cerco do Porto, lembrando a resistência, os feitos e o sofrimento que os portuenses sentiram com a sua cidade cercada.

Rua da Alegria

O nome dado a esta rua “Alegria” poderá estar relacionado com o Cerco do Porto, cuja denominação lhe teria sido atribuída “[…] em memória  da alegria com que foi acolhida na cidade a vitória das tropas constitucionais sobre os absolutistas.” Esta é a versão mais comum para explicar o nome desta rua. Contudo, já em 1813, numa planta antiga, portanto anterior ao Cerco do Porto, já aparece um arruamento com o nome de “Alegria” que poderá estar relacionado com a existência de uma quinta nas proximidades que se chamava “Quinta do Campo da Alegria”…

Rua da Bataria

Trata-se de um local onde existiu uma bateria de artilharia (Bateria da Póvoa de Cima), durante o Cerco do Porto.

O Porto assumiu-se sempre como a cidade berço da Liberdade, porque esta cidade esteve sempre alerta, em relação a ideias contrárias ao Liberalismo. Veja-se o caso da revolta de 16 de Maio de 1828, contra os partidários do absolutismo, acto que foi severamente castigado, no ano seguinte, com a condenação à pena de morte de doze homens que lutaram contra a reimplantação do absolutismo miguelista, os chamados “Mártires da Liberdade”, executados nas forcas da Praça Nova e sepultados no cemitério do Prado do Repouso, num monumento existente no talhão da Misericórdia do Porto.

Poderíamos, então, escrever sobre outros espaços e de outros símbolos do Liberalismo mas, desta vez, referimo-nos apenas aos espaços públicos do Bonfim que registam as memórias deste período histórico, na sua toponímia, que preservam dados importantes do passado, como os acontecimentos, os sentimentos ou as personalidades que foram actores, num palco de alterações significativas, na transição de Portugal para um país mais moderno e mais justo. Poderíamos escrever sobre estatuária urbana e cemiterial, sobre placas com mensagens, sobre edifícios…, porque o Porto tem, realmente, um espólio considerável acerca deste período, pelo que o assunto não se esgota por agora.

 

Obs – Por vontade da autora e, de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc eTal jornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.

Fotos: pesquisa Google

01fev20

 

 

 

 

Partilhe:

2 Comments

  1. José Rebelo

    Bem-haja Dra. Maximina pelo notável serviço prestado ao povo do Porto com estas preciosas lembranças da história do Liberalismo no Bonfim. Muito obrigado.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.