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Tedo nas neblinas da lenda

Lurdes Pereira

(Texto e fotos)

Depois de passar pela estrada mais bela do mundo, há um desvio que leva os Olhares da Serra até Tabuaço. Na subida é obrigatória uma paragem contemplativa para um dos mais belos cenários do Douro, a Foz do Tedo. Com um olhar estilizado, as duas línguas de terra serpenteiam e quase se tocam, parece que se procuram para consolidar o amor na humanização de uma lenda.

Quem contempla a aldeia da Granja do Tedo jamais pode imaginar a história sangrenta que sustenta o seu nome, apesar de nascido de uma história de amor. A lenda de Thedon e Ardínia é uma tragédia cuja sequência desconstrói um sofrimento progressivo causado por uma angústia quase que imposta pelo triste fado.

Conta-se que D. Thedon Ramires conquistou vários territórios aos mouros e aqui terá fundado a sua casa, no séc. X, com uma granja e um olival. Apaixonou-se pela filha do rei mouro de Lamego, Ardínia ou Ardinga que desejava casa-la com um mouro. A princesa, arrebatada pelo conflito, deixou o coração falar mais alto rendendo-se ao cristianismo para desposar Tedo.

O destino amargo dos jovens amantes tornou-se algo inevitável, fora do controlo do sentimento humano, fora do poder dos próprios deuses. O pai da princesa ao saber que a filha se havia convertido numa religião contrária matou a própria filha e fez uma feroz perseguição a Tedo, uma perseguição que culminou na catástrofe! O cavaleiro, encontrado junto a uma ribeira, ali foi morto e o seu sangue derramou e fez chorar toda a ribeira.

A catarse da lenda purificou as emoções e as paixões, transformou o sangue do amor em água viva que corre veloz, que molda as rochas do leito e, em tempos, fez as graças dos moinhos que aqui e ali se vão encontrando, não sei se inativos, mas que revelam grandes histórias do passado. Conta-se que o fluxo de sangue manchou toda a ribeira e assim nasceu a Ribeira do Tedo e a sua povoação da Granja do Tedo.

A ribeira tem um veloz caudal a reforçar os feitos do mouro, furiosa por não poder cantar as núpcias do casal. Os sentimentos parece que se misturam. Se por um lado a ribeira representa a personalidade do mouro, as suas águas rebentam os sentimentos em choros, em gritos, em lágrimas um amor que a condição humana não soube cuidar. O silêncio e a paz sentida neste lugar é algo que não escapa a sensibilidade de quem por aqui passa.

O que despertou o meu olhar foi o Jardim Histórico, junto do Tedo, cujo coração é dedicado à lenda local. O espaço está adornado de painéis de azulejo. E, em azul e branco, vão contando a história das origens da aldeia da sua dignidade e identidade que tem séculos de memória.

A aldeia, com seus aglomerados de habitações, preserva ainda casas típicas com varandas de madeira. Entre as mais solarengas e as mais humildes parece existir uma afinidade quase familiar.

Desde a Igreja Matriz, a capela da N. S. do Socorro, a ponte e os seus moinhos, a aldeia possui uma beleza singular. Singular é também o silêncio entre caminhos e estradas, quase estranho! Há habitações que se abraçam e se entrelaçam nas memórias; a memória, o silêncio e o segredo da “escravidão” de um amor proibido.

“Mal te vi D. Cavalleiro

Perdi de todo a isenção

Fiz-me escrava de teus olhos

E bendisse à escravidão!

Ai triste não me lembrava

Ser eu moira e tu christão!”

É logo depois da ponte romana sobre o Tedo que toda a história se desenlaça. Em frente, Ardínia, anfitriã, jaz na cerâmica fria mas assume o papel de comissária nesta visita pela Granja do Tedo. Elegante e na companhia da ama, a princesa parece receber-nos com um sorriso mas, se a aldeia vive submersa na neblina de uma trágica história de amor, a Ribeira da Granja ainda não esgotou as lágrimas do luto de uma das mais belas lendas de Portugal.

01fev20

 

 

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