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A capela do Senhor Jesus da Boavista ou Capela de Montebelo

Maximina Girão Ribeiro

Há locais carregados de memórias mas que, hoje, poucas pessoas conhecem. É o caso desta capela, na freguesia do Bonfim, quase escondida, devido às grandes alterações urbanísticas que a deixaram despercebida aos olhares de quem passa.

Há duzentos anos, este local onde se encontra a capela de Montebelo, começou por ter umas “alminhas” de cariz muito rústico que, na sua simplicidade, era um local de recolhimento e oração. Situava-se à beira de um precipício, um morro muito alto, declive que era conhecido pelo nome de Fojo (Fojo de Cima e Fojo de Baixo ou actual Praça das Flores). Fojo significa uma cova funda com uma abertura onde era possível colocar uma armadilha para apanhar animais. O local, em época recuada, tinha um aspecto medonho e pouco convidativo, devido ao perigoso barranco.

Capela do Senhor Jesus da Boavista

As “alminhas”, aqui existentes, deram lugar, no século XVIII, por vontade do povo e pela generosidade das esmolas de muitas pessoas, a uma pequena capela, sob invocação do Senhor Jesus do Fojo que, posteriormente passou a chamar-se Senhor Jesus da Boa Vista, talvez por, nesse sítio, se alcançar um vasto panorama, uma visão alargada do horizonte. Diz-se mesmo que, daí, desse lugar, o Monte Belo, as pessoas pediam a Deus uma boa visão, livrando-os da cegueira para poderem continuar a contemplar as amplas zonas cobertas de vegetação, árvores e férteis campos que alegravam a vista. Descrições do séc. XIX salientam mesmo um verdadeiro cenário paradisíaco, cheio de beleza, que se avistava daquele ponto da cidade.

A actual capela remonta a 1767, sendo depois restaurada e ampliada em 1864. Mais tarde, sofreu novas intervenções e melhoramentos, nomeadamente, em 1979.

Para além da devoção ao Senhor Jesus da Boa-Vista, também Nossa Senhora do Porto é aqui venerada e considerada por muitos como milagrosa. A imagem está nesta capela, desde o início do século XIX quando, em Março de 1809 teve lugar a segunda invasão francesa que assolou a cidade do Porto, com três dias de saques consecutivos. Bandos de soldados franceses percorriam desordenadamente a cidade, atacando a população, violando, incendiando e pilhando tudo quanto encontravam…

Conta-se que, um grupo desses soldados andava com uma bela imagem de Nossa Senhora, roubada em alguma igreja ou oratório de uma casa particular, exibindo-a e oferecendo-a, a troco de dinheiro, quando um funcionário da Câmara Municipal do Porto, de nome Lourenço Inverno, ofendido com toda esta manifestação de desrespeito, lhes ofereceu pela imagem um pinto (moeda de prata no valor de 480 réis, o chamado cruzado novo). O funcionário guardou a imagem, com toda a devoção e ofereceu-a, mais tarde, à capela do Bom Jesus da Boa-Vista onde, ainda hoje se encontra e por ela se celebra a festividade da Senhora do Porto, no terceiro domingo de Setembro de cada ano.

Esta Nossa Senhora do Porto (existem, pelo menos, duas outras imagens com o mesmo nome, na cidade), colhe a devoção de muitos crentes, pois corre a história de um episódio, tido como milagre quando, nos finais do século XIX, uma forte seca veio prejudicar a agricultura que ainda de praticava, na cidade. Tomou-se, então, a decisão de promover uma procissão para pedir a protecção de Nossa Senhora do Porto, para que chovesse e a água voltasse aos ribeiros e às fontes. A imagem saiu da Capela, desceu até ao Campo 24 de Agosto, subiu até à Igreja do Bonfim onde fez uma paragem e regressou à Capela do Senhor da Boa-Vista e… a chuva aconteceu!

Esta capela tem outra festividade, mas, em honra do Senhor Jesus da Boa-Vista, cuja imagem foi esculpida pelo escultor portuense Manuel Soares de Oliveira, a partir da promessa por ele feita que, se ficasse livre do serviço militar, faria uma imagem em tamanho natural. Assim aconteceu e, assim, o artista cumpriu a promessa, oferecendo a imagem a esta capela.

Senhor Jesus da Boa Vista

O lugar do Fojo, onde se encontra a capela, a poucos metros das “Guellas de Pau”, representou um importante ponto estratégico na defesa da cidade, não só aquando da segunda invasão francesa de 1809, como durante o cerco do Porto com entrincheiramentos montados desde o monte do Bonfim até à Capela do Senhor Jesus da Boa Vista. Foram de particular importância as baterias do Bonfim, do Cativo e do Fojo, no renhido e sangrento combate, a batalha do Fojo, a 29 de Setembro de 1832, que se desenrolou onde hoje é a praça da Flores. Após cerca de nove horas de combate, foi possível repelir os miguelistas, com graves perdas para estes, mas, daí resultando a vitória dos liberais.

 

Por vontade da autora e, de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc eTal jornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.

 

Fotos: pesquisa Google

01mar20

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