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Hino às Lísias Fontes do Ébano

Bruno Ivo Ribeiro

(texto e foto)

Por detrás da morte há vida, por detrás das lágrimas espreita uma gargalhada, por detrás da mentira está a Verdade, por detrás da aparência reina a essência; e atrás das palavras estão os verbos que se não transcrevem, porque escrevê-los é matá-los!

Ainda o sol não subia e já a janela o esperava de braços abertos.

Assim amanheceu na cidade, e assim os raios mataram, de vez, a escuridão que assaltaram os dias de negregura.

Raio ante raio, fulgente e ímpio, resplandecia o sol que adentrava o quarto e que inundava os lençóis, tão brancos como pura é a face de Deus. E naquele quarto, onde a luz inunda agora a vida, reinam os castiçais enobrecidos pelo ouro de Apolo, que sobre verdes folhas de louro trazidas pelos espíritos da floresta, sobre a mesa cuidadosamente foram pousadas, para enfim perfumarem o coração, engrandecendo a alma.

As cambraias de linho cru servem de almofada ao louro, e de branco, verde e ouro, se revela o louro cabelo de Ceres que humildemente toca o soalho de madeira, tão temperada pelos séculos como simples no ranger, e assim, pé ante é, de mais luz se inunda o quarto, mais floresce a vida.

A sorte é o sorriso do punho cerrado contra as varadas da injustiça, do medo e da inveja; essas que são as três armas de que se asseguram os fracos, pois que ante o sorriso perece a sua fraca força, já que de forte semblante e luzidio se revela ser o esgar que louva o sol. A sorte não é um estado, uma instância ou uma ocasional raspadinha, a sorte é um modo de encarar o viver, e viver é sorrir, porque só quem não vive, já não mais sorri.

Dafne limpou os pés, calçou as pantufas e saiu, Ceres beijou as flores, amou as cearas e desceu para tomar o pequeno-almoço. Só Apolo está sozinho, segurando numa mão o loureiro que desde sempre amou, e acompanhado por esta ausência jamais luxuriosa, jamais carnal, e nunca, em tempo algum ditirâmbica; senão apenas amorosa, como de Amor se veste Vénus e se despe a Morte.

O sol é o quarto, o Sol está no quarto, o sol não é outro senão o quarto e tudo o mais; e onde tudo é luz, todas as divindades são louvor a Deus, e todo o profano é sagrado, já que aos olhos da providência a vida se desenrola naturalmente, calmamente, e pacatamente. Nós é que aceleramos o relógio, nós é que nos matamos antes de morrer, nós é que trazemos a noite para dentro do quarto, quando o quarto é afinal, apenas Luz!

 

01mar20

 

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