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Marias, Meninas, Mulheres

Carmen Navarro

Num destes dias ao deambular pela cidade, os passos levaram-me até S. Nicolau de séculos, é um encanto, rica em história e monumentos. Caminhando, caminhando estava na Ribeira, do Barredo repleta de ruas estreitinhas, das Alminhas da Ponte, do painel de azulejos muito significativo, “Ribeira Negra” de autoria de Júlio Resende, da bela Ponte Luiz I, de onde o olhar se espraia nas águas mansas do Rio Douro que por vezes se enfurece e galga as margens, pondo todos em alvoroço.

A Ribeira vive em permanente diálogo com o rio, pois ele é sempre o grande atrativo. Há embarcações que vão e vêem há gente que passeia e gente que trabalha, imperturbável o rio caminha rápido e seguro no seu leito até à Foz, levando todas as estórias. Uma só constante o piar das Gaivotas.

Recuando na memória, lembro as suas gentes genuínas que hoje não habitam mais na Ribeira.

Foto: Agostinho Rebelo da Costa (ARC)

Mulheres da Ribeira

Velhas, viúvas, tristes e pobres
São as mulheres desta Ribeira
Foram novas, alegres, felizes
Viveram labutaram a vida inteira.

Pobres mas alegres sempre foram
Seus homens felizes fizeram
Gostavam da vida, sabiam amar
Criaram os filhos que tiveram.

Souberam ser mães, souberam sofrer
Nesta Ribeira trabalharam
Viram seus homens morrer
Ficaram sós e choraram.

Hoje são como esta terra
Por quem os sinos deviam dar dobres
Vêm a Ribeira por estranhos esmagada
E elas velhas, viúvas tristes e pobres.

Etelvina Sá

Das Marias que conheci e que lá ainda permanecem, têm 70/80/90 anos de vida, eram a Ribeira, ali nasceram, cresceram, trabalharam e vivem com grande saudade do passado. Algumas das netas ainda teimam em lá viver numa Ribeira diferente e menos solidária.
Muitas ficaram viúvas muito jovens e com bastantes filhos para criar.

Mais de metade destas Marias vendeu peixe que os seus homens pescavam no rio e muitas delas iam a Matosinhos buscá-lo e depois regressavam no Carro Eletrico, Linha 1, ouvindo os impropérios dos passageiros que se incomodavam, porque cheirava a peixe.

Foto: ARC

Outras venderam legumes que vinham rio abaixo nos barcos e ali encostavam às Escadas da Padeira para os descarregarem. Escadas estas onde as mulheres com os pés no rio lavavam a roupa e punham a conversa em dia:

– Então há novidades? Não sabes ainda daquele desgraçado que se atirou da Ponte?….O “Duque” teve que o ir pescar!

O “Duque “ da Ribeira foi figura típica do local, pescava os cadáveres dos que num momento de desespero se suicidavam atirando-se ao rio das pontes, normalmente era da de Luiz I.

Já para salvar vidas que caiam ou escorregavam no sabão ao lavar a roupa, lá estava a Maria “Homem” que destemida com grande espírito de abnegação e pondo em risco a própria vida se atirava ao rio. Nunca deixou ninguém sem auxílio pronto. Maria de Lourdes foi agraciada pela Capitania do Porto, com a Medalha e Diploma de Mérito pela sua coragem e humanismo. Hoje já ninguém se lembra dela. Gostei muito de a conhecer. Lamento que tenha sido infeliz.

Foto: ARC

Marias alegres que sentiram a fome, a falta de coragem para regressar a casa, onde filhos as esperavam e com quem partilhavam o pouco que conseguiram angariar com um dia inteiro de labuta, dias estes que muitas das vezes começavam antes das 4 da manhã, para só terminarem à tardinha. As escamas que teimavam em ficar agarradas à pele, pouco importava, o cansaço eram demasiado. Vidas repletas de estórias, sonhos e desilusões, onde o rosto hoje esconde a dureza de uma vida e o olhar com menos brilho estende-se por longínquas memórias. Ir à escola era um luxo, era preciso pagar o que se comia e não só, pois com 12 ou 13 anos, muitas das vezes era necessário assumir as responsabilidades de mãe, pois a morte cruel e ignorante ceifa a vida dos que mais falta fazem e no meio de toda a insegurança e instabilidade, a consciência de que aquela vida as consumia lentamente, sem deixar lugar ao sonho, mas mesmo assim continuavam a ser alegres. Todas estas Marias, sós e esquecidas têm hoje a certeza do dever cumprido e, chegando ao fim da vida vão lentamente recordando momentos da vida.

Da minha janela azul
Vejo o Rio silencioso a caminho do mar.
Lampiões que iluminam a minha solidão.
Conto e reconto as pedras do chão.
Vejo casais de pombos a namorar,
Pássaros que cantam no meu beiral.
De bom tempo é o sinal.
Por toda a vida inteira.
Vejo Gaivotas fazendo ninho
Nos telhados da Ribeira.

Etelvina Sá

Hoje os homens já não pescam Sável, reluzente de cor de prata, junto à ponte e que as mulheres com água até à cintura e grande destreza ajudavam a puxar as redes carregadas do abençoado peixe e os passavam para as gamelas que serviam para o transportar até às suas bancas improvisadas para o vender. Gamelas estas que também serviam com um xaile dentro para deitar os filhos enquanto elas trabalhavam.

Não dei conta

O tempo passou
E só me deixou
e não dei conta.

A cor do cabelo avisou.
Que o tempo passou.
O mesmo aconteceu com a flor,
perdeu o viço, o perfume e a cor…
O amor passou, já não faz sentido.
Talvez em algum tempo, o tenha perdido.
Pintei o tempo numa tela
Para por num sitio qualquer!…
E vi que fui menina, jovem e mulher,
E não dei conta.

Etelvina Sá

Apesar de as suas Ruazinhas, vielas onde é muito agradável vaguear, a Ribeira já nada tem do caraterístico de outros tempos, as poucas pessoas que teimam em lá permanecer, continuam a ser especiais, no entanto, o brilho do Sol parece já não ser o mesmo, a luz é diferente e os novos sons da Ribeira já não são tão melódicos. Só o cantar do correr do Rio é igual.

Fotos: pesquisa Google

01mar20

 

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