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Sem-abrigo

Fernanda Ferreira

O Carlos há três anos era um sem-abrigo e, como todos os outros, tinha uma história triste guardada no fundo da alma. Custava-lhe aceitar a sua situação, porque nunca foi viciado em drogas ou álcool, mas foi o vício que o arrastou para a miséria em que se encontrava.

Carlos, era de família humilde, mas à custa do seu trabalho, tornou-se num empresário bem-sucedido. Não tinha propriamente vergonha da família, mas começou a afastar-se dela para procurar outro tipo de companhia.

Fazia-lhe bem ao ego mostrar aos outros a sua atual condição social, de pessoa influente, com grande poder económico, de bom gosto, e boa aparência, pelo que começou a deixar-se fascinar pela vida luxuosa. Não podia ver nada de marca afamada que não fosse comprar.

Era grande e valiosa a sua coleção de relógios, de sapatos de marca, de carros topo de gama e roupas de estilistas afamados e a sua casa era moderna, de bons acabamentos,  toda automatizada, com móveis cómodos elegantes e caros, tendo a sua arquitetura e  decoração sido feitas pelos melhores profissionais da altura.

Carlos era um homem admirado e muito invejado, mas isso deixava-o orgulhoso e vaidoso e a esposa que era perfeita porque completava essa imagem.

A Patrícia tinha uma beleza e elegância que fazia as pessoas olharem para trás para a apreciar, até porque andava sempre com roupas das últimas coleções dos altos criadores da moda.

Nunca quiseram ter filhos para poderem levarem uma vida mais livre.

Como qualquer um que estava economicamente bem, não faltavam “amigos importantes” que o desafiavam para almoços e jantares que ele fazia questão de pagar.

Eles diziam-se aborrecidos por nunca poderem pagar as despesas, mas a aproveitavam-se dele continuando a convidá-lo para restaurantes caros, escolhendo ementas e bebidas sem olharem a preço, na certeza de que a despesa seria paga por ele.

Dentro desse grupo com quem convivia, havia pessoas que se juntavam num “club” da elite local onde, depois do “club” encerrar, ficavam a jogar poker e outros jogos de apostas a dinheiro.

O Carlos foi convidado a fazer parte do “club”, o que o honrou muito por ter sido integrado no grupo da elite.

Daí até começar a jogar apostando quantias elevadas, foi questão de dias. Ele não gostava de perder nem de mostrar que não tinha hipótese para acompanhar as outras apostas. Ganhar era uma obsessão, como obsessão era jogar para recuperar o que tinha perdido.

A alienação provocada pelo jogo era tão grande, que nem pensava que estava a esbanjar a sua fortuna pessoal e a pôr em risco tudo o que tinha conseguido pelo seu trabalho.

A sua principal motivação passou a ser o jogo. Deixou de se importar com a mulher, com a empresa e, muito menos com a família.

Rapidamente o jogo passou a ser um problema de adição, como uma toxicodependência, o alcoolismo, a obsessão por sexo ou outros tipos de adição. Não podia passar sem jogar e jogava como se fosse o último dia da sua vida. A mulher manteve os seus gostos caros, não só porque sempre assim esteve habituada, mas também para “superar” as carências afetivas.

Isto foi-se mantendo até às dívidas se começarem a acumular e a terem necessidade de hipotecar a casa e a empresa e vender bens.

A Patrícia resolveu pedir o divórcio, não só pelo dinheiro ter acabado, mas também porque a vida conjugal há muito estava em crise e o risco de ficar responsável pelas dívidas que o Carlos obsessivamente continuava a contrair. Depressa arranjou um companheiro que a fez esquecer o ex-marido.

Ele começou a jogar em casinos ilegais, porque no “club” já tinha o acesso vedado. Ficou só, pobre e com dívidas, mas estava obcecado pelo jogo.

A curto prazo os credores, o fisco começaram a cobrar as dívidas até que ficou sem nada.

Por não pagar as dívidas de jogo, foi agredido por várias e violentas vezes, a última das quais ficou muito maltratado e em coma, pelo que teve de estar internado por um período muito prolongado.

Quando recuperou não quis fazer queixa dos agressores, porque não podia dizer que desconhecia que era jogo ilegal e também por medo de represálias. Antes de começar a frequentar essas casas de jogo, já sabia que iria ser perseguido e agredido se falhasse o pagamento das dívidas.

Tinha caído tão baixo na vida, que não tinha ninguém que o quisesse ouvir. Os amigos? Não, amigos não tinha nenhum. Talvez a família, mas esteve sempre tão distante enquanto vivia bem, que a gora não tinha coragem de os procurar. Não era orgulho, não. Era vergonha de estar absolutamente sem nada e, acima de tudo, de só agora se ter lembrado da família. Iria ter de enfrentar a vida dos moradores da rua e não podia dizer que o não merecesse.

Precocemente envelhecido, nesses sete anos viveu na pele a fome, o frio e o desconforto extremo e o desânimo. Com a sua imagem e antecedentes, ninguém lhe dava emprego Valiam-lhe as instituições de apoio aos sem-abrigo. Afinal há gente suficientemente generosa para dispor do seu tempo de descanso na ajuda aos desvalidos da sorte.

Um dia, a voluntária que o atendeu era psicóloga que, apercebendo-se pela sua maneira de falar, que ele era uma pessoa culta, o questionou quanto ao motivo da sua situação.

Envergonhado, conseguiu abrir o coração e explicou toda a sua história de vida, dos remorsos que sentia, e que mais gostaria duma uma nova oportunidade, que ninguém lhe dava, e de ser ajudado psicologicamente para tratar a sua doença de adição, porque, mesmo na condição em que se encontrava, ainda sonhava com o maldito jogo.

A psicóloga ficou muito empenhada em aceitar esse difícil desafio. Falou com assistentes sociais e com donos de empresas, tendo sempre como respostar: ”agora não temos nada”… “tem de aguardar”… vamos ver”… “quando aparecer alguma coisa, comunicamos…”

Após um número infinito de tentativas e já quase tentada a desistir, conseguiu que lhe dessem a hipótese de ele trabalhar como aprendiz de canalizador e comprometeu-se a ficar responsável por consultá-lo gratuitamente, ajudando-o no seu problema.

Não foi um processo rápido, mas alguns anos depois, já era um bom canalizador, trabalho digno e de que se orgulhava por lhe ter proporcionado renascer das cinzas e voltar a vida a cores. No que respeita à doença de adição, continuava a ser seguido psicologicamente para não ter nenhuma recaída.

Quando ficou com a vida estabilizada, voltou a procurar a família que o recebeu de braços abertos, sem ressentimentos e empenhados em fazê-lo esquecer a parte dolorosa da vida. Emocionado, nessa altura descobriu o que é amar de verdade.

Quanto ao novo Carlos, todos os dias faz questão em se lembrar que já tinha sido um sem-abrigo por se ter deslumbrado com as facilidades e vícios que o dinheiro pode trazer e promete, dia a dia, que não se deixará ofuscar pelo brilho fictício das coisas.

Agora não são as coisas efémeras que o prendem à vida, mas as relações sólidas e saudáveis com tudo e todos que fazem parte do seu caminho e agradece toda a ajuda que lhe permitiu tornar-se na nova pessoa que é.

 

Fotos: pesquisa Google

 

01mar20

 

 

 

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