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UM TEXTO QUE DEDICO À MINHA MÃE IRENE PEPOLIM: APRENDER A COLORIR MEMÓRIAS DE UMA VIDA…

Nestes dias, num inesperado e estranho momento de introspeção, tão pouco habitual ao longo de uma vivência com mais de seis décadas, como que a tentar encontrar razões que justificassem um tão honroso galardão de “Distinção por trabalhos valorosos e dedicação”, que me foi atribuído no âmbito do 10.º aniversário do Etc e Tal jornal. Este reconhecimento, que me deixou na altura sem palavras, mesmo de agradecimento, perante a família deste projeto de jornalismo. Acabou por me trazer à memória quase três décadas a escrever textos como autodidata, sobre os mais diversificados temas (cartas, opiniões, noticias ou reportagens), ainda que à margem da ética jornalística, porque não o sou.

José Lopes

(texto e fotos)

Perante tal introspeção, foi fácil concluir que muitos outros textos ficaram por escrever e temas por tratar. Mas há um que ficou adiado por ser aparentemente intemporal, ainda que, reconhecer o mérito de alguém em vida, é bem mais justo do que depois de morrer. Sobre tudo, quando, para além de todas as provas de vida, de amor e carinho, de dedicação, de tanta resistência às agruras da vida, ainda luta como exemplo de dignidade e coragem, para enfrentar marcas profundas de desgostos, desilusões, ou as marcas das doenças que vão sendo vencidas como “troféus” nesta fase de uma mulher octogenária.

Foi pois esta história de vida, de amor e paixão que dedicou aos seus com muito sacrifício e humildade, que me faltou escrever, como escrevi afinal várias outras histórias nesta colaboração com a imprensa, em que tive o grato privilégio de receber das mãos do jornalista José Gonçalves, diretor do Etc e Tal jornal, no dia 25 de janeiro, no Salão Nobre da Junta de Freguesia do Bonfim (Porto), um prémio de “distinção”, que aqui dedico à minha mãe Irene Pepolim, através deste texto que me vem escapando e que podia ter o titulo, “Aprender a colorir memórias de uma vida inconformista”, com ilustrações.

O TEXTO QUE ME VINHA ESCAPANDO

Natural de Ovar em que nasceu a 15/09/1934, Irene Pepolim sempre manifestou disponibilidade de aprender e enriquecer-se culturalmente, como veio acontecer na relação com as técnicas de pintura a óleo e acrílico sobre tela aos setenta e poucos anos, numa espécie de terapia ocupacional após o abandono da profissão de modista que assumidamente deixou de ser o seu dia-a-dia laboral por conta própria.

O traço artístico, já há muitos anos tinha sido desvendado em meio familiar, quando os quatro filhos eram ainda crianças, e já a mãe Irene lhes fazia despertar a curiosidade sobre as suas capacidades artísticas na reprodução de um rosto desenhado no papel ou na moldagem de um qualquer adereço em barro que se ia comprar ao oleiro que restava na terra de tradições nesta indústria artesanal. Tal como na dura vida de um tempo difícil e cinzento, ela conseguia ultrapassar imaginativamente as dificuldades dos parcos recursos económicos para a sobrevivência da família, que só tinha em parte garantido o salário de operário do companheiro já falecido.

Como bom exemplo do inconformismo da mulher que não queria ficar dependente do salário do homem, e resistiu a todas as incompreensões da época, valeu a sensibilidade artística, bem patente na opção que lhe foi sugerida para tirar um curso de corte e costura na Oliva, na Rua 31 de Janeiro, no Porto, estava-se então no início dos anos setenta que antecederam o dia da liberdade instaurada no 25 de Abril de 1974. Especializou-se neste curso de duração de um ano, na área do bordado á máquina, através da qual iniciou verdadeiramente a sua vertente artística aos 40 anos, com a produção de bordados como obras de arte que se anteciparam á vertente da pintura.

COMPETÊNCIAS QUE A VIDA LHE DEU

A prova de vida testada com mérito por esta mulher que não se resignou ao analfabetismo que resultou da pouca valorização escolar enquanto criança, pelas próprias condições difíceis de vida familiar, ou pela ausência de experiencias profissionais, também pouco proporcionadas às mulheres na época, que tornassem possível uma carreira que garantisse maior autonomia. Nada foi barreira intransponível para acabar por vencer dificuldades e sobretudo resistências de mentalidades obscurantistas, conforme os tempos de repressão que se viviam e que se traduziam em relações familiares influenciadas por conceções machistas e autoritárias.

Através do ensino noturno concluiu a 3ª classe já que na idade de frequentar a escola, só tem uma vaga memória de ter passado por uma escola na Ribeira, mas sem entusiasmo. A luta pela sobrevivência para ajudar a família, e conseguir alguma autoestima, ganhando um pouco de dinheiro também para si e suas necessidades, passou desde cedo pela saída mais usual, tanto para raparigas como para rapazes, que era irem servir para casas de senhores ricos, como aconteceu ao longo da sua adolescência, até à idade de trabalhar nas poucas fábricas existente na altura em Ovar, ao mesmo tempo que, tal como alguns dos seus irmãos, ajudava na atividade comercial dos pais que exploravam a pensão “Camponesa”, que acabaria por ser destruída por um grande incêndio, mas na qual a Irene ainda teve o seu primeiro contacto com arte, já que o estabelecimento tinha nas paredes, quadros do pintor da época, Inglésias, que viria a deixar, ainda que de forma polémica nos tempos mais recentes, a sua assinatura em obras de “restauro” do património religioso, como são os painéis pintados nas paredes laterais interiores de algumas das Capelas dos Passos em Ovar.

O casamento e o nascimento dos filhos exigiam desta heroína muita imaginação, mas sobretudo muita determinação a lutar contra todas as conceções retrógradas, que olhavam a mulher como objeto para ficar em casa a tomar conta dos filhos. A Irene remava contra a maré, para garantir melhores condições de vida aos filhos e no fundo à vida da família pobre, como pobre era um povo e um país naquele tempo de miséria. Arranjava trabalho como servente de trolha a servir massa, com um bebe na barriga, tal como outras mulheres do Poço de Baixo em que viviam solidariamente em ambiente de degradação social em casas sem condições de habitabilidade com o mínimo de condições, na construção de casas, como as antigas vivendas (anos 60) na Avenida Dr. Nunes da Silva.

Trabalhou na lavoura na Marinha para a Rosinha “Tá-Tá”, andava então grávida e mais tarde na Quinta de Colares Pinto, com um dos filhos mais novos numa canastra, ou a passagem também pelo duro trabalho no antigo Mateiro (SIOL) que produzia telhas de barro, entre vários trabalhos domésticos em casa de famílias ricas.

Assim, já a dureza da vida tinha temperado dolorosamente esta mulher de uma força e determinação extraordinária, quando um certo “conforto” e uma vida mais “estável” e realizada profissionalmente, começou acontecer e a marcar um novo período da sua vida, ainda que essa nova fase se traduzisse na mera relação com o trabalho doméstico a que parecia predestinada, ao arranjar trabalho em casas fixas de famílias da burguesia local, mesmo que reconhecidamente a baixo custo o pagamento à hora. Uma vivência laboral aos dias, para tarefas domésticas, que permitiu aliviar as dificuldades da sua família, que inegavelmente contribuiu para despertar na Irene novos objetivos de vida, novos sonhos, sua emancipação e o contacto com realidades sociais e culturais que acabaram por influenciar a relação familiar com os filhos a quem sempre procurou proporcionar qualidade de vida, conhecimento e saber, e naturalmente, os inesgotáveis afectos com o amor de mãe que a caracteriza ao longo de uma vida recheada de muitas e duras vivências, que nestes últimos anos, tem vindo através da pintura, a colorir memórias de uma vida inconformista.

01mar20

 

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4 Comments

  1. José Lopes

    Desculpem… sei que não será ético, pelo menos do ponto de vista jornalistico aqui escrever sobre os nossos próprios familiares. Mas como não sou jornalista, deixei falar o coração mais alto, e felizmente fui compreendido por um profissional. Resta-me pois agradecer as palavras de carinho que foram sendo manifestada por diferentes formas, como aqui, de forma anónima, ou pelo meu irmão Manuel Lopes, bem como pelo privilégio de merecer tais palavras do amigo e camarada de várias causas José Silva…

  2. José Silva

    Comovente homenagem à heroína Irene Pepolim, grande mãe, grande mulher.
    Se aquele galardão entregue pelo director do Etc e tal, José Gonçalves (que deixou o autor mudo!) suscitou este texto: bem haja a mudez do autor, bem haja aquele momento. Obrigado por esta belíssima e comovente homenagem de filho.

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