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Casa Vazia Solidão

Carmen Navarro

As casas vazias, grandes, pequenas ou até mesmo as mansões, abandonadas, desabitadas, nunca estão de fato vazias pois nelas habita a solidão, os sonhos de muitas vidas e as recordações que escorrem pelas paredes desbotadas, caixilhos corroídos, tudo coberto por um manto de solidão, num silêncio esmagador, por mais palavras que deite ao ar a tentar ocupar os espaços, nada que faça lhe basta é inútil, são ineficazes, são assim, como nas pessoas sós, ou sós no meio da multidão, ou aquelas que só encontraram incompreensão, onde a solidão habita, roubando o espaço dos sonhos e o silencio que as rodeia, que só é quebrado pelo estalar dos móveis velhos como elas, outras ainda não o são!

O movimento da rua não anima, apenas trás a angústia da solidão. O sentir do esquecimento de todos, é uma dor profunda, um buraco triste, como a casa vazia, gelada que até tolhe os ossos, assim são as casas vazias, mas cheias de solidão.

Florbela Espanca, viveu a solidão, foi sempre de uma inconstância amorosa, a sua solidão teimava em não ser como a casa vazia que ali tem que ficar queda á espera que tudo caia, tudo tombe. Ela não, teve vários amores, o que sempre foi atributo masculino, mas nela revela uma mulher livre, que sempre procurou quem lhe apagasse a solidão, que acabou por amar  o próprio amor, que a levou ao suicídio e como a casa vazia foi a derrocada.

Loucura

Tudo cai! Tudo tomba! Derrocada
Pavorosa! Não sei onde era dantes.
Meu solar, meus palácios, meus mirantes!
Não sei de nada, Deus, não sei de nada!…

Passa em tropel febril a cavalgada
Das paixões e loucuras triunfantes!
Rasgam-se as sedas, quebram-se os diamantes!
Não tenho nada, Deus, não tenho nada!…

Pesadelos de insónia, ébrios de anseio!
Loucura a esboçar-se, a enegrecer
Cada vez mais as trevas do meu seio!

Ó pavoroso mal de ser sozinha!
Ó pavoroso e atroz mal de trazer
Tantas almas a rir dentro da minha!

Florbela Espanca

Agora em comparação com a casa vazia, falo-vos de Florbela Espanca a que foi principalmente uma poetisa. Escreveu quase sempre em forma de Soneto. Os temas escolhidos que romanticamente lhe são inerentes são: Solidão, tristeza, saudade, sedução, busca de identidade, condição feminina, morte e sempre a procura do “EU”

Estes aspetos se associam, se interligam no conjunto poético.
Uma análise mais superficial privilegia só o lado dramático e emocional. No entanto, é muito mais do que isso, é uma poesia palpitante, que abala as estruturas tradicionais e nos mostra o poder da mulher, até na forma como trata o erotismo, aspeto este que na época despertou muitas críticas negativas, movidas, como sempre por preconceitos e falsos moralismos. Ainda hoje é um pouco assim.

A palavra “eu” talvez tenha sido aquela que usou incessantemente.

Eu

Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada… a dolorida …

Sombra de névoa ténue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!…

Sou aquela que passa e ninguém vê…
Sou a que chamam triste sem o ser…
Sou a que chora sem saber porquê…

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver,
E que nunca na vida me encontrou!

Florbela Espanca

Autora plurifacetada: não só, escreveu poesia, como também contos, um diário e epístolas; traduziu vários romances e colaborou ao longo da sua vida em revistas e jornais de diversa orientação.

Florbela Espanca não fez parte de nenhum movimento literário, embora seu estilo lembre muito os poetas românticos e um pouco o modernismo.

Hora que Passa

Vejo-me triste, abandonada e só
Bem como um cão sem dono e que o procura
Mais pobre e desprezada do que Job
A caminhar na via da amargura!

Judeu Errante que a ninguém faz dó!
Minh’alma triste, dolorida, escura,
Minh’alma sem amor é cinza, é pó,
Vaga roubada ao Mar da Desventura!

Que tragédia tão funda no meu peito!…
Quanta ilusão morrendo que esvoaça!
Quanto sonho a nascer e já desfeito!

Deus! Como é triste a hora quando morre…
O instante que foge, voa, e passa…
Fiozinho d’água triste… a vida corre…

Florbela Espanca

A sua palavra fluente e apaixonada foi sempre um manancial, para músicos fadistas, declamadores ou simples amantes de poesia.

O grupo musical português “Trovante” musicou o poema “Ser Poeta” publicado no Livro “Charneca em Flor” onde se encontram muitos outros poemas belíssimos. João Gil musicou o soneto “Perdidamente”.

O cantor e compositor Fagner musicou e cantou o poema “ Fanatismo” e muitos outros. A cantora brasileira Nicole Borguer estreou no seu primeiro álbum o poema “Amar”- no álbum “Um Encontro com Florbela Espanca”, inseriu poemas de diversos momentos da poetisa, e para mostrar bem a diferença também compôs diversos estilos musicais. A fadista Marisa também tem no seu reportório dois poemas, “Caravelas” e “Amores” Diversos declamadores entre eles a grande Atriz Eunice Muñoz, Gravou um CD “ Antologia da Mulher Poeta Portuguesa” e nele inseriu 3 sonetos de Florbela Espanca “Esfinge” “Soneto” nº10” e “Arvores do Alentejo”, Poema mais de caráter patriótico. Vítor de Sousa também gravou.Foto

Saudades

Saudades! Sim… talvez… e por que não?…
Se o sonho foi tão alto e forte
Que pensara vê-lo até à morte
Deslumbrar-me de luz o coração!

Esquecer! Para quê?… Ah, como é vão!
Que tudo isso, Amor, nos não importe.
Se ele deixou beleza que conforte
Deve-nos ser sagrado como o pão.

Quantas vezes, Amor, já te esqueci,
Para mais doidamente me lembrar
Mais decididamente me lembrar de ti!

E quem dera que fosse sempre assim:
Quanto menos quisesse recordar
Mais saudade andasse presa a mim!

Florbela Espanca, in “Livro de Sóror Saudade”

Flor Bela Lobo, que optou pelo nome de Florbela d’Alma da Conceição Espanca, nasceu em Vila Viçosa, no Alentejo a 8 de Dezembro de 1894. Teve formação universitária, o que não era comum à época. Licenciou-se em 1920, pela Universidade de Lisboa em Letras.

Vindo a ser poetisa e um dos mais importantes nomes da Literatura Portuguesa.

Casou com Alberto de Jesus da Silva Moutinho em 1913 e divorciou-se em 1921, nesse mesmo ano casou com António Guimarães com quem esteve casada até 1925, vindo depois nesse mesmo ano a casar com Mário Lage, médico em Matosinhos, para onde se deslocou e onde se veio a suicidar com uma overdose de barbitúricos, no dia do seu aniversário, em 8 de Dezembro de 1930. Com apenas 36 anos. Tinha-lhe sido diagnosticado um Edema Pulmonar. A poetisa perdeu definitivamente a vontade de viver…

Este suicídio ocorreu nas vésperas da publicação da sua obra-prima “Charneca em Flor” que só foi publicada em Janeiro de 1931.

Os seus restos mortais repousam no Cemitério de Vila Viçosa, a sua terra natal

Turistas e investigadores estrangeiros rumam a Vila Viçosa, em busca do “mundo” de Florbela Espanca, poetisa maior da Língua Portuguesa.

 

Fotos: Pesquisa Google

01abr20

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