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E LÁ ESTÁ ELA, NAS FONTAINHAS: A MARIA… A CARQUEJEIRA! A ESTÁTUA SÍMBOLO DA “TRABALHADORA-ESCRAVA” NUM PORTO QUE DO PAPEL DA MULHER “MUITO SE TEM ESQUECIDO!”

E o sonho tornou-se realidade, ou melhor: foi feita, após cinco anos de luta, a justa homenagem às Carquejeiras do Porto. A “Maria”, nome da estátua da autoria do escultor José Lamas, foi, na manhã do passado dia 01 de março, finalmente, inaugurada na Alameda das Fontainhas, mesmo ao cimo da íngreme e histórica Calçada das Carquejeiras, outrora, da Corticeira, a tal que mulheres-escravas calcorrearam vezes sem conta. Esta atividade regista-se de meados do século XIX ao primeiro quartel do século passado. Mulheres carregadas com a, também chamada, “ chamiça”, para a distribuírem por certos e específicos pontos da cidade com o principal objetivo de alimentarem os fornos industriais do Porto, principalmente, os da panificação.

E a “Maria” está lá, distando qualquer coisa como 210 metros da marginal do rio Douro, podendo registar-se a íngreme calçada, com 22 por cento de inclinação, e que, como se referiu, foi o calvário para as mulheres que, há um mês, foram, finalmente, homenageadas, isto após uma luta de cinco anos desenvolvida pela Associação – Homenagem às Carquejeiras do Porto (A-HCdP), liderada por Arminda Santos. Meia década de um difícil trabalho, que este jornal acompanhou a par e passo, mas que agora tem os seus resultados à vista de todos e para todo o sempre.

ARMINDA SANTOS: “TROUXEMOS AS CARQUEJEIRAS DE VOLTA AO CENÁRIO QUE NEM O TEMPO FOI CAPAZ DE APAGAR

“A estátua que hoje colocamos no seu lugar tem o nome de Maria e é dedicada a todas as Carquejeiras do Porto. É também um motivo à determinação de uma jovem estudante que por estes lugares, ouviu histórias, tomou apontamentos, encetou conversas inacreditavelmente vivenciadas, tão reais que foi impossível esquecê-las!”

“É o exemplo da determinação de um grupo de cidadãos que amam a sua cidade, reconhecem minimamente as suas simples e irrequietas gentes. Conhecem também os seus recônditos lugares, suas fraquezas e glórias. Atuais e atuantes, este grupo vela pela preservação e divulgação da história do Porto, seus avanços e recuos, o seu progresso e enlevo. Deste grupo emergiu em 2015, a Associação Homenagem às Carquejeiras do Porto – um drama silencioso e silenciado”, com o objetivo de trazer as Carquejeiras de volta ao cenário que nem o tempo foi capaz de apagar…”

Palavras de Arminda Santos no ato de inauguração da estátua de homenagem às Carquejeiras, que salientou, logo de seguido os seus companheiros e companheiras de luta pelo concretizar do sonho, que aconteceu no dia 01 de março…  ou seja, “os nomes destes justos e determinados elementos da Associação que, de um modo cívico e cultural, tornaram possível a realização de um monumento dedicado às Carquejeiras do Porto:

Maximina Girão, Luís Pacheco, Rui Clare, Carlos Amaro, Benedita Santos, Fernando Conceição, Amélia Conceição, Leonor Fialho, M. Malta Fernandes e a nossa mais jovem Carquejeira, a Noa Pereira”.

Arminda Santos não se esqueceu também de salientar, “o trabalho exercido por anónimas figuras, desprezadas como as das Carquejeiras que, foram imprescindíveis ao pulsar e crescer da cidade. Passado um século, fomos buscar difíceis e trabalhosas memórias dos finais do séc. XIX e princípios do séc. XX – buscámos fontes credíveis, vidas perdidas na fria e rude Calçada, enaltecemos pedaços de corpos e almas de pessoas que sofriam e amavam e, que dessa calçada, tiraram o parco alimento para os seus lares”.

NUNCA NOS DISTANCIAMOS DA «COUSA COMEÇADA»!

Ainda de acordo com a líder da “A-HCdP”, “o Porto é a cidade do trabalho – mas que trabalho, que força, que sofrimento, que vivências, conseguimos plasmar nesta estátua da autoria do escultor José Lamas a quem estamos muito gratos. Por tudo isto, podemos dizer que estamos felizes hoje! Todos conseguimos motivar, persuadir e organizar um movimento de cidadãos que nos ajudaram a não desistir! Porque vacilamos por vezes, perante tantas dificuldades e incertezas mas, conscientes e rigorosos, não nos distanciámos da “cousa começada.”

E, para Armindo Santos, “a missão está cumprida. Resta-nos pugnar para que esta Homenagem às Carquejeiras e ao trabalho da cidade do Porto, seja um exemplo a respeitar com dignidade. Queremos muito que exemplos como este, nunca sejam esquecidos, em prol da construção de uma sociedade mais humanizada, moderna e coerente nas suas convicções. Estamos certos de que uma cidade ou sociedade, que desconhece o seu passado, torna-se fútil e estéril… porque é do conhecimento do passado que se consolida o futuro”.

POUCAS PÁGINAS SE ESCREVERAM SOBRE A MULHER PORTUENSE E, MUITO MENOS, SOBRE A MULHER TRABALHADORA!

E a presidente da A-HCdP” aproveitou a ocasião para realçar algumas “notas de referência” na sua atividade:

“Posso dizer que no evoluir deste projeto, cresci mais, como cidadã ativa e atuante que sou; Constatei inequivocamente, quão importantes e úteis são os pequenos nichos e comunidades, como as Carquejeiras que proliferam na cidade e que muito contribuíram para o desenvolvimento da mesma; nesta panóplia de sentimentos, emoções, precariedade e miséria, ouvi a D. Valentina dizer calmamente, ”éramos felizes”… palavras que me deixaram incrivelmente suspensa! Agora, no séc. XXI, tudo temos e, andámos irremediavelmente perdidos; Verifiquei que poucas páginas se escreveram e escrevem sobre a mulher portuense, e muito menos sobre a mulher trabalhadora, por isso a “Associação – Homenagem às Carquejeiras do Porto”, cuidou delas, com o seu trabalho e teimou erguer uma estátua às Carquejeiras do Porto, pois o seu exemplo foi incomparável.

MÁXIMINA GIRÃO RIBEIRO: “HOJE A UTOPIA TRANSFORMOU-SE EM REALIDADE!

Outra das mulheres que abraçou esta causa, e logo de início, foi Maximina Girão Ribeiro, ela também colaboradora neste jornal, na cerimónia da inauguração da estátua, ou seja da Maria, foi emotiva nas palavras: “a todos os que acreditaram em nós; a todos os que contribuíram para que esta concretização tenha sido possível; a todos os que estiveram connosco nas múltiplas atividades que desenvolvemos; a todos os que nos incentivaram nos momentos mais difíceis; a todos os elementos que compuseram esta AHCP, meus companheiros de luta e trabalho, a quem dirijo uma palavra muito especial de reconhecimento pela disponibilidade constante, pelo empenhamento, camaradagem, interajuda e convívio amigável.”

Para aquela que foi, sem dúvida, o “braço direito” de Arminda Santos, “só com o cruzamento de todos estes itens, anteriormente referidos, foi possível concretizar este sonho que nasceu com a Arminda Santos – erguer uma estátua às mulheres carquejeiras, mulheres que silenciosamente foram construindo a sua história e a história da própria cidade. Mulheres que enfrentaram as adversidades de um tempo de miséria, fome, maus tratos,… Mulheres que eram vultos esquálidos vergados sobre a calçada, vencendo ventos e nevoeiros, enfrentando obstáculos, padecendo agruras e amarguras para poderem sobreviver e dar o pão a seus filhos”.

“A estátua agora inaugurada servirá”, referiu ainda Maximina Girão Ribeiro, “para que a existência destas mulheres trabalhadoras, que existiram no passado da cidade, não sejam esquecidas – é uma memória que fica para os portuenses de hoje e do futuro, assim como uma mais-valia para aqueles que nos visitam e que encontrarão mais um elemento patrimonial de indiscutível valor, da autoria do escultor José Lamas.

Hoje, a utopia transformou-se em realidade, tal como a frase de Fernando Pessoa: Deus quer, o homem sonha, a obra nasce!”

Depois, e por fim, veio o agradecimento a todos quantos estiveram ao lado do trabalho desenvolvido pela Associação, como foi o caso do “Etc e Tal jornal”, isto no final de uma cerimónia na qual estiveram presentes centenas de pessoas, com destaque, entre outros, para o professor Hélder Pacheco – apoiante desde o primeiro minuto desta associação -, José Manuel Carvalho, presidente da Junta de Freguesia do Bonfim – área onde se encontra colocada a estátua -, Manuel Pizarro vereador socialista na Câmara Municipal do Porto e eurodeputado, Ilda Figueiredo, vereadora da CDU na Câmara Municipal do Porto, e o Rancho Folclórico do Porto, encabeçado por António Fernandes, e que deu vida à cerimónia com alguns momentos musicais.

 

Texto: EeTj

Fotos: A-HCdP

01abr20

 

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