Menu Fechar

FURADOURO – AS TRADICIONAIS CALDEIRADAS E GRELHADOS AGUARDAM VOLTAR À MESA

Documentado desde 1354, numa composição entre o prior do Mosteiro de Grijó e um invasor da gelfa, feita em Cabanões a 5 de Dezembro, primeira colónia de pescadores de Ovar, grande porto de pesca na segunda metade do século XIX, capital, ainda há poucas dezenas de anos, do palheiro de pau a pique revestido até ao solo, o lugar do Furadouro é atualmente uma concorridíssima praia de banhos, além de dormitório da vila. (Prefacio de Alberto Sousa Lamy do livro O Furadouro, o povoado, o homem e o mar” de Lamy Laranjeira, edição da Câmara Municipal de Ovar, 1984).

José Lopes

(texto e fotos)

Ao contrário dos vários acontecimentos trágicos na terra e no mar, que se registaram ao longo dos últimos séculos de consolidação deste povoado ligado umbilicalmente à faina da pesca, como momentos históricos assinalados em monografias de vários autores. A paisagem natural e urbana do Furadouro, nestes tempos de “isolamento social” para combater uma pandemia como a Covid-19, que não conhece fronteiras e continentes. Mesmo com o brilho dos raios de sol refletidos no espelho do oceano, que convidam ao prazer de usufruir tal dádiva da natureza. Está inevitavelmente marcada pela influência global de um vírus que, impôs no comportamento humano, limitações drásticas (quarentena) na sua necessidade de saudáveis práticas de lazer e qualidade de vida, incluindo à mesa, com as típicas e tradicionais caldeiradas e grelhados proporcionados por ementas em que o peixe é a especialidade.

Visitar o Furadouro como fizemos dias antes de ser decretado o estado de calamidade no concelho de Ovar, foi um misto de alegria e tristeza, mesmo que, reconfortante por toda a beleza natural ali conjugada sem a podermos “açambarcar” para os tempos de “quarentena” que se seguiram. Um território do litoral que oferece uma longa mancha florestal e uma extensa praia de areia fina, servida por passadiços que, além de ajudarem a consolidar dunas, proporcionam melhores acessibilidades mais a norte e a sul das zonas balneares. Mesmo com a significativa evolução da inevitável redução da vivência social de banhistas, que durante décadas caracterizaram as áreas concessionadas e seus banheiros. Figuras típicas que ficaram na memória de quem aprendeu a conviver com a água do mar nos seus braços e que agora em recolhimento vêm à memória ao revisitar álbuns de família.

Com o popularizado percurso para caminhadas entre a cidade de Ovar e o Furadouro, numa linha reta de quase cinco quilómetros, entretanto valorizada pela nova ciclovia. O roteiro pedonal pode incluir uma paragem no Carregal junto ao canal da ria, ainda que de preferência em horas de maré cheia, o que tornará a paisagem bem mais paradisíaca com atividades de desportos náuticos e as bateiras coloridas dos pescadores que ainda resistem na faina, que outrora tinha as enguias como uma das espécies de peixe mais procuradas na laguna, de que resultaram especialidades culinárias como a caldeirada de enguias ou as irresistíveis enguias de escabeche.

Os petiscos que caraterizam a região da ria e do mar destacam-se em qualquer ementa dos restaurantes que têm a ria como paisagem natural, mas para quem está a meio de chegar bem juntinho do mar, o apetite, depois de concluir uma caminhada até á praia do Furadouro e descobrir no seu povoado a toponímica em homenagem à profunda relação de gerações com o a vida no mar, que desde 1974 identificou novos arruamentos ou ajustou a toponímia que vinha da Monarquia Liberal (1881-1910) e da época da Primeira República (1910-1926). Podendo assim encontrarem-se ruas com toponímia bem representativa do património humano, cultural e socioeconómico do Furadouro, entre as quais se podem destacar:

Rua dos Arrais

Rua dos Banheiros

Rua das Bateiras

Rua de Raúl Brandão

Rua Diogo Cão

Rua dos Chinchorros

Rua das Companhas

Rua Gil Eanes

Rua dos Escrivães das Companhas

Rua dos Mercantéis

Rua João Pedro Mijoule

Rua dos Moços do Chicote

Rua do Senhor da Piedade

Rua das Xávegas

Praça da Varina

Avenida dos Descobrimentos

Largo dos Pescadores

Mesmo com a malha urbana do povoado literalmente descaraterizada, com já raros exemplares de algum património arquitetónico marcado pelo tempo e pelo abandono, como foram os típicos palheiros construídos pelos pescadores, para fixarem as famílias junto ao mar que lhes dava o pão.

A paisagem natural com o mar como “pano” de fundo, e o tradicional vento de norte, ia refrescando os caminhantes que, quase em silêncio se tinham aventurado a não imaginar tão rápida evolução da necessidade de medidas mais restritivas. Nomeadamente das belezas de tal paisagem, que parecia refletir uma sensação estranha entre as pessoas que se cruzavam nos passadiços ou na Avenida Marginal e Avenida Central, com a múltipla oferta hoteleira e turística, que acaba por refletir o que vai acontecendo pelo planeta afetado por um surpreendente vírus, que provoca pânico, medo, desconfiança, afastamento social e felizmente em muitos bons exemplos, verdadeira solidariedade.

Ao apetite aberto pela própria maresia que se respira, assim que se chega ao Furadouro, em que não faltam típicos restaurantes especializados nas tradicionais caldeiradas e grelhados, com ementas influenciadas por várias espécies de peixe, como os populares chocos ou sardinha assada, que aguardam voltar à mesa, de preferência nas mesas ao ar livre, que habitualmente animam várias artérias e lhes dão vida, ainda que sazonal. Mas indiscutivelmente fundamental para um significativo numero de comerciantes que mantêm esta tradição, assando em plena rua.

O apetite limitou-se à capacidade imaginativa de, saborear recordações de tais bons e desejados momentos de prazer, na degustação de tais especialidades, que ficam também, na expectativa da capacidade de resistência deste património gastronómico. Assim se ultrapassem com sucesso as atuais dificuldades que obrigam por agora ao “confinamento social” na esperança de todas comunidades resistirem a um flagelo, que não ficará assinalado só numa monografia do Furadouro, mas da humanidade, desafiada a repensar muitos dos comportamentos.

 

01abr20

 

 

 

 

Partilhe:

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.