Menu Fechar

Isolamento social

Ana Costa de Almeida

Face a uma pandemia e a título de medidas preventivas e repressivas da propagação do vírus, muito se tem falado em distanciamento e isolamento sociais, como aconselháveis e exigidos, sendo tais expressões usadas também, inclusivamente, por governantes e responsáveis pela área da saúde, quando se dirigem à população.

O que, na verdade, se pretende é um distanciamento, ou mesmo um isolamento, físicos, o que, de forma alguma, se poderá confundir, ou sequer dar azo a que se confunda, com o que aquelas outras expressões muito mais, e além disso, significam e acarretariam. E, ademais, bem em contrário do que é desejável e do que se mostra necessário num eficaz combate comunitário e global à epidemia.

Falar-se em distanciamento e isolamento sociais propicia e incute a ideia de uma necessidade, e até imposição, de alheamento ou afastamento da sociedade e dos problemas nela vivenciados, e de segregação, de desprezo, para com os outros. Quando é, precisamente, o contrário o que se intenciona, sendo indubitavelmente indispensáveis maior atenção para com cada um de nós, união e solidariedade entre todos e para com todos, ainda que fisicamente isolados e, aliás, mais ainda se forçosamente sujeitos a esse confinamento.

Não estamos em tempos outros, há muito idos, em que se emparedavam vítimas da Peste Negra ou se votavam leprosos a isolamento, proscritos da sociedade por força da doença de que padeciam, assoladas que eram as mentalidades da época pelo terror da sua própria morte, a par de indiferença pela vida e pela dignidade humana dos demais, e num contexto completamente diverso do actual, em termos científicos e tecnológicos também.

O mundo está hoje globalizado e os cidadãos têm ao seu alcance, de forma generalizada e para uso regular, meios de comunicação e tecnológicos que lhes permitem não só acompanhar sempre o que se passa “em seu redor” e no mundo, como também permanecer ligados e estabelecer contactos com os outros por muitas e diversas formas, embora sem qualquer proximidade física.

Contactos e ligações, aqueles, que se revelam mais necessários e desejados ainda nestes tempos de medo e de angústia, em que ninguém deverá ser votado a estar só, em isolamento social, mantido ou deixando que se mantenha afastado por inteiro da sociedade, privado em absoluto do relacionamento com os seus próprios entes queridos e amigos, sem ter quem, afastado embora fisicamente, vá velando não só pelo seu estado de saúde física, mas também pelo seu estado psíquico e emocional.

Os tempos que correm, se aconselham e impõem um isolamento físico, exigem seguramente um esforço social colectivo, com comunhão de propósitos e de cuidados, uma maior atenção para com cada um e para com o próximo, com estreitamento e reforço de ligações e mesmo de afectos, e que se fomente e acalente o envolvimento de todos na resolução do problema vivido, para que se logre uma solução eficaz e global. Tudo isto ao invés de se induzir a população no que, de tão contrários e prejudiciais a isso mesmo, seriam a segregação e o isolamento sociais.

 

Obs – Por vontade da autora e, de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc eTal jornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.

 

Foto: pesquisa Google

01abr20

           

 

 

 

 

 

 

 

Partilhe:

1 Comment

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.