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Na companhia do essencial

Lurdes Pereira

(texto e fotos)

Isolamento social, quarentena, calamidade, estado de emergência. Ecoa repetidamente o nome de um virus que mudou a vida de toda a sociedade. Da nobre Igreja românica de Barrô, o Pároco da freguesia anunciou, ao altifalante, o cancelamento de todas as actividades de culto. É neste cenário caótico, ainda mal definido numa longa noite de nevoeiro, que olhamos o essencial das pequenas coisas e as grandes coisas que quase anulamos ao longo dos tempos.

No início tive a ligeira sensação que o ano não ia ser fácil. Andava com a paranoia da numerologia, e falava à Vivi, minha amiga que vive entre a cidade de Gaia e a aldeia de Frende, que este número não era bom porque tirando a prova dos nove podia anunciar algumas trevas no caminho. Vivi ria-se, mas ao mesmo tempo ficava pensativa e um pouco desconfortável, embora aceitando a condição da Natureza.

Andava eu entretida a fazer coleção dos lápis dos museus que visitava, registava as passeatas por montes e vales, cascatas, debaixo de chuva e sol. Imaginava lá eu, que um inimigo invisível ia atacar Portugal através da aproximação ou do tato e nos inibia da vida em sociedade. O certo é que nos isolou, afastou-nos das nossas rotinas e alterou os nosso hábitos.

Num ataque de pânico, desmarquei tudo o que havia agendado e deixei de sair, dentro do possível porque a facilidade a que fomos habituados dificultam a gestão dos bens essenciais.

Quase a entrar em stress alguém me disse: “Se fores ao supermercado traz papel higiénico, toda a gente compra papel, esgota em todo o lado”. (algum silêncio) Mas porque será? (Interrogava-se pensativa…) A gripe nem causa ranho!

Cá pra mim pensei: Ora, não acho que isso seja importante! A verdade é que ainda não há parras de videira, como fazia-mos antigamente, mas há papel nas esquecidas capas da escola, há lençóis velhos, trapos, até das meias rotas podia fazer um bom remedeio.

Para não entrar em parafuso, e não fosse o diabo tecê-las, enquanto alguns funcionários ainda tratam da empa na quinta, dediquei-me à horta. Arranquei erva, cavei terreno, criei epicentros de compostagem, semeei favas, salsa, coentros, tomate, abóbora e cenouras. Replantei os morangueiros, plantei tomateiros coração de boi e as alfaces que a Leonor me ofereceu.

Este ano há muitos caracóis! Pensei na hipótese de colocar vários recipientes de cerveja, mas nesta altura, para além de ser dispendioso, não deveria ser a melhor solução. Delimitei a bojuda fileira com a cinza recolhida da lareira, mas choveu! Arranjei vários tipos de ratoeiras para os caracóis, obriguei-me a delimitar, em cercadura, algumas culturas com pequenos pauzinhos e cêpas da poda. Mas nada é suficiente para impedir estragos dos cães cheios de energia que frequentam a quinta.

A Sissi gosta de se rebolar na terra fofa, faz grandes buracos para caçar as toupeiras e depois, os amigos Rex, Faísca e Boby também não fazem a coisa por menos. Correm, saltam, esteiram-se sobre os fios de junco. Preparei uns molhinhos de videira, aquilo a que popularmente chamamos “capões”, para melhor as proteger. Improvisei estufas e aproveitei para retirar a erva que circundava as tronchas já espigadas. Assim, sempre cairá a semente ao chão para um novo ciclo da espécie. Poupei as urtigas, ainda é possível que as utilize para fazer calda biológica e tratar algumas pragas impostas pelos novos tempos.

Uma batata grelada? Se a semear na terra naturalmente estrumada, quantas batatas produzirá? A planta está bonita, claro que está, mas ainda não floriu. O xuxu não para de crescer, está forte e adivinha-se a sua imponência na terra onde as jovens arrudas, oferecidas pela dona Carlota em Torre de Ucanha, e outras plantadas pelo António parecem determinar a bonança da pequena horta. Arrefeceu, não será muito bom para os pequenos tomateiros precocemente adotados no novo solo. Os garrafões que esperavam reciclagem assumem aqui um papel, não de arte como vi em tempos numa exposição na Algândega do Porto, mas como um efeito de estufa improvisada.

Repentinamente… Coitadas das singelas alfaces que hoje dei à terra! Esta súbita “pancada de água” que está a fazer cascatas em todas as inclinações vai afoga-las, certamente!

Embora mal conscientes da nova realidade, sabemos que tudo mudou. Na aldeia não me sinto só, não me sinto isolada, não me sinto de quarentena, nem com claustrofobia. Aqui sinto-me livre. Estou rodeada de plantas que querem ser bem tratadas para dar flor e fruto. Basta falar com elas através das alfaias ou acarinha-las com as próprias mãos protegendo-as dos inimigos. Estou rodeada de cães e gatos que só querem a refeição e um pouco de carinho. A estes, um olhar ou a linguagem gestual resulta na perfeição. Embora mantendo distâncias de segurança, tenho família que vejo todos os dias e notícias daqueles que estão ausentes. Sinto-me tão acompanhada que mesmo o Face book ou o telemóvel deixaram de fazer sentido na minha vida. Para já nada faz falta porque aqui sinto-me na companhia do essencial, na companhia da terra onde o velho alecrim anunciou o cancelamento de uma das mais importantes festividades da Igreja Católica.

Lamento não poder mostrar aos nossos leitores o resultado de todas estas experiências hortícolas, mas o meu desejo é que essa resistente e invisível erva daninha, essa pandemia que encurralou a sociedade acabe ainda antes das minhas tão desejosas colheitas.

01abr20

 

 

 

 

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