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Terra Renascida

Fernanda Ferreira

Ano 8045, pelo calendário juliano da Terra.

Algures, no infinito Universo, existia o Planeta do Nada.

Como o nome indica, nada existia no planeta, exceto um solo árido e um imenso oceano, tão salgado que nem as bactérias nele sobreviveram.

O solo, de um cinzento-antracite, era uma acumulação de detritos e poeira, como se tivessem despejado milhões de sacos de cinza. O silêncio era absoluto, quase sepulcral.

O Planeta do Nada era triste, mas nem percebia porquê. Não sabia a sua idade – que devia ser muita – e a sua tristeza não lhe permitia lembrar-se de alguma vez ter tido uma realidade diferente daquela. Já devia ter-se habituado, mas estava cansado dos incontáveis anos de silêncio e solidão.

Era maçador nada ter que fazer, para além de se deixar deslocar na sua órbita em torno da pequena estrela do seu sistema solar, perdido entre estrelas tão maiores, dessa grande estrada a que chamavam galáxia.

As outras estrelas observavam-no em silêncio, escondidas atrás da cortina da luz do dia e à noite piscavam-lhe os olhinhos cintilantes, pensando que isso o faria feliz.

Perante o insucesso, reuniram-se para tentar resolver o problema:

– Podemos cintilar com mais força e alternadamente para ver se, imitando as luzes de Natal, o fazemos feliz.

-E se fizéssemos uma chuva de estrelas para ele se entreter?

-E uma dança de raios de luz para ele se divertir?

-Podemos pedir aos cometas, com suas grandes caudas e belas cabeleiras, para fazerem um desfile. São tão atraentes, que ele deve apreciar.

E mais uma, e outra e mais ideias…, mas nenhuma resultava. Ao Planeta do Nada, nada lhe dava prazer.

Pensaram, pensaram, pensaram (que as estrelas quando querem também pensam) e tiveram uma ideia tão brilhante como elas:

-Vamos incidir todos os nossos raios sobre o Planeta e, assim iluminado, ficará visível pelos navegadores do espaço ou até pelos cientistas de outros planetas. Se lhe prestarem atenção, poderá ser que se interessem por visitá-lo e o estudar.

E se assim pensaram, assim fizeram.

Nessa mesma noite, o planeta, pardacento e sem graça, ficou resplandecente de luz, como se tivesse sido iluminado por milhões de holofotes em simultâneo.

Algures, numa longínqua estação espacial, os cientistas, intrigados pelo estranho fenómeno que fez com que um pequeno planeta ganhasse o brilho duma estrela, começaram a discutir sobre todas as hipóteses que justificassem a ocorrência.

Fizeram estudos com cálculos complicadíssimos e reuniões científicas, mas não chegando a resposta satisfatória, pensaram que seria fundamental agendarem uma missão espacial para, no próprio local, fazerem recolha de material para estudo.

Meses depois, pousaram no solo árido do Planeta do Nada, recolheram amostras e fizeram testes para análise dos gases componentes da atmosfera planetária.

Para sua surpresa, os resultados laboratoriais demonstraram que a atmosfera era favorável e, se houvesse chuva ou dessalinizassem água oceânica, poderiam ser bem-sucedidos no cultivo de hortas espaciais e, quem sabe, em povoar o planeta.

Analisadas todas as informações obtidas no sistema de inteligência artificial, a revelação que ele fez foi surpreendente:

O Planeta do Nada, que nesses milénios tinha sido por eles ignorado, era o Planeta Terra, tal como ficou após a sua destruição maciça, devido à poluição e guerras biológicas e nucleares. Também revelou que o homem, que com toda a ambição pelo poder, destruiu o planeta e, ironicamente, foi o responsável pela sua auto destruição.

Esses extraterrestres começaram a trabalhar afincadamente e criaram as condições necessárias para o cultivo, reflorestação e repovoação planetária.

Quando conseguiram realizar o que idealizaram, o Planeta do Nada voltou a ser feliz por ter o colorido e caraterísticas idênticas às anteriores à sua devastação.

Para que ficasse registado para memória futura, os extraterrestres construíram um monumento com a seguinte legenda:

 

Os homens, habitantes deste planeta uns milénios atrás, consideravam-se os únicos animais racionais da Terra, mas por inconsciência e ambição, destruíram toda a vida existente e, ironicamente, foram os responsáveis pela sua própria extinção.

  Ao darmos nova vida ao planeta e nele depositarmos a nossa esperança dum mundo melhor, desde agora, passaremos a chamar-lhe

 

TERRA RENASCIDA

                                                

 

 

01abr20

 

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2 Comments

  1. Fernanda Ferreira

    Muito obrigada, António, pelo seu comentário.
    Isto é ficção, mas tem por objetivo alertar para que temos de mudar de mentalidade e atitudes, porque estamos a deixar o planeta doente e em risco de acabarmos com os recursos que necessitamos para viver.
    Tenho esperança que agora, mais do que nunca porque estamos a braços com esta pandemia, fiquemos mais atentos as mudanças que temos de fazer, começando por cada um de nós.

  2. António

    Do nada, para, Renascida ? se nós por um dia.,a luz das estrelas iluminacem o nosso ser, todo o ser seria, outro ser ! E a terra do nada, não seria Renascida ! OBRIGADO PELA SUA PRESENÇA !

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