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Zé Castro: O “ignorado”!

António Duarte Lima / Tribuna Livre

Tive acesso ao edital publicado pela Junta de Freguesia da Foz do Douro e, posteriormente, às fotos publicadas no facebook.

No edital dizia, passo a citar: “A Medalha de Valor e Altruísmo destina-se a galardoar quem revele espírito de sacrifício, coragem e abnegação”.

Achei e acho que é um ato de justiça para com os filhos da Foz do Douro e que por esta, muito fizeram, muito bem esta atitude de um presidente que está em fim de mandato e vai tentar pregar para outra Freguesia.

Como bom filho da Foz que me prezo ser, li atentamente os homenageados, uns concordei, outros não. Reparei que no edital não falava da homenagem ao arquiteto Marques Aguiar, ao contrário de uma foto onde se vê uma senhora a receber a homenagem dada, julgo, que (a titulo póstumo) ao dito arquiteto, Marques Aguiar. Reli novamente o edital e, na verdade, não constava o nome do tal arquiteto, nem tão pouco conheço o nome como filho da Foz do Douro.

Sempre que estou em casa, em especial no computador, tenho um companheiro que está sempre a meu lado. È um pássaro com o nome de” Pony”, uma ave de uma inteligência que me deixa espantado, tão espantado que muitas vezes digo, esta ave é mais inteligente do que muitos ministros e presidentes de Juntas de Freguesias ou mesmo de Câmaras que eu conheço. É normal estar sempre no meu ombro quando estou em frente do computador a computar.

Depois de voltar a ler, reler e tornar a reler, senti que havia qualquer coisa que me estava a passar despercebida, não sabia muito bem o quê. A minha impressão era de tal ordem que comentei com o meu companheiro (Pony). – Aqui há qualquer coisa que não bate certo, o que será? Recebi como resposta: – Piuuuu.

Voltei com todas as minhas memórias atrás e comecei novamente a rever tudo e todos os filhos da Foz do Douro, e o que fizeram com espírito de sacrifício, coragem e abnegação. De repente fez-se luz, comecei a ver passar como se de um filme se trata-se, imagem sobre imagem, inclusive a minha. Mas houve uma, uma única. Zé Castro, era a minha incógnita.

Virei-me para o meu companheiro (Pony) e perguntei-lhe. És capaz de me dizer porque razão homenagearam este tal Marques Aguiar que eu não conheço e, serão muito poucos da Foz, se é que ele é da Foz do Douro, que o conhecerão (o que eu duvido, até acho que é da família do ministro Aguiar Branco) e não nomearam o Zé Castro, já há muito merecedor, por parte de quem de direito, a uma estátua, por tudo quanto fez pela Foz do Douro e por tudo quanto passou com a polícia política de então? Recebi como resposta do meu companheiro: Piuuu, Piuuu.

Era normal, pelo menos na Foz do Douro, quando se contava qualquer coisa em que a “bota não batia com a perdigota” dizíamos, piuuu. Queria isto dizer, vai aldrabar ao raio que te parta, ou então, não é bem assim, vai contar histórias a outro.

Foi assim que percebi que o presidente da Junta de Freguesia da Foz do Douro, esta sublinhado e escrito com letra pequena, demonstrando assim, o desprezo que tenho por este troglodita da política, pelos espantalhos de palha que a volta dele pululam, mais os políticos da assembleia de freguesia que mais nada fazem do que abanar as orelhas como os burros

Não foi esquecimento; não acredito, foi, isso sim, “ignorá-lo!”. Toda a Foz do Douro da minha geração, da geração dos nossos pais, e em muitos casos dos nossos filhos, sabem quem foi o Zé Castro, ele tinha um filho que era da minha geração, mais ano, menos ano, com ele muitos de nós brincou e acompanhou, na idade da adolescência já todos ou quase todos sabíamos quem era o sr. José Castro..

ze castro 01 - 01nov13

Zé Castro…

José Augusto de Castro.

Nasceu a 12 de Outubro de 1904.

Faleceu a 16 de Agosto de 1982.

Anarco-sindicalista, participou no plebiscito de 1933, preso político, aqui, na prisão da PIDE, sofreu torturas e cívicas de que resultou uma tuberculosa óssea, doença que o acompanhou até ao fim da sua vida e, com ele, sempre andou um colete especial para sustentabilizar esta enfermidade

Além de político, foi carpinteiro, funcionário administrativo, escritor, esperantista, animador cultural, bibliotecário e cooperativista.

Como escritor, escreveu o livro o “Mar dos Sargaços”. Foi fundador da “Cooperativa da Foz do Douro”.

Homem de bem, as gentes da Foz do Douro ficaram eternamente agradecidas pela fundação da cooperativa, gesto que foi eternamente reconhecido pelo carinho e respeito com que era tratado pelo povo da Foz.

Nesta época, as mercearias eram muitas, mas mesmo muitas, havia o livro dos “calos”, comprava-se 50 gramas disto, 100 gramas daquilo. Cinco tostões de rojões, dez tostões de manteiga, dois, três, quatro, etc., tostões de produtos de mercearia fossem ela qual fosse. Estes valores, hoje, não têm conversão em euros.

Não resisto em contar uma pequena história para igualizar o valor dos escudos nos anos 50 do século XX.

Tinha mais ou menos 10 anos, passo eu, vindo da praia, meu parque infantil, pela paragem do elétrico 17. Este elétrico parava quase sempre nas traseiras do ténis da Foz. Apesar de ir a caminho de casa, preocupado em inventar uma desculpa que conseguisse enganar a minha mãe quando me fizesse a revista e encontra-se salitre no meu corpo, reparei num papel verde que estava no chão, baixei-me apanhei o papel. Meus olhos quase saltaram cá do lugar a onde se encontram, não queria acreditar no que tinha achado, vinte escudos!

Olhei em volta não estava ninguém, aquele dinheiro era meu por direito de achador. Corri para casa tipo Zotopec, nem a preocupação de ter salitre já me incomodava. Esbaforido entrei em casa e aos gritos comecei a dizer. – Mãe… mãe, estamos ricos. – Mostrei a nota de vinte escudos, a seguir veio o interrogatório, (pobre mas muito honrada) a onde, como, quando, com quem.

Só depois de ter a certeza que aquele dinheiro nos pertencia, perguntou-me: -Toninho o que é que queres? Respondi – Mãezinha queria um bife e batatas fritas. Ela fez-me a vontade e pela primeira vez comi (naquela época) um manjar dos Deuses.

Conto esta história verdadeira por três razões:

1º- Vinte escudos na época era muito dinheiro para quem não tinha quase nenhum com uma vida de muito trabalho mas impossível de juntar este valor.

2º- Hoje, 10 cêntimos de um Euro (os tais vinte escudos do tempo do Zé Castro e que eu disse que estava rico) não valem nada.

3º – Foi com parte desse dinheiro que a minha mãe foi investir em mercearia na Cooperativa da Foz do Douro, fundada por este grande homem de seu nome, José Augusto Castro, para o povo da Foz do Douro o Sr. Zé Castro.

A cooperativa inicial, ficava situada no Largo do Paraíso, depois mudou-se para o Passeio Alegre. A seguir foi para a rua da Cerca e teve instalações recreativas na rua da Senhora da Luz.

Todos os produtos eram bem mais baratos do que em qualquer outra mercearia. Aqui havia honestidade, mas não havia livro de calos.

Nos primórdios da sua fundação e durante muitos anos a cooperativa era, também, uma espécie de ação social. No Natal, fazia a minha felicidade e a de muitos outros. Distribuía brinquedos aos filhos dos associados. Únicos brinquedos a que eu tinha direito no Natal.

Igualmente havia entretenimento, com projeções de filmes do Bucha Estica, e do Charlot, dia tão diferente, dos 365 dias do ano para gáudio e felicidade da petizada, tudo isto proporcionada por um homem disposto a lutar por uma vida mais justa e mais fraterna, o Sr. Zé Castro.

Edifício da ex-PIDE. Hoje: Museu Militar do Porto
Edifício da ex-PIDE. Hoje: Museu Militar do Porto

Ainda criança aprendi a ver e respeitar este homem que passava diariamente frente à minha casa, “na minha rua”.

Caminhar calmo, tronco bem erguido olhando o mundo bem de frente, sem medo. Impunha respeito o seu porte, esboçava um sorriso sempre que alguém passava por ele e respeitosamente o cumprimentava: – Bom dia Sr. Castro – com um sorriso que aflorava no seu rosto, com um ligeiro inclinar de cabeça, respondia: – Bom dia.

Muito raramente parava para conversar com um amigo, imperava nele o bom senso de não querer comprometer quem, com ele estivesse parado a conversar. Sei há muito tempo o porquê. Perseguido pelos esbirros da PIDE, não queria, de forma alguma que os amigos ou outras pessoas, viessem a sofrer consequências por estarem a conversar com um “ renegado” político.

Homem de grande caráter e de cuidados reforçados com a sua sagrada família.

Eu, ainda menino, sem saber nada da vida, perguntava à minha Mãe: – Mãe, porque é que o Sr. Castro tem um ombro mais acima e o outro mais abaixo? – A esta pergunta tinha sempre e invariavelmente duas respostas; silêncio, ou então um: – não sei meu filho, se calhar caiu e magoou-se. Estas respostas eram o medo, medo da PIDE, o medo de ter que falar do que não entendia.

O Sr. Zé Castro foi progenitor de duas filhas, Dina e Vera, mais velhas do que eu e, de um rapaz, o Zezito, mais novo do que eu talvez… uns dois anos. O Zezito foi um dos muitos amigos de infância e foi através dele que compreendi o porquê da minha mãe responder umas vezes com o “silêncio”, outras vezes, o “não sei, talvez tivesse caído”.

Rapaz travesso quanto chegasse, esperto, conflituoso com a policia, contestava a prepotência desta mesmo nas nossas brincadeiras, ou então sempre que estávamos em grupo a conversar normal, passava o policia e com a arrogância que era característica da policia da época (hoje já começa a ser igual) e dizia: – Toca a circular, isto é um ajuntamento, circular, circular.

– Estas palavras faziam com que o Zezito resmungasse com o polícia, a conversa ficava azeda e só acabava quando o polícia ameaçava com uma ida à esquadra. Aqui, começávamos a empurrar o Zezito até ficarmos bem longe do polícia e íamos conversar para um local sossegado.

Porque o Zezito era assim? Eu não tenho a menor dúvida que era os genes herdados do pai. Foi nestes conflitos que fomos sabendo quem era o Sr. Zé Castro, o porquê do ombro mais acima e o outro mais em baixo. Claro que não sabíamos pormenorizadamente qual era o real problema e o Zezito, na época, também não deveria saber. Soube-o agora através da sua neta, Manuela, que chora, quando se fala no mal que fizeram ao avô e ao esquecimento em que o colocaram, e colocam. Também eu choro, por tanta injustiça.

Foi na figura do Sr. Zé Castro e por uma experiência minha que eu comecei a não entender algumas coisas, entre elas; a violência da polícia e a diferença entre as pessoas.

Hoje sou eu a falar o pouco que sei do Sr. Zé Castro, no futuro outros falarão muito mais da história de vida deste grande homem que honrou o seu nome, o da sua família e o povo da sua Foz do Douro, quem sabe se um dia não iremos ter um Presidente de Junta de Freguesia que vá aos arquivos de história moderna portuguesa fazer um estudo aprofundado das gentes que tudo deram pela sua Foz do Douro.

Se tudo quanto este homem “ignorado” fez não foi um ato de altruísmo de grande risco, reconhecido valor, excecional relevância e projeção, então o que se pode chamar a isto?

Por favor expliquem-me.

 

01-nov-13

 

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2 Comments

  1. Maria Helena Ribeiro

    OBRIGADA. Obrigada meu amigo pelo sentido de justiça e gratidão que mostras em teu carácter.
    DUARTE LIMA, LOURDES DOS ANJOS, dois nomes a fixar, pois são pessoas que atiram pedras ao charco de lama e lodo que é este nosso País, par o agitar e vir ao de cima tudo o que vai ficando enterrado.
    Bem Hajam.

  2. Lourdes dos Anjos

    muito obrigada DUARTE LIMA por partilhar com os leitores do ETCETAL esta e outras estórias que , de certeza , se vão seguir.Elas são as pedras com que fazemos aos poucos os nossos alicerces de vida.E O PORTO AGRADECE

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