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Reforma estrutural: Trabalho cívico para quem está nas prateleiras!

António Dores

No século XIX fazia furor o idealismo hegeliano, como uma explicação da Revolução. O encontro entre uma ideia de progresso e uma onda de entusiasmo popular reuniu, singularmente, o mundo das ideias e o mundo da acção social, unificando-os como uma bomba atómica.

Tocqueville referiu-se ao mesmo (a Revolução Francesa), falando da paixão democrática dos povos e dos seus perigos (o despotismo, que é uma forma surpreendentemente metafórica para designar o Terror). Chamou a atenção para que as coisas podiam correr mal. A liberdade, concluiu, é mais difícil de criar e de manter do que a igualdade.

Herdeiro do hegelianismo, Marx entusiasmou-se com o comunismo: não como utopia mas como processo de transformação social. Queria que se continuasse o trabalho da Revolução, até que efectivamente todos fossemos iguais em direitos. Incluindo direitos económicos.

comunismo sovietico

Na prática, a revolução tornou-se uma utopia (do comunismo num só país) e o entusiasmo vivido no século XX transformou-se em profunda decepção. O terror, o despotismo, o estado soviético, não chegaram para fazer a igualdade vingar. Que venha a liberdade, então, reclamaram os povos do Leste europeu e da China. Que a social-democracia, a conciliação entre interesses contraditórios de exploradores e trabalhadores, vença.

Infelizmente, os herdeiros de Tocqueville aproveitaram a sua vitória na Guerra Fria para fazer com a liberdade o mesmo que fizeram os comunistas com a igualdade: encarceraram-na em oligopólios de gente escondida atrás de parlamentos-mercados, paraísos fiscais e jogos de guerra.

Actualmente, Portugal reclama saber de que modo as solidariedades esotéricas de alguns alapados ao poder de estado se pôde transformar em roubos institucionalizados, como no BPN, no BCP, no BES, na REN-Galp-REFER do caso Face Oculta e um pouco por todo o lado. Esse segredo, porém, não pode ser desvendado por três razões: a) está à frente de todos e é da experiência quotidiana – não queremos é ver para não termos de tomar uma atitude; b) os trabalhos e os riscos de denúncia das vigarices é um risco sistémico: que o digam pessoas como Paulo Morais, perseguidas pessoalmente por delito de opinião; c) se as autoridades judiciais e policiais pudessem investigar a origem dos crimes financeiros encontrá-la-iam no evidente e notório desrespeito generalizado pela lei que vigora no sistema político.

Por isso – lembram-se? – no mesmo dia em que Passos Coelho se lembrou de anunciar uma auditoria às contas do estado de Sócrates a Merkel mando-o calar. E ele e todos nós nos calámos, obedientes. Fechando o ciclo da vigarice organizada ao mais alto nível, de que falava João Cravinho – com conhecimento de causa – dos riscos de perseguição de quem se atreva a dizer que o rei vai nu e, desse modo, se obtém um quotidiano acarneirado de gente enojada mas colaborante.

espirito do povo

Deixou de ser possível ouvir notícias e noticiários. Os protestos multitudinário foram feitos. Mas sem consequências. Os representantes partidários e os comentadores dizem que compreendem as pessoas. Mas continuam a fingir que isto é uma democracia. Ninguém entende como não há uma revolta: todos olham para o lado, ouvem o ranger de dentes, mas nada. Será que ainda vive alguma coisa dentro de nós? O espírito do povo é uma memória encerrada na Grândola, Vila Morena.

Meio milhão de jovens abandonou o país. São hoje gente sem pátria, a viver para quem lhes pagar a sua vida profissional. Condenados, como todos os migrantes, ao isolamento e à discriminação. Um dia há-de aparecer-lhes o secretário das Comunidades a pedir dinheiro. A história mostra que voltarão se isto mudar. Não antes.

Já não há reis a quem cortar a cabeça. Só há hidras de que nós próprios somos os tentáculos. Lá que as cabeças enlouqueceram, quem duvida? Mas que os tentáculos continuam a trabalhar, também é verdade. Imaginem que abandonávamos o nosso lugar na sociedade e na actividade que nos está destinada. A hidra ficava só cabeças. Mas cada um de nós ficava reduzido a mero cogumelo perdido no chão da floresta (como já acontece aos milhões de pobres a viver em Portugal e na Europa – oficialmente cerca de 20por cento da população, sobretudo mulheres e crianças).

A democracia seria termos a possibilidade de trabalhar para nos organizarmos, os 99 por cento que não cabemos na utopia neo-liberal. Fazê-lo sem ameaças de guerra dos nossos próprios representantes, ciosos da sua partidocracia. Autorizados pelos patrões, pelos sindicatos, pelas escolas, pelos centros de emprego, pelas autarquias, pela Igreja, a pensar pela própria cabeça, a reclamar os direitos que já temos e outros que nos pareçam necessários. Não só em Portugal, mas também no mundo.

seitas secretas

Eis a minha utopia: um processo democrático em que os imbecis que mandam – aqui e na UE – permitiriam que os estudos, os trabalhos, os vizinhos, as instituições do estado, quem quisesse apontar processos corruptos, abusos de poder, humilhações pessoais, arranjos de seitas secretas, tivesse possibilidade de o fazer abertamente. Não como denúncia à polícia mas como compromisso pessoal de verificar a verdade ou falsidade das suas suspeitas, como profissional ou como cidadão, tendo acesso à informação que entendesse pertinente. Os cidadãos deviam ser pagos, como se faz com as empresas de auditoria, para aprenderem como é possível existir tanta vigarice exposta aos nossos olhos. (Se assim fosse, quem não seja competente, poderia pagar a quem o seja para tratar do assunto por si).

De onde viria o orçamento para isto? Fácil: dos reguladores. E dos pagamentos de serviços às empresas de advogados que fazem legislação obscura que depois vendem para fabricação de engenharias financeiras.

Como iniciar uma tal reforma imediatamente? Fácil: identificar todos os que estão em prateleiras e encarregá-los de descobrir o que raio os prende à inactividade forçada (e ilegal). Como numa guerra, abram-se mesas de recenseamento para emprateleirados e organize-se a sua acção em conjunto contra os seus inimigos (ou antigos amigos). Que são os nossos.

 

Por vontade do autor, e de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc eTal jornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.

 

 

Fotos: Pesquisa Google

 

01nov/dez14

 

 

 

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