Menu Fechar

Às voltas e etc e tal…

José Lopes

No sábado (5 novembro) à tarde, na agenda tinha uma reunião de colaboradores do jornal Etc e Tal.

O destino no transporte de comboio a partir de Ovar, foi Porto/Campanhã (menos 10 cêntimos do que ir para São Bento), com a convocatória para o café/restaurante Rainha Santa, junto à saída do Metro do Heroísmo. Um ponto de referência que à partida não estava a identificar para iniciar a procura que gosto de fazer e sempre privilegiei nas caminhadas pela cidade do Porto sem mapa ou GPS.

Ao contrário de Lisboa em que sempre me senti mais à vontade a situar-me na orientação por estre as sete colinas, como resultado de diferentes vivências nesta cidade do Sul, fosse pelo tempo de tropa, como em diferentes atividades e exercício de cidadania ou agora por razões familiares.

Só mesmo uma característica teimosa intuição, uma vez que habitualmente a referência para as atividades do jornal em que já participei são o Bonfim, acabei por sair da estação dos comboios em linha reta pela Rua de Pinto Bessa. Uma opção que me levou no sentido contrário ao que seria tão mais perto caso não me precipitasse no rumo para o Heroísmo.

igreja-do-bonfim-6-01dez12

Chegado ao cimo da rua, com a Igreja do Bonfim ali ao lado e perante uma encruzilhada, sem pistas concretas para ter garantia de não perder o tempo que trazia a mais, obriguei-me então a “troco” de uma bica, a perguntar onde ficava a saída do Metro do Heroísmo. Estava assim num ponto em que tinha feito uma longa caminhada sempre a subir, o que me obrigou a descer por uma outra, a Rua António Carneiro, desde aquele cruzamento até à Rua do Heroísmo, uma caminhada em linha reta tal como tinha sido a subida.

Lá estava a procurada saída do Metro do Heroísmo e assim estava também identificada a zona, afinal bem mais perto da estação da CP/Campanhã, do que a volta que tinha dado na qual acabei por ter a possibilidade de observar um grande painel de azulejo em que se lia, “Não há nenhuma cidade, assim, que subitamente se não torne secreta”, Eugénio de Andrade. Um encontro com um espaço de homenagem literária ali mesmo ao lado da escola EB 2,3 Doutor Augusto César Pires Lima, que acabou por compensar este andar às voltas entre Campanhã e Bomfim.

azulejos-pires-de-lima

Feito este percurso a mais, mesmo assim, era cedo para a reunião do jornal, cujo local estava agora devidamente localizado, incluindo o espaço comercial em que se realizava, o que permiti-o aproveitar o resto do tempo a calcorrear um pouco mais a área.

Sem objetivos concretos de visita ou pesquisa cultural a atingir numa freguesia operária recheada de memórias sociais, culturais ou do património arquitetónico e religioso.

Nesta caminhada limitada ao aproximar da hora da reunião de trabalho do jornal, para um contacto pessoal com quem dá vida ao Etc e Tal com a sua colaboração em diferentes áreas. Entrei entretanto pela Rua Barão Nova Sintra com a mera curiosidade de observar um pouco mais da malha urbana umbilicalmente ligada à Rua do Heroísmo.

colegio-barao-de-nova-sintra

Com o Rio Douro ali ainda fora do alcance de visão, deparei-me sim com um pedaço da tal cidade “secreta”. Deambulando pela Rua Barão Nova Sintra e pela Travessa e Calçada de Nova Sintra, fiquei com a sensação que para lá de longos muros antigos existiria algo de rara beleza naquele lugar afastado da azafama do trafego da cidade. Mas o tempo era curto e os compromissos do dia não eram de passeio ou turismo. O que não permitiu conhecer este Porto, como “uma cidade que possui alguns lugares quase secretos que nos dá imenso prazer descobrir”.

Lugar em que está localizado o Parque de Nova Sintra, com uma área verde de mais de 68.000 metros quadrados, que noutros tempos foram os jardins de uma quinta pertencente à família britânica Reid. Um património paisagístico na margem direita do Douro, que foi adquirida pela Câmara Municipal do Porto que para ali transferiu vários brasões, chafarizes e fontes da cidade que deixaram de desempenhar a sua função no abastecimento de água às populações, bem como a sede da Águas do Porto.

comboio-campanha

Azulejaria na freguesia do Bonfim (Porto)
Azulejaria na freguesia do Bonfim (Porto)

O desejo de descobrir verdadeiramente este Parque de área verde tão acessível à Estação da CP de Campanhã, teve que ficar para outra oportunidade, mas ficou o prazer da descoberta de um espaço a visitar, assim o seu estado de preservação não desiluda, como de certa forma ao longo da caminhada por este roteiro improvisado me deparei e registei com o prático telemóvel algumas dicas desta aventura, nomeadamente, uma bela padronagem azulejar ao abandono. Enquanto logo a seguir, num acesso designado como Rua Particular de Novais da Cunha, me confronto com um fantástico miradouro, em que se pode apreciar a paisagem do Douro a montante de zona ferroviária de Campanhã em que os comboios surgem lá ao fundo, de e para o túnel que faz ligação à Estação de São Bento.

centro-comercial-stop

De regresso à Rua do Heroísmo, o tempo que restava ainda permitiu caminhar um pouco mais e olhar com estupefação, para um impressionante edifício decorado por manchas multicolor, com que certamente procura sobreviver urbanisticamente numa rua já de si enegrecida pelo tempo e pelo intenso trafego que descarateriza, mesmo as já degradadas fachadas azulejares entre a diversidade arquitetónica desta rua em que se localiza também o Museu Militar.

virginia-moura-busto

Uma paisagem urbanística recheada de contrastes e no caso deste edifício, ali encaixado de forma pouco harmoniosa arquitetonicamente ao ponto de “morrer” com uma idade muito jovem relativamente aos seculares edifícios que, em igual estado de degradação, resistem sem esta estranha maquilhagem colorida, com sua beleza arquitetónica contemplada ao fundo pelo Largo Soares dos Reis, em que sobressai num “canteiro” verde com bancos de jardim, a homenagem à antifascista Virgínia Moura (1915-1998) “A Vida, Uma Luz. A Longa “Noite de Pedra”. Palavras em memória e de homenagem “À Mulher, À Cidadã, À Grande Lutadora pela Liberdade”, lê-se no local do seu busto.

E assim cheguei leve reconfortado numa tarde de sábado que não perdi bem pelo contrário, à reunião do Etc e Tal jornal, como um projeto de comunicação social independente, que não depende de grupos económicos, mas sim, do entusiasmo e dedicação dos seus colaboradores e naturalmente do profissionalismo de jornalistas como o seu diretor, José Gonçalves, um veterano destas lides da imprensa sem amarras.

Estava assim cumprida mais uma tarefa desta longa caminhada de intervenção e exercício de cidadania ativa, em prejuízo eventualmente de várias outras que vão preenchendo e ocupando agendas durante estas décadas de vida de causas, exigindo respostas de disponibilidade em função de prioridades e naturais motivações.

Fotos: José Lopes e António Amen (igreja do Bonfim – Arquivo)

01dez16

 

 

Partilhe:

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.