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O fascismo nunca existiu

António Pedro Dores

Em Lisboa, a sede da Pide foi restaurada porque a memória da nossa história é para esconder. O condomínio fechado, ironicamente, usa os muros da vergonha para proteger a privacidade de quem pode pagar o seu isolamento seguro dos perigos da rua. A moda pegou. Nos anos 80, os condomínios fechados eram coisa da América do Sul. Forma de lidar com extremas desigualdades sociais.

Hoje, na América, depois da Polónia e da Hungria, da Ucrânia e da Turquia, também na Inglaterra, na França e na Alemanha: trampa. Não é fascismo. É trampa. Funcionalmente é a mesma coisa dos regimes que ofereceram aos povos a volúpia da vingança para se redimirem das suas vidas e empregos de merda. Culpar desesperadamente o outro, os estrangeiros, sem perceber que se culpavam e enterram, de facto, a si mesmos.

Foram Mário Soares e Freitas do Amaral os primeiros a avisar o que significava a política de George W. Bush. Por 2002. Foram recebidos como os velhos do “Puppet Show”. O fascismo nunca existiu. Muito menos nos EUA.

A notícia recente da solidariedade entre Francisco Assis e Manuel Alegre surpreendeu os leitores. Ambos estão contra o forte de Peniche ser descaracterizado a pretexto de passar a ser afecto à função turística.

Maria de Lurdes Rodrigues
Maria de Lurdes Rodrigues

Não Apaguem a Memória!, movimento cívico que trabalha para o reconhecimento do valor simbólico dos locais de tortura, porém, não tem sido suficiente para sensibilizar todos agentes políticos. Ao eleito pelos comunistas em Peniche parece-lhe – logo agora!? – que a memória das miseráveis condenações por delitos de opinião à tortura não merece respeito. Logo agora que o movimento para a libertação de Maria de Lurdes Rodrigues, artista presa por reclamar durante anos contra a corrupção e a injustiça de que foi e é cada vez mais vítima, descobre que há 150 pessoas presas em Portugal por delito de injúria.

Uma sentença que impôs à condenada o auto-reconhecimento de uma doença mental (que a existir, justificaria a sua impunidade) contra, caso não o fizesse, uma pena de prisão efectiva, que se veio a concretizar.

A defesa da Liberdade fica-se pelas covas perante a urgência de fazer dinheiro? Não! O que há é uma escolha política e social de fazer dinheiro contra a afirmação da defesa da Liberdade. Trocar liberdade por segurança, como também se diz.

O actual caldo de cultura, uma espécie de revolução cultural permanente para esquecer o que já fomos e para que possamos continuar a ser – quando nos dá jeito – aquilo que não deixámos de ser, não é próprio de Portugal. É uma vertente da cultura global, animada por políticas do medo que têm recoberto a subversão da democracia. Justamente quando se verifica um consenso político muito alargado a favor desse modo de organizar a política.

Subversão muito evidente na condenação da UE (galardoada pelo Nobel, lembram-se) por actos contra o direito internacional e os direitos humanos dos refugiados.

UE que transige com regimes anti-democráticos dentro das suas fronteiras, e se organiza para construir muros por todo o lado, alia-se de facto com a Turquia e reclama platonicamente contra a construção da brutal ditadura.

fundamentalismo-religioso-nov16

A crise financeira e a obsessiva repetição hipnótica de justificações económicas maradas servem para produzir a ignorância sobre aquilo que devia ser o nosso património memorial. Social, político e bélico. Resta-nos os fundamentalismos, religiosos, ideológicos, filosóficos, académicos, que tem estado a crescer de influência e poder. A começar, há que reconhecê-lo, na aliança entre os fundamentalismos judaicos e cristãos, nos EUA e na Europa, que fazem de Gaza a maior prisão de céu aberto do mundo, a situação no Médio Oriente um barril pólvora permanentemente cercado pelas mais poderosas forças armadas do planeta, sem vergonha de estarem montados num regime confessional de apartheid.

Claro que são terríveis os actos terroristas perpetrados por muçulmanos. Serão de louvar as execuções extrajudiciais por drones? Claro que é horroroso ver Alleppo. Serão de louvar o saque do Iraque e a destruição da Líbia? Claro que há interesses petrolíferos e a economia moderna depende do extrativismo. Isso justifica a destruição da Nigéria ou do Sudão?

As religiões, claro, não caem do céu. Os fundamentalismos, como o crescimento das influências das organizações de extrema-direita, são formas de afirmar a dignidade de pessoas expropriadas das suas memórias, perdidas num mundo que não lhes parece o deles. E, de facto, não é. A democracia tende a minimizar as possibilidades de as pessoas serem abandonadas aos respectivos desesperos. Mas temos que convir que as democracias reais se têm comportado de modo a desesperar os próprios democratas, como o Alegre e o Assis. E desarmar as memórias de Mário Soares e Freitas do Amaral.

Fotos: Pesquisa Google

Obs: Por vontade do autor, e de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc eTal jornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.

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