Menu Fechar

À Palavra com tradição reiseira

O evento literário À Palavra promovido pelo Museu de Ovar e coordenado pelo escritor Carlos Nuno Granja, teve no dia 29 dezembro à noite a marca de um novo registo ao dar voz a uma das mais belas tradições de Ovar, como é o característico Cantar dos Reis.

Um À Palavra muito especial realizado na Sala dos Fundadores em que estiveram expostas as 50 capas da Revista Reis editadas entre 1967 e 2016, que foram o mote para a última edição desta tertúlia que assim se associou às Comemorações dos 50 anos da Revista Reis já com o n.º51 (2017) acabado de sair da gráfica, como elemento indissociável da Trupe JOC-LOC que faz questão de assim se apresentar ao contrário da típica designação Troupe de Reis.

reiseiros-jl-00

Um ambiente reiseiro a que o Museu de Ovar abriu portas, para uma entusiástica conversa sobre, não só o património que representa a muito antiga tradição do Cantar dos Reis que ali foi levado pela Trupe JOC-LOC, na abertura da sessão apresentada como o seu último ensaio para a longa caminhada pelas noites frias a transmitir as suas mensagens através de letras do padre Manuel Pires Bastos e músicas de António Covas. Mas sobretudo do papel que desempenha a Revista Reis, que como diria um dos seus colaboradores, Fernando Pinto, “é um produto cultural de muito valor”.

reiseiros-jl-01

Com moderação de Carlos Nuno Granja e as breves palavras de apresentação do diretor do Museu de Ovar, Manuel Cleto, os convidados na mesa para falarem do tema reiseiro, Maria Luísa Resende, padre Manuel Pires Bastos e João Costa, foram partilhando com uma plateia muito familiar com todo este ambiente reiseiro, os 50 anos da Revista Reis e as muitas histórias e momentos que deram origem ao próprio surgimento da Trupe JOC-LOC. Temática que fez recuar aos primórdios deste património reiseiro e à sua evolução até aos dias de hoje, em que se destaca nesta tradição em Ovar, que o padre Bastos, realça ser, “muito especifica”, o facto de ao contrário dos tempos de Alves Cerqueira e António Dias Simões da Troupe dos Velhos (1893), que faziam letras adaptadas a melodias, “as letras hoje são mais elaboradas e estilizadas” referiu este reiseiro que se apaixonou pelas gentes de Ovar e suas tradições, desde que procurou nas águas do mar do Furadouro cura para ferimentos nas pernas.

reiseiros-jl-02

Ao desafio inicial de Carlos Granja sobre, “por onde andou a Revista por estes 50 anos?”, as intervenções sucederam-se durante uma animada noite recheada de calor humano, transmitido por testemunhos de muitos colaboradores da Revista Reis ali presentes e que com quem o moderador foi interagindo neste participado À Palavra que homenageou a obra reiseira que representa a Revista Reis da Trupe JOC-LOC, que teve como fundadores, Luís Amador, José Casaca, João Costa e o artista plástico Emerenciano, autor de significativo número de edições, incluindo as mais recentes, como as que assinalam o meio século da Revista.

reiseiros-jl-03

Sobre o artista Emerenciano, Luísa Resende destacaria as expressões artísticas de cada opção de capas, em que, “eramos captados de imediato para temas centrais”, que “sempre nos surpreendem e merecem reflexão”, acrescentando nesta sua abordagem às ilustrações das capas que, “na arte moderna às vezes parecem imagens grotescas, mas propõem-nos reflexão de temas como a violência e o caos…”. Esta ex-professora na mesa ao lado do seu ex-aluno no ensino primário Carlos Nuno Granja, que partilhou a sua paixão pela tradição reiseira através da colaboração na Revista, ainda referiu a propósito do desemprego e da precariedade, que, “a capa deixa alguma esperança alternativa”.

Como lembrou João Costa, a Revista Reis “surgiria oito anos depois da formação da Trupe JOC-LOC, na sequência do desaparecimento da Troupe Comércio e Indústria”, memórias deste pioneiro reiseiro, que assim, e ao ficar sem Troupe de Reis para cantar, no ano de 1959 dinamizou o aparecimento de nova troupe que viria a afirmar-se através da Trupe JOC-LOC como um emblemático representante do valioso património da tradição reiseira em Ovar, que em conjunto com várias outras Troupes de Reis percorrem esta empolgante caminhada ao frio ou à chuva até dia 6 de janeiro na grande Noite de Reis.

reiseiros-jl-04

Foram várias as figuras reiseiras de diferentes épocas, lembradas pelos diferentes intervenientes neste À Palavra, cujo indispensável recurso de memórias escritas em papel para guardar com dignidade tantos nomes que se dedicaram a esta centenária tradição continuada por tantas outras gerações, só poderia ser a própria Revista ali como tema de conversa e em que era inevitável destacar Amélia Dias Simões e a sua família.

Entre os presentes no À Palavra reiseiro encontrava-se o musicólogo Jorge Castro Ribeiro, da Universidade de Aveiro, que coordena a candidatura do Município de Ovar para que o Cantar dos Reis em Ovar seja reconhecido como Património Imaterial Nacional. Candidatura que segundo o vice-presidente da Câmara Municipal de Ovar, Domingos Silva, também presente, “já foi submetida”. Das palavras dos autarcas, como Bruno Oliveira, presidente da UFO, destacaram-se o reconhecimento do trabalho desenvolvido no Museu de Ovar e sobre o tema do evento, Domingo Silva, também antigo reiseiro não hesitou a considerar a Revista como “um documento da nossa história local, do passado e presente”.

Texto e fotos: José Lopes (*)

(*) Correspondente “Etc e Tal Jornal” em Ovar – Aveiro

01jan17

 

 

 

 

Partilhe:

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.