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Escolas, lugar de caridade

António Pedro Dores

As escolas já servem para aprender, para ensinar, para educar. Deviam servir, segundo alguns, para garantir emprego ou, ao menos, empregabilidade. Nos últimos anos servem também para o exercício da caridade: o contrário das finalidades da escola.

No estádio universitário de Lisboa, o costumeiro cabaz natalício deixado na portaria para os utentes poderem encher com dádivas, este ano ostentou a palavra de ordem: “18 escolas, 18 ajudas”.

Presume-se que são escolas públicas onde crianças pobres frequentam a educação obrigatória e gratuita. Mas muitas não tem que comer. Foi notícia: durante as férias escolares, as escolas mantêm as cantinas abertas para que essas crianças possam continuar a alimentar-se no período em que não há aulas. Estima-se que isso beneficia 1/3 das crianças.

Beneficia? Ou garante que a igualdade de oportunidades não é finalidade do estado ou da sociedade? Garante que pelo menos um terço das crianças não irão competir por empregos decentes, nem participarão nas tarefas cívicas dos lugares onde viverão. Garante subordinação e subserviência por décadas em devir, com agradecimentos sentidos aos que se forem dispondo a ajudar à sobrevivência daqueles que, de crianças, aprendem a viver da caridade.

Não são só os caciques que vivem disso. São também o analfabetismo, o clientelismo, o moralismo, a estigmatização, o securitarismo, a discriminação, as políticas assistenciais, etc.

A federação dos bancos alimentares denuncia a retenção de verbas europeias para ajuda alimentar. Queixa-se de falta de subsídios para o negócio de reduzir custos das empresas a pretexto de matar a fome dos pobres. O ministro respondeu que as verbas serão usadas até ao fim da vigência da sua validade, após uma reorientação das políticas do governo.

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Todos entendemos a controvérsia partidária que divide o chamado sector social. Os governos de turno, por razões ideológicas, favorecem os seus mais próximos. Entretanto, os pobres continuam a ser obrigados a receber os cabazes formatados para despachar os bens recebidos, independentemente das suas necessidades – claro, porque não vão deixar de se manter pobres. Independentemente dos seus apetites, pois quem se recusar a levar salsichas também não leva o arroz.

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Em Portugal, como mostram os dados da Pordata, só as pensões e os subsídios sociais têm permitido a contenção do aumento da pobreza.

A nível global, apesar da produção agrícola cobrir largamente as necessidades alimentares de toda a humanidade, há largas centenas de milhões de pessoas que passam fome. Costuma dizer-se que isso se deve às dificuldades de distribuição. Mas, se for assim, como se explica que a maioria dos famintos sejam sobretudo agricultores?

E se isso se devesse aos processos de investimento? Como é que o aumento das despesas da segurança social não têm efeitos práticos na redução da pobreza? O investimento na manutenção do sistema bancário não tem efeitos práticos na economia? Como podem os agricultores, ao mesmo tempo, entrar num mercado viciado por lautos subsídios à monocultura industrial nos países ricos e resistir à militarização das suas vidas?

Que regime é capaz de impedir o acesso de tantos agricultores a bens alimentares essenciais para as suas famílias? Que regime é capaz de manter famintas grande parte das suas crianças e das respectivas mães e famílias?

O que nos ensina a escola a este respeito?

Não é admissível que as escolas que dão alimentos às crianças com fome, para que elas possam aprender, não lhes expliquem, não nos expliquem, por que passam fome, elas e a suas famílias. Ensinar a fazer canas de pesca é tarefa prioritária da escola, da sua responsabilidade directa. Servir o peixe já cozinhado, a prazo, não mata a fome: alimenta-a.

Cabe à sociedade, não à escola, assegurar igualdade de oportunidades para todas as crianças. O que tem feito a sociedade portuguesa para que isso se concretize?

Por vontade do autor, e de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc eTal jornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.

01jan17

 

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