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Eugénio de Andrade

José Fontinha foi o nome que lhe deram os seus progenitores mas, por este nome, poucas pessoas o devem identificar. Na realidade, se falarmos em Eugénio de Andrade, será mais fácil associá-lo ao grande poeta que nasceu a 19 de Janeiro de 1923, na Póvoa da Atalaia (pequena aldeia da Beira Baixa – Fundão) e que viveu grande parte da sua vida no Porto.

Muito cedo, aos sete anos, deixou a terra natal, acompanhado de sua mãe, Maria dos Anjos, para viver em Castelo Branco. Depois, já com 10 anos, foi residir em Lisboa, devido à separação dos pais. Na capital, passou os anos de adolescência, frequentou o Liceu Passos Manuel e a Escola Técnica Machado de Castro. Foi a época em que descobriu a sua vocação poética, o que lhe despertou a curiosidade de conhecer e conviver com alguns escritores e poetas.

Mãe de Eugénio de Andrade
Mãe de Eugénio de Andrade

Em Coimbra viveu de 1943 a 1946, ano em que terminou o serviço militar. Da sua passagem por Coimbra, recordamos que conheceu e estreitou relações de amizade com Miguel Torga, Eduardo Lourenço e outros intelectuais da época e que, por essa altura, publicou a obra “Pureza”.

Em 1947, ingressou na função pública, exercendo o cargo de inspector-administrativo do Ministério da Saúde, durante 35 anos. Em 1950 foi transferido para o Porto, onde viveu até ao fim dos seus dias, em 2005.

Uma data que muito marcou a vida do poeta foi o ano de 1956, altura em que faleceu a sua mãe, aquela que foi a figura incontornável da sua obra, a pessoa que o acompanhou sempre:

Não me esqueci de nada, mãe. / Guardo a tua voz dentro de mim. / E deixo-te as rosas.

Na cidade do Porto viveu quatro décadas na mesma casa, na Rua Duque de Palmela, nº 111, até à sua mudança, em 1994, para a casa da Foz, a Casa de Serrúbia, na Rua do Passeio Alegre, que haveria de ser a Fundação com o seu nome, na Foz do Douro (extinta em 2011), casa onde habitou até falecer.

Eugénio

Eugénio de Andrade, figura maior da poesia portuguesa do século XX, começou a escrever os seus primeiros poemas no ano de 1936.

O primeiro volume de poemas que publicou foi “Narciso”, em 1940, assinando-o com o seu próprio nome – José Fontinha. Mas, segundo ele próprio confessaria posteriormente, embora tivesse tido uma grande alegria em ver o seu nome como autor, no entanto, sentiu-se depois envergonhado e passou a usar um pseudónimo. Em 1942, deu à estampa a obra “Adolescente”, uma edição de autor, custeada por um amigo que o incentivou a mostrar publicamente o que escrevia. Era uma obra dedicada a Fernando Pessoa, poeta que lhe despertava um verdadeiro fascínio. É nesta obra de 1942, onde passa a usar definitivamente o pseudónimo “Eugénio de Andrade”.

Em 1948, tinha então apenas 25 anos, publicou a obra “As Mãos e os Frutos”, a qual representou a confirmação de um grande poeta, prenunciando a carreira brilhante que teria pela frente, ligada à poesia – é esta a obra que lhe confere uma visibilidade maior e que, ele próprio considera a sua verdadeira estreia literária.

Para além da poesia, Eugénio de Andrade dedicou-se à tradução e à escrita em prosa, salientando-se dois livros infantis (“Aquela Nuvem e Outras” e “História da Égua Branca”), produziu diversos ensaios e prefácios, colaborou em numerosas publicações, traduziu do castelhano o poeta/dramaturgo Frederico García Lorca, além de José Luís Borges, René Char, organizou as Cartas Portuguesas atribuídas a Mariana Alcoforado e, simultaneamente trabalhou nos Serviços Médico-Sociais do Ministério da Saúde.

Entre os muitos prémios com que foi distinguido, destaca-se o Prémio Camões, o maior galardão em língua portuguesa, que lhe foi atribuído em 2001. Para além deste, foram-lhe atribuídos o grau de Grande Oficial da Ordem de Sant’iago da Espada e a Grã-Cruz da Ordem de Mérito, o Prémio da Associação Internacional dos Críticos Literários, o Prémio Europeu de Poesia da Comunidade de Varchatz (da ex-Jugoslávia) e o Prémio Vida Literária da Associação Portuguesa de Escritores.

é urgente o amor

Foi no Porto onde desenvolveu a parte mais importante da sua obra, produzindo os trabalhos mais significativos, nomeadamente:

– “Os Amantes Sem Dinheiro” (1950);

– As Palavras Interditas (1951);

– Ostinato Rigore (1964);

– Obscuro Domínio (1971);

– Limiar dos Pássaros (1972);

– Matéria Solar (1980);

– O Sal da Língua (1995);

– Os Lugares do Lume (1998).

Eugénio de Andrade foi amigo íntimo de poetas seguidores de correntes muito diversas, como Sophia de Mello Breyner, Mário Cesariny ou Luís Miguel Nava, tal como de críticos consagrados, como Óscar Lopes, António José Saraiva, João Gaspar Simões ou Arnaldo Saraiva.

Apesar do seu inegável fascínio pela poesia de Fernando Pessoa, Eugénio de Andrade sofreu outras influências, nomeadamente do poeta Cesário Verde. Contudo, seria Camilo Pessanha, aquele que considerou como o seu “Mestre”.

Sophia com Eugénio
Sophia com Eugénio

Eugénio de Andrade faleceu em 13 de Junho de 2005, tal como tinha escrito:

“Pela manhã de Junho é que eu iria/ pela última vez”.

Mas, a morte não encerrou o génio deste grande poeta, Eugénio de Andrade porque, para além da sua morte, ficará para sempre a beleza da sua poesia:

A morte

não é um segredo

não é em nós um jardim de areia.
De noite

no silêncio baço dos espelhos

um homem

pode trazer a morte pela mão.

 

Texto: Maximina Girão Ribeiro

Fotos: pesquisa Google

 

Obs: Por vontade da autora e, de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc eTal jornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.

01fev18

 

 

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