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Falachas de São Brás – entre a fé, a lenda e a tradição

Lurdes Pereira (*)

Movidos pela fé e pela promessa de regresso do ano anterior, São Brás foi mais uma vez palco e anfitrião da festa em sua honra. Uma efeméride que, desde tempos longínquos, é acompanhada pela tradição das falachas de Resende a adocicar o pequeno dia de Inverno.

“Falacheiras” de Resende teimam em preservar a tradição deste “pão divino” feito de castanha pelada e seca ao fumo da lareira. Todos os anos, no dia de S. Brás os devotos ao Santo juntam-se para orar, vender falachas e confraternizar, desejando este reencontro todos os anos, por esta altura, mantendo a tradição de tempos imemoriais.

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Curiosos e repetentes subiram ao Cimo de Resende. Depois de um percurso em terra batida, a capelinha consagrada a São Brás recebia os seus fiéis amigos para mais uma festa religiosa.

São Brás foi um médico muito popular que viveu entre os séculos III e IV na Arménia. Foi preso e torturado por não renunciar à sua fé, tendo morrido degolado.

Por ter realizado vários milagres relacionados com garganta, torna-se padroeiro dos animais, dos veterinários, das dores de garganta e das crianças. E, relembrando as virtudes do Santo, assim se cumpriu a tradição de mais um dia de São Brás junto à sua capela no Cimo de Resende.

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Logo pela manhã chegam viaturas com as gentes do costume e outras que se vão juntando aos grupos. “Falacheiras” e doceiras não faltam neste dia comemorativo, assim como também os grupos de familiares e amigos que trazem o farnel e ali passam o dia a cozinhar, orar, jogar e confraternizar.

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O frio da manhã é um bom motivo para iniciar a azáfama. Procura-se lenha, galhos secos e acendem-se fogueiras, enchem-se os potes, (panelas de ferro), para confecionar iguarias da terra como um bom cozido à portuguesa. Trazem enchidos, queijos, pão, presunto e, claro está, tudo bem regado com bons vinhos da região. Há quem traga o farnel cozinhado para colocar nas mesas. Prova-se aqui degusta-se ali, bebe-se um copo à “escolha do freguês#”. A manhã brinda submersa em amizades genuínas, em palavras amigas acompanhadas de sorrisos, abraços e algumas brincadeiras de ocasião. À hora de almoço envolvem-se num apetite generoso de assalto às panelas… Ouvem-se risos, palavras soltas a ritmar com o crepitar da lenha nos braseiros.

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A tarde avizinha-se com a missa na capela em honra do padroeiro, pequena para aqueles que ali, ano após ano, lhe oferecem a sua devoção.

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Entretanto, veem-se grupos de diversão a jogar a tradicional malha, forasteiros e conterrâneos que teimam manter a tradição, quase familiar, num convívio sob o céu que os abriga neste dia frio de Inverno.

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São Brás dá as mãos à festa das falachas. Conhecido por “pão divinal das gentes serranas”, as falachas são uma iguaria muito conhecida nesta região. Depois de colhidas nos soutos, as castanhas, vão ao caniço (secam ao calor e ao fumo da lareira). Conta-nos a D. Emília de Cárquere que “retiradas do caniço são descascadas e britadas com o martelo para, posteriormente, moer no moinho. ”Os moinhos estão a cair em desuso” pelo que, muitas falacheiras submetem a castanha aos moinhos elétricos, mas “eu continuo a moer a farinha no moinho de água em Fornelos, Resende, porque a farinha fica mais fina” proporcionando uma textura mais agradável.

A farinha é amassada com ajuda de água, um pouco de sal e açúcar e um pouco de farinha de trigo para obter a “liga”. Depois é moldada e espalmada em folhas de castanheiro, previamente secas e reservadas para servir de base ou forma destas pequenas broinhas em forma de bolacha. E assim vão ao forno de lenha para acentuar o sabor. Isenta de crescentes, sabemos que estamos a comer apenas este pão delicioso, achatado e negro de sabor a castanha seca e pelada (descascada).

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As falachas remontam a Idade média. Assolados pelas épocas de crise, este alimento substitui os outros cereais na preparação do pão. A transformação da farinha, que serviu para matar a fome em períodos críticos, continua na memória dos “Olhares” de Resende. Ainda há quem faça as falachas de salpicão, maiores, mais caras, mas de crescer água na boca com sabor adocicado deste “pão” a contracenar com o sal das carnes secas no fumeiro.

A tradição tende a perder-se por falta de seguidores. Contudo, a nora de D. Emília promete dar-lhe a continuidade merecida que, para já, se mantém todos os anos no dia de S. Brás.

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Junto ao cesto das falachas, não foi esquecida a tradição da castanha para a sopa do Domingo de Ramos. A Sopa de Castanha pelada, seca no caniço, é outra das tradições a marcar presença no cardápio dos pratos típicos de Resende. Reza a lenda que, no Domingo de Ramos, não se pode comer hortaliças porque a Nossa Senhora andava escondida no meio das hortas a guardar os moscos para que estes não comessem as hortaliças. Assim, a Sopa de Castanha passou a ser a eleita dessa efeméride, marcando a tradição até aos dias de hoje.

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No final da missa projetam-se os foguetes em sinal de Festa ao Padroeiro, S. Brás. É hora de comer enchidos da região. Mesmo que desconhecidos, os forasteiras agrupam-se aos demais provando fumeiros, queijos e presunto acompanhados de broas frescas e bons vinhos da região.

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Muitos regressam a casa com os sacos cheios de falachas, e os do costume continuam o convívio até ao cair da noite, quando todos se despedem: – “Até ao próximo ano!”.

(*) texto e fotos

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3 Comments

  1. Helena Afonso

    Gostei muito do seu artigo.
    Não conhecia as”falachas”!
    Gostava de saber em que dia do ano costumam fazer esta celebração, para dar poder partilhar este evento popular convosco!
    Muito obrigada

    Helena Afonso

  2. Lurdes Gomes

    Obrigada Nelson.
    Salvaguardando uma ou outra tradição gastronómica, as mesmas deambulam no tapete rolante em dia de tempestade. Não quero com isto dizer que a culpa reside só na falta de apoio das instituições, mas também na própria população que deve ter a sensibilidade para não deixar morrer aquilo que faz parte de nós. Contudo, são as instituições que têm o dever de tirar do anonimato estes saberes para que se projectem para o futuro. Muitas vezes a luta é inglória. Porque a sobrevivência de uma tradição depende do seu retorno. Neste caso concreto, se as falacheiras não venderem as falachas para as quais tanto trabalharam, as mesmas “morrem” com a tradição.

  3. Nelson Rosário

    Parabéns pelo excelente texto e fotografias.

    Fui um dos que teve o grato prazer, de fazer parte deste excelente convívio.
    Obrigado Lurdes Pereira, pela divulgação deste evento de cariz tão popular.

    Pelo que me apercebi, os apoios institucionais foram poucos ou nenhuns, e é pena, pois estes eventos, fazem parte dos costumes de um povo, e também servem para divulgar uma região, de excelentes paisagens e tradições.
    Bem haja a todos.

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