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“A Pulseira de Ouro e Outras Histórias” ou o “escrínio” de José Manuel Tavares Rebelo apresentado na Casa dos Açores do Norte

A Pulseira de Ouro e Outras Histórias” é o mais recente livro de José Manuel Tavares Rebelo, açoriano de Ponta Delgada, onde nasceu a 05 de maio de 1939, licenciado em História pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, cofundador e atual presidente da Assembleia Geral da Casa dos Açores do Norte (CAN), sediada no Porto, cidade onde o autor desta obra vive desde 1970. Tavares Rebelo foi ainda colunista deste jornal.

A obra, um misto de prosa e poesia, foi apresentada no passado dia 03 de março, na sede da Casa dos Açores do Norte, instituição responsável pela edição do livro, o qual teve o patrocínio da Fundação Eng.º António de Almeida, e isto na presença de dezenas de pessoas, com destaque, além do autor, para o presidente da Direção da CAN, Ponciano de Oliveira, e para Isabel Ponce de Leão, professora catedrática na Universidade Fernando Pessoa e doutorada em Literaturas Hispânicas e licenciada em Filologia Românica.

Jose rebelo (02) - CA - mar18

Jose rebelo (06)- CAN - mar18

E coube a Isabel Ponce de Leão a presentação de “A Pulseira de Ouro e Outras Histórias”, que a fez de forma altiva e emotiva, e que transcrevemos na íntegra:

Jose rebelo (05)- CAN - mar18

Escrínio… É-o de facto “A Pulseira de Ouro e Outras Histórias”, de José Manuel Tavares Rebelo. A obra inclassificável pela diversidade textual a nível semântico e formal, encerra, religiosamente, histórias de vida que o autor quer guardar para a posteridade. Há como que uma capitalização de vivências, importantes na formatação de um percurso, salvas pela letra de forma, que se guardam no fundo deste escrínio, configurado num livro afinal aberto a todos. À preocupação de guardar junta-se a de desvendar e partilhar conferindo à obra uma idiossincrasia sui generis.

O próprio autor tem disso consciência pela forma como a estrutura indo buscar retalhos de vida que depois une segundo critérios próprios mas não necessariamente ortodoxos.

Aberta a obra com testemunhos de amigos e cúmplices que denunciam a interessante faceta de uma “insularidade portuense”, desde logo se anuncia este espírito de pertença do autor a dois espaços geográficos que une, admira, promove, neles colocando as suas personagens reais e ficcionais bem como os episódios que enformam vidas.

A tentação pela narrativa breve, sintética e monocrónica surge numa sequência de 9 contos. São factos de vida que enformam textos curtos e lineares que envolvem poucas personagens concentrando a ação, o tempo e o espaço. Nesta perspetiva, os contos são canónicos e a sua brevidade faz do autor um alquimista na manipulação da palavra demonstrativa da capacidade de sintetizar a complexidade da vida. Contudo, ao contrário do conto atual não há aqui a visão de um mundo descentrado em que o ser derive à procura de um caminho.

Há, outrossim, através da arte da alusão e da sugestão, momentos de vida, fragmentos de existência. Realidade e ficção imbricam-se e o Capitão Quim ou Lyne, Jaime ou Magda, Luciano ou Diamantino percorrem espaços insulares e continentais e cruzam-se com um quotidiano verosímil por onde também deambula o próprio autor. Contudo, o domínio do fantástico não é posposto e práticas metaficcionais e intertextuais (eg “Máquina do Tempo”) mergulham o leitor em outros mundos um dos quais poderia ser o de “Alice”, até porque as “maravilhas” acontecem. De todos destaco “Da aldeia abandonada à revolta dos poetas” em que o autor postulando-se no domínio do fantástico, convoca personagens reais, usando de um tom humorístico e mesmo satírico mas não menipeio, fazendo com que uma única célula dramática preconize um outro modus vivendi.

As sete crónicas que se seguem, publicadas entre 1997 e 2001 no jornal “Atlântico Expresso” parecem ser como que um prolongamento da narrativa breve agora com personagens do mundo real. Nelas, José Manuel Rebelo, mantendo embora a brevidade e concentração, verte episódios do mundo atual. Continuando a privilegiar, com ligeiros desvios, o mapeamento continente / ilhas, convoca para estes textos pessoas humildes, triviais que enforma um quotidiano de labuta. Por outro lado, e inserindo-se no espírito do género, surge o comentário a ocorrências onde sobressai a crítica social e política e a esperança numa mudança de mentalidades aqui bem representada por Abigail de “O Catedrático e a Adolescente”. Para além do comentário – por vezes jocoso (eg “Noiva ‘Malcriada’”) – a factos do quotidiano, evidencia-se um forte e nobre preocupação pedagógica.

O texto poético tem idiossincrasias próprias que o tornam indispensável presença neste escrínio. Os cinco poemas aqui presentes são, antes de mais, poemas de esperança. De uma luta que é preciso continuar. Luta pessoal, luta social. Luta no presente, luta no futuro; mas uma luta benéfica, pacífica, que corrobore o bem da humanidade. As preocupações aqui inseridas não se afastam das já plasmadas nos contos e nas crónicas. Humanismo, sobretudo humanismo e amor ao próximo sem nunca pospor a toada pedagógica.

A novidade está no pungente e magnífico poema “A minha luz” – que a emoção não me deixa comentar – e na presença constante de elementos da natureza que, num êxtase sinestésico, conferem esplendor cromático. Esta capacidade sinestésica torna-se ainda mais forte em poemas escritos depois de 2014, em que sons e cheiros se erigem sinfonia vital.  Esta tendência, actualmente mais acentuada, é já visível no poema de juventude “Para ti meu amor” (1968)

Verde-praia,

sonho branco

da minha montanha:

diz baixinho

que me queres

e a tua imagem verde

vem calar

a voz da bruma.

Vem.

Vem rodear a árvore

e beber a seiva.

Verde espero.

E quando vieres

matar a bruma

dou-te um ramo

banhado de Sol…

O retrato literário tem uma retórica própria que, assazmente, o aproxima do esboço biográfico. Tal se passa com os sete Retratos que José Manuel Rebelo insere na presente obra. Associando a prosopografia à etopeia coloca a personagem no seu meio ambiente e dá conta de uma sucinta história de vida. Assim apresenta a pessoa tornando-a visível, credível e próxima através de um espelho de palavras. Ainda que a prosopografia esteja presente – dados biográficos são fortemente recorrentes – quero crer que estes retratos seguem uma linha etopeica, na medida em que o que está em causa, e o autor quer revelar, é o carácter, o comportamento, o saber fazer de pessoas que, pela sua honorabilidade, marcaram a vida pública. Sempre ligadas física ou afetivamente à sua geografia eletiva – Porto e Açores – são os valores morais que ressalta; valores humanistas, de caridade, de amor ao próximo, de valentia, coragem ou abnegação.

O Retrato institui em “A Pulseira de Ouro e Outras Histórias” duas linhas matriciais: a da gratidão coletiva e a da imortalidade. Explico: gratidão porque apenas aqui são retratadas pessoas cujo comportamento beneficiou a humanidade em geral e não um ser em particular; imortalidade porque recordá-las é uma forma de as manter vivas num mundo mais ou menos deslembrado. Desta forma o autor presta tributo àqueles que, pelo seu exemplo, não podem nem devem ser esquecidos.

Em “Outros Textos”, José Manuel Rebelo assume, indiretamente embora, o seu amor às Ilhas e, discretamente, sugere o muito que por elas tem feito. Surgem dados sobre o Boletim Informativo e Cultural da Casa dos Açores no Norte, divulga o mais antigo filme – propriedade sua – realizado nos Açores em 1924, refere as ligações de Miguel Torga ao arquipélago, sobretudo através de entradas do “Diário”, e reporta, não por acaso, a uma conferência sobre António Feliciano de Castilho que eu própria fiz neste local. O grande poeta que passou pelas suas ilhas e que apenas lá conseguiu implementar o seu método de leitura. O poeta que tal como o nosso autor de “A Pulseira de Ouro e Outras Histórias” soube lutar pela utopia.

Isto dito, “A Pulseira de Ouro e Outras Histórias” é, antes de mais, um livro de memórias, histórias de vida sem denominação canónica. Um escrínio que alberga a joia mais querida, seja a vivência de alguém que soube por onde ia, porque ia e até onde ia. Esse lugar onde, chama-se utopia como o próprio diz: “Creio na realização da utopia porque sei que vou alcançar o Invisível: esta certeza dá-me força para caminhar e ânimo para viver.

Esta obra é prova da sua força e do seu ânimo, que nasce apoiada pela, sempre presente nas justas causas da cultura, Fundação Eng. António Almeida sendo os lucros da sua venda destinados a causas nobres.

Marãnatá (O Messias veio, está aqui e tornará), José Manuel, o Messias está e estará sempre com quem nele crê. Devolvo o agradecimento especial. Vou aprendendo a realizar utopias. Guardo-as no meu escrínio. Obrigada por mo ter ensinado. Maranata”.

Tudo dito e… bem dito!

José Manuel Tavares Rebelo rendeu-se, por assim, dizer às palavras de Isabel Ponce de Leão. “Estavam à espera que, aqui, alguém falasse mal de mim?”, disse. Risos.

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Este encontro de amigos e admiradores de José Manuel Tavares Rebelo, contou ainda com a atuação de Francisco Cymbrom (violino) e seus colegas do ESMAE (Daniela Duarte, soprano; Leonor Sá, violoncelo; e Mário Santos, piano) que interpretaram, entre outras, obras de Henry Porcel e Luís Bettencourt. Seguiu-se um Porto de Honra que finalizou, assim, este encontro destinado a apresentar “A Pulseira de Ouro e Outras Histórias”, livro cujo produto da venda reverte a favor do projeto de apoio psicossocial aos doentes açorianos que se desloquem aos hospitais do Porto.

Texto: José Gonçalves

Fotos: CAN

01abr18

 

 

 

 

 

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1 Comment

  1. José Manuel Tavares Rebelo

    Muito agradeço ao director José Gonçalve, o destaque dado à apresentação do meu livro. Como disse na altura, não sou poeta nem escritor, simplesmente a minha escrita é o resultado das pessoas com quem convivi desde a minha infância e das experiências que vivenciei. Tudo me fez acreditar na bondade do ser humano.

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